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Fio de Prumo



Segunda-feira, 03.09.07

Dignifiquem-se os capitães e os coronéis

Fonte: Revista da Armada

 
Foi ontem que o jornal Diário de Notícias publicou a entrevista que fez ao tenente-general Tomé Pinto, antigo comandante da GNR.
Não concordo com algumas das afirmações daquele oficial, acho que teve hesitações e precauções excessivas para quem, liberto das peias do serviço activo, pode expressar a sua linha de pensamento com ampla liberdade. Contudo, no meio das afirmações, faz uma que não posso deixar de louvar vivamente. Diz ele: devia-se (um se indefinido) dignificar os capitães e os coronéis; di-lo, em oposição à vontade que existe de se percorrer rapidamente as carreiras para atingir os postos superiores para ganhar mais dinheiro.
 
Há, de facto, hoje a inflação dos postos e dos cargos. Dou exemplos.
Há 50 anos, os directores do Colégio Militar e do Instituto dos Pupilos do Exército eram coronéis, hoje são majores-generais; há 40 anos, sem computadores e usando máquinas de calcular manuais, escriturando a contabilidade à mão, os conselhos administrativos das unidades militares tinham, como chefes de contabilidade, às vezes um alferes ou um tenente, agora, com o apoio de toda a tecnologia, têm vários oficiais de Administração; há 35 anos, havia sargentos pilotos na Força Aérea, actualmente só há oficiais do quadro permanente; há 40 anos entregava-se o comando de uma Companhia — um pouco mais de 120 homens — a um capitão que se lançava, em operações, no mato, por vezes, distantes da sede do comando do Batalhão muitas centenas de quilómetros e quase sem ligações rádio; agora, mandam-se 130 militares para uma missão fora do país e é comandada por um tenente-coronel. Eu próprio era alferes, com 26 anos de idade, e estive dezoito meses numa situação em que o meu chefe directo se encontrava a 1 200 Km de distância! E tinha chefia sobre mais de 50 pessoas e responsabilidade perante mais de duas centenas!
Claro que se quisesse dar exemplos mais antigos, diria que, em 1914, foram nomeados três capitães do Estado-Maior para negociar com o Estado-Maior do Exército Britânico a forma como se devia processar a entrada e colaboração das tropas portuguesas na Grande Guerra.
 
Chamei inflação de postos e cargos, porque, de facto e como se comprova, cada vez mais se dá menos responsabilidade às várias graduações militares. Assim, deste modo, a tendência é para fazer crescer o topo da pirâmide hierárquica e acelerar as promoções.
 
Dêem-se mais responsabilidades aos capitães — porque estão no meio da escala de comando e organicamente podem ter um desempenho de grande importância — e aos coronéis — porque, realmente, são o topo da estrutura de comando de umas Forças Armadas, já que oficial general deveria ser uma situação de excepção — e, como disse o tenente-general Tomé Pinto, muita coisa, pela certa, vai mudar.
 
Mas — há sempre um mas — para que se dignifiquem os capitães e os coronéis tem de se lhes reconhecer e dignificar a condição militar e a condição de comandantes e chefes. Têm de ser pagos com a dignidade das responsabilidades que se lhes exigem. Era por isso que há duas dezenas de anos um coronel ganhava quase o mesmo que um juiz de círculo!
As distorções resultantes da inflação da responsabilidade tiveram como consequência, também, a redução dos vencimentos dos vários postos. Assim, quando um major-general desempenha o cargo antes ocupado por um coronel, este têm de sofrer uma redução no seu soldo; quando um tenente-coronel fica responsável por um número de homens que antes eram comandados por um capitão, este tem de ser pago a um nível bastante inferior.
 
A culpa não é das actuais chefias militares, mas são elas que têm resolver esta complicada situação: mais dignidade para capitães e coronéis com mais e melhor vencimento, com mais amplo reconhecimento público e político e, acima de tudo, como muito menos, mas muito menos mesmo, generais, porque é a raridade que traz o valor!

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por Luís Alves de Fraga às 09:00


17 comentários

De Anónimo a 03.09.2007 às 14:50

www.portugueses.blogs.sapo.pt

De Victor Manuel Antunes Elias a 26.09.2007 às 22:05

Certamente que não é cometida às Chefias a culpa de não ser dada mais responsabilidade aos Capitães e Coronéis na condução dos destinos das Forças Armadas... porque está implícito haver uma tendência dessas mesmas Chefias em dar resposta aos anseios do inefável Sr. Ministro da Defesa, que apenas vê as extraordináriamente beneficiadas Forças de Segurança como a nova élite das Forças Armadas, a fazer fé naquilo que ele apregou-a a todo o mundo e arredores. O actual Governo não gosta de Militares, talvez porque se lembre que foram estes quem lhes proporcionou o "tacho", quando do 25 de Abril. E se agora se lembravam de lho retirar? Então dá-se força à GNR e à PSP... e estamos garantidos!
Por isso não é viável dar-se aos Coronéis e Capitães outras responsabilidades que não sejam as que lhes retirem a possibilidade de correr com eles (Governo) pela força das Armas. Pode parecer ridículo, mas é o pensamento dos crâneos que governam este Jardim à beira mar plantado.

De tavares a 03.09.2007 às 17:56

Sr. Coronel
Mais uma vez estou plenamente de acordo com o Sr. . O Sr. TGEN A.T.Pinto devia ter emitido estas opiniões e pô-las em prática quando estava no activo. José Tavares

De José a 04.09.2007 às 11:20

Sr Coronel
mais uma vez se comprova o que venho comentando
aqui neste blog, neste caso o sr Gen Tomé Pinto tem toda a razão, mas, nao foi ele em tempos idos uma alta
entidade militar? tive na altura a mesma postura de critica que agora apresenta? tenho duvidas.
Haja coragem ......

De satif a 05.09.2007 às 18:31

Também, no sector privado, antigamente um 1º escriturário podia ascender a chefe de secção e a chefe de divisão.

Hoje, são os licenciados. O problema reside na complexidade da mente humana que está sempre a inventar novas situações que vão necessáriamente redundar no mesmo.

De Cosaje a 05.09.2007 às 23:21

A culpa n

De Jorge Simas a 06.09.2007 às 22:22

Caro Sr. Coronel,
Na minha opini

De João Raposo a 06.09.2007 às 23:51

É dito:
"Mas — há sempre um mas — para que se dignifiquem os capitães e os coronéis tem de se lhes reconhecer e dignificar a condição militar e a condição de comandantes e chefes. Têm de ser pagos com a dignidade das responsabilidades que se lhes exigem. Era por isso que há duas dezenas de anos um coronel ganhava quase o mesmo que um juiz de círculo!"

Comentário:

Só que a "ratio" não era de 1 coronel para 30 praças!
Como sabemos, só o que é escasso tem valor!
Sem uma nova política de produção de quadros na AM, anualmente continuaremos a alimentar a máquina com 7 a 10 dezenas de novos futuros coronéis.

Como pode exigir-se "aos de fora" que dignifiquem o posto de coronel se são estes que aceitam ver a sua maior parte a nada fazer no dia a dia?

De agapito a 07.09.2007 às 11:32

Tem toda a razão. Dantes um capitão comandava uma companhia com 120 a 150 homens, como era uso no ultramar. Ás vezes até era um tenente e chegou a ser um alferes miliciano. Hoje vão para o Afeganistão 130 homens comandados por um Tenente -coronel. Que é que se passa?Agapito.

De João a 22.09.2007 às 19:49

Uma companhia no ultramar não tinha que pensar em Logística e tinha encargos reduzidos na área do pessoal.
O mesmo não se passa numa força projectada a Km de distância em ambiente multinacional e com capacidade de actuação independente.
O Ten.Cor . é a cabeça de um Batalhão com células de Pessoal Info , Oper e Logística que operam em benefício da sua companhia operacional. É organização típica de forças NATO há muitos anos...

De Anónimo a 07.09.2007 às 20:24

Quem semeia ventos colhe tempestades.
Como dignifiicar esses postos se as chefias não têm DIGNIIDADE. Desde que o Conselho de Revolução foi extinto que optaram pela "miséria dourada".
Sinceramente não vislumbro a curto/médio prazo alguma alteração, antes pelo contrário, um agravamento. Num futuro próximo os Oficiais Subalternos irão ser os Sargentos de agora e os Sargentos ou serão extintos ou Praças.

De António Lisboa Gonçalves a 09.09.2007 às 10:50

Enquanto isso não acontece... os Sargentos (não pensa que igualmente necessitam de Dignificação?) já desempenham tarefas de Cabos!
Enquanto não existir a coragem politíca para de uma vez por todas, adequar as Forças Armadas à realidade actual, principalmente no que concerne ao número de efectivos, não será possível dar dignidade, em todas as suas vertentes, a nenhuma das classes, assistindo-se a um degradar, cada vez mais acentuado da condição militar.

Cumprimentos

De 1º Sargento Ainda a 10.09.2007 às 20:49

Pois é, os sargentos, já não existem. São praças graduadas. Qualquer dia dá-se a extinção da classe. Nem sei para que existem os Sargentos nas F.A .

De José Tavares a 11.09.2007 às 22:56

Os sargentos serviam para muito quando cada um tocava o seu instrumento. Com a inflação degradou-se a função. Se um TCOR comanda uma companhia naturalmente que o sargento vai para cabo da guarda ou mesmo fazer guardas.É urgente uma reorganização. Os postos caracterizam-se pelas funções que desempenham. É ler os regulamentos e aplicