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Fio de Prumo



Quinta-feira, 18.10.07

Os pilotos-aviadores da Força Aérea Portuguesa

Fonte: Correio da Manhã

 
Ontem, conforme noticiam os jornais, Cavaco Silva, Presidente da República, foi visitar a Base Aérea n.º 5, em Monte Real. O suposto motivo da deslocação do Presidente está relacionado com a próxima partida de um contingente de 140 militares da Força Aérea, divididos em dois grupos, para o Báltico, onde vão cooperar com a defesa aérea da região, no âmbito de uma missão da OTAN. Deslocam-se quatro F-16 com seis pilotos.
É uma missão pouco mais que simbólica, embora de importância, para um pequeno Estado como o português.
 
Não me vou prender hoje com mais este empenhamento das Forças Armadas de Portugal fora do território nacional, nem discutir da valia de tais envolvimentos.
Centrarei a minha crónica nas afirmações do Presidente da República quanto à constante sangria de pilotos-aviadores da Força Aérea para servirem em companhias de aviação civis, nacionais ou estrangeiras.
 
Verdadeiramente, este é um problema que começou a surgir depois da guerra colonial e, para o entender, é preciso recuar no tempo, estabelecendo diferenças que apontem a soluções.
 
Antes e durante a guerra havia na Força Aérea a categoria de piloto atribuída a sargentos e oficiais milicianos e a de piloto-aviador aos oficiais oriundos da Academia Militar que estavam habilitados com o curso daquele estabelecimento.
Os sargentos podiam ser milicianos ou do quadro permanente e os oficiais pilotos eram milicianos ou do quadro permanente quando oriundos de sargentos. A Força Aérea foi sempre elitista na organização dos seus quadros.
 
Ora, durante muitos anos, a companhia aérea nacional foi alimentada, no que toca ao recrutamento de pilotos pela Força Aérea Portuguesa — e não só — quando passavam à disponibilidade os seus quadros milicianos.
Isto aconteceu durante a guerra e mesmo antes dela. Assim, os oficiais pilotos-aviadores — do quadro permanente pelas razões antes explicadas — não tinham «espaço» para concorrerem à actividade aérea na vida civil. Por outro lado, porque havia que formar todos os pilotos milicianos que engrossavam as fileiras da Força Aérea, os pilotos-aviadores voavam muitas mais horas em instrução, o que não lhes frustrava a vocação aeronáutica.
 
Tudo isto se modificou depois de 25 de Abril de 1974, em especial quando acabou o recrutamento de sargentos milicianos pilotos, pois as companhias aéreas continuaram a ser aliciantes em termos de carreiras, mas a fonte alimentadora — a Força Aérea — deixou de lhes fornecer, em quantidade significativa, «mão-de-obra», porque passou a recrutar para o curso de piloto-aviador da Academia da Força Aérea e para oficiais em regime de contrato (milicianos). A quantidade destes últimos desceu bastante, porque se esperava suprir as carências com oficiais do quadro permanente.
 
Justificada a «fuga» — desde pelo menos o começo da década de 80 do século passado — de pilotos militares para a vida civil há que perceber como se pode colmatar, realmente, essa sangria.
 
Na minha opinião — que dou grande importância às lições do passado — ter-se-ia de estabelecer, em paralelo, duas medidas:
1.ª Retomar o recrutamento de sargentos milicianos destinados a pilotos — com habilitações literárias do nível 9.º ano de escolaridade —, sujeitos a um contrato de um mínimo de oito anos de serviço sem possibilidades de desvinculação a não ser por incapacidade permanente para o serviço de voo; o contrato poderia ser prorrogado por períodos de dois anos até um limite de quatro, altura em que: a) ingressariam no quadro permanente como sargentos; ou, b) por frequência do curso politécnico — Escola Superior de Tecnologias Militares Aeronáuticas (ESTMA) — passariam à condição de oficiais pilotos, depois de terem concluído o 12.º ano de escolaridade;
2.ª Continuar com a admissão de cadetes para a frequência do curso de pilotagem aeronáutica, na Academia da Força Aérea, mas condicionando-lhes, por via legal, a saída da Força Aérea a um mínimo de vinte anos de serviço ou uma muitíssimo elevada indemnização.
Claro que, passando a dispor de sargentos pilotos, haveria muitos tipos de aeronaves que não ficariam tão rapidamente desguarnecidos de tripulações, tanto mais que, hoje em dia, o 12.º ano de escolaridade é indispensável em quase todas as profissões e, por outro lado, a ESTMA seria uma alternativa para formar oficiais que poderiam chegar ao posto de coronel piloto com o competente desempenho de grande parte das funções hoje só atribuíveis a coronéis pilotos-aviadores.
 
Enquanto uma medida desta natureza não for tomada, os problemas naquele Ramo das Forças Armadas só se agravarão. No fundo, recordo o aforismo popular: quem não tem cão caça com gato.
Deixar tudo como está é pretender continuar a servir dois senhores: a Força Aérea e os interesses individuais de pilotos sem verdadeira vocação militar, porque, qualquer jovem que a sinta com autêntica força apelativa opta por frequentar a Academia da Força Aérea. Poderão ser poucos, mas são garantidamente aqueles que estão vocacionados para serem os chefes e os comandantes do futuro.
 
Remeto a quem de direito esta reflexão. Já nada ganho contribuindo para o futuro da Força Aérea, mas sentir-me-ia mal comigo se guardasse uma opinião que pode ser útil ao Ramo das Forças Armadas que servi com amor e entranhado gosto durante quase quarenta anos da minha vida. Que aproveite quem quiser!

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 15:11


11 comentários

De jose antonio borges da rocha a 18.10.2007 às 21:47

Eis uma insigne reflexão teórica sobre um problema concreto...
Parabéns ao autor e permita-me discordar do "remate" quando diz que nada ganha contribuindo..., embora perceba a exacta medida desta estirada a verdade é que pode ser tomada de forma errada ou re-interpretada de forma menos anamnésica, pelo que, e pedindo desculpa por dizê-lo, julgo que ser OBRIGAÇÃO PERMANENTE DO CIDADÃO CONTRIBUIR PARA A MELHORIA DA SOCIEDADE EM QUE VIVE e nesta condição é sempre um dever que o Meu Coronel não poderá descartar.

Com Vénia e saudação elevada

De Camoesas a 18.10.2007 às 22:41

Desculpe meu caro Fraga mas, esse problema da falta de pilotos já está muito "gasto", claro que continua a existir...
Note que salientou :"quatro F-16 com seis pilotos" e umas linhas antes quantificou : "140 militares da Força Aérea"...

...Tanta gente para que voem apenas ...6!!!

Serão esse outros 134, incompetentes e dispensáveis ou a FAP não precisa de se preocupar com a "concorrência"?

De João Raposo a 18.10.2007 às 23:19

Assino por baixo.
O problema da "deserção de quadros caríssimos" tarda em ser enfrentado não só no que respeita a pilotos mas também em médicos e engenheiros (nestes, a indemnização ridícula permite-lhes abandonar o barco no limiar de acabarem o curso ou, no caso dos médicos, antes de iniciarem a especialidade).
No Exército o que se vem passando com médicos oriundos da AM é um escândalo!
É óbvio que o problema se resolve com tempo de permanência obrigatória que permita recuperar o investimento e durante a qual não há saída possível excepto por questões de saúde já regulamentadas.

De Zé Tavares a 19.10.2007 às 13:45

Estou plenamente de acordo com a sua opinião. E sobretudo com duas afirmações: ir ao passado e que a FAP sempre foi elitista.Sempre achei que acabarem com os sargentos pilotos foi uma asneira mas devido ao tal elitismo só os srs oficiais podiam comandar as aeronaves. Quanto ao elitismo quero ainda relembrar um episódio passado comigo na guerra do ultamar e aqui já relatado que enquanto dormi debaixo duma berliet sem que ninguém se preocoupasse com isso andavam alguns oficiais ditos superiores preocupados com a a instalação dum alferes só que era piloto. Só mesmo de complexados.Zé Tavares

De António José Trancoso a 20.10.2007 às 01:48

Meu Caro e Bom Amigo
Isto de ser velho...é uma seca.
É que, tal como na História, os factos e as suas armadilhadas contradições, só começam a fazer verdadeiro sentido passados muitos anos.
Tempos houve (quando este País era maioritariamente povoado por ignorantes, para não dizer, forçada e obrigatoriamente, labregos) em que, as pretensas e consentidas "elites", eram perfeitamente identificáveis.
O acesso aos Estabelecimentos Militares de Ensino
Superior (e não só, v.g. ao Colégio Militar) não era, de modo nenhum, fácil, nem facilitado, ao mancebo comum, falho dos "encomiásticos pergaminhos" do Regime.
Ser Oficial das Forças Armadas era, então, sinónimo de pertencer a uma das mais, senão a mais importante das referidas" elites".
Os acontecimentos que assolaram o Pais, a partir do final da década de 50, criaram necessidades tais, cuja superação colidiu, "invasiva e dramaticamente", com a oficiosa mentalidade instalada.
Assim, os respectivos próceres, sob mal-amanhado e pseudo-legal disfarce, não se coibiram de engendrar formas de "salvar a face"; a sua obsoleta, retrógrada e reacciionária face.
Fizeram-no, impunemente, sem qualquer tipo de escrúpulos, tanto do ponto de vista ético-moral como do resguardo dos escassos recursos nacionais que menosprezaram e malbarataram.
Actualmente, tudo mudou.
Até a TAP, de há meio século, pouco, ou nada, tem a ver com a hodierna evolução da Aeronáutica Civil.
E, a Condição Militar, pelo que se está a ver,caminha, a passos largos, do 88 para o 8.
Daí..., compreensivelmente, a necessidade aguçar o engenho.
Ou será que a Pátria da "elite política" não é a mesma que A dos Militares?!

De José Casimiro a 08.12.2007 às 18:58

Embora pertinente o artigo enferma de algumas, perdoem-me a expressão, incoerências .
A ESTMA , é uma Instituição de ensino politécnico , que partilha o mesmo espaço físico com a AFA (Academia da Força Aérea), esta última uma Instituição de ensino superior. Logo, nela só podem ingressar indivíduos (e no caso da ESTMA apenas militares) que já tinham a frequência do 12º e findo o curso é conferido aos mesmos o grau de Bacharel. Aos alunos da AFA , findo o curso, é-lhes obviamente atribuído o grau de licenciatura.
Ora, os ditos sargentos pilotos milicianos, só nela poderiam ingressar com o 12º ano já concluído.
Por outro lado, o processo de Bolonha, vai obrigar esta duas Instituições de ensino a adequar os seus cursos e muito provavelmente a ESTMA irá ser extinta.
Saudações aeronáuticas .

De Luís Alves de Fraga a 08.12.2007 às 22:55

José Casimiro,
Por dentro do processo de formação da ESTMA estou eu, que, por acaso, fui o presidente da sua Comissão Instaladora na AFA e seu primeiro Director de Ensino. O que ela é e como funciona sei e conheço bem... A ESTMA só tem de «seu» um Director de Ensino Politécnico, uma Secretaria Escolar e um guião... Tudo o mais é pertença da Academia da Força Aérea e comum com ela!
Acresce que está expresso na postagem que os sargentos pilotos para frequentarem a ESTMA teriam de estar habilitados com o 12.º ano!
Acresce que, tendo estado na origem de todo o processo de instalação da ESTMA na AFA (onde também fui Director do Ensino Universitário), sei que ela é, como lhe chamei na «Mais Alto» de Agosto/Setembro de 1996, um «nado morto» e, tal como eu previa, em 1991, ela acabará por ser extinta, como já consta da proposta legislativa do Governo, em função do processo de Bolonha.
Acresce, também, que tendo sido o primeiro estabelecimento militar politécnico esteve para, à semelhança do que acontece com o Instituto Politécnico de Faro, ser integrada na AFA como mais uma Direcção de Ensino. Não o foi, porque, na altura, houve um forte movimento elitista na Força Aérea contra a frequência de sargentos na AFA , como alunos da mesma AFA (até posso citar nomes... mas não convém).
Assim, por mais voltas que dê à minha postagem não lhe encontro incoerências. Incoerentes têm-me parecido os oficiais pilotos-aviadores da Força Aérea que têm frequentado uma Academia de formação militar e, no termo legal, abandonam a carreira castrense para usufruírem de chorudos salários em companhias de aviação. Isso é que é incoerência! Coerência é ficar e fazer carreira de alferes até onde for possível chegar.

De Andrei Kropotoff a 22.08.2009 às 02:33

Obrigado pela informaçao.
sou um jovem de 18 anos, vou completar o 12 no próximo ano lectivo e pretendo ingressar nos quadros permanentes da FAP .. vou me candidatar ao curso de PILAV's na academia da FA .. partilho da opinião que a pilotagem de aeronaves esta restrita a uma elite... mas também compreendo que assim se diminuem o risco de "falhas" ou acidentes de causa humana..
cumprimentos

De luis Vazquez a 09.05.2010 às 17:30

Viva!
Tenho 18 anos e já me candidatei á AFA. a> este ano.
Concordo com a sua opinião. A única razão que vejo para se deixar de ser piloto da força aérea , são os ordenados (gordos) que a aviação civil oferece, e como estes pilotos são formados na melhor escola de aviação, conseguem sempre emprego em qualquer lado. Desde pequeno que quero ser piloto e ao longo dos anos sinto cada vez mais o "chamamento". Neste momento a única coisa que quero é ser piloto de caças, quem sabe um dia aos comandos dos Alfajet´s . Mas o meu pai é piloto e diz me sempre para ter a mente aberta, pois depois de estar lá dentro e ver os ordenados que os pilotos civis oferem posso ter vontade de sair. A única coisa que respondo é: " para alem da paixão por voar, a aviação militar também é a que realmente me preenche. Tudo isto para dizer que tenho orgulho em servir pontual e ainda mais de um dia me tornar piloto da Força Aérea , e se me perguntarem se quero ir em missão eu responderei que sim.
Já me disseram que a vida é mais do que Força Aérea mas neste momento o espírito que sinto é de total dedicação a ser piloto da AFA. a> .
Escrevo este enorme "testamento" para vos perguntar: Será que é este o pensamento dos actuais pilotos FA ou de quem se está a candidatar? e, Deveria ser este o pensamento de um piloto da FA ?

Com os melhores cumprimentos

De joao a 06.10.2010 às 21:34

Gostava de saber entre que valores ficam as medias de entrada no curso superior da academia de piloto aviador?

De carlos sotero a 21.06.2014 às 14:56

Concordo plenamente e faço das palavras do exº sr. Luís Alves de Fraga, minhas palavras foi e não sei se ainda continua a ser uma situação surreal no qual a FAP com os dinheiros públicos forma pilotos e estes por sua vez depois de terem a papinha feita ás custas do dinheiro de todos nós contribuintes dizia eu deixam a Força Aérea para irem ganhar mais dinheiro nas companhias civis, a esses eu chamo chulos da sociedade pois demonstram não ter amor á farda e á instituição que os formam e lhes dá um futuro que muito gostariam de ter essa oportunidade de servir na FAP como pilotos e não só e nunca tiverem a sorte de o realizar e muitos desses por amor a farda e á própria instituição que se dá pelo nome de Força Aérea Portuguesa !!!!

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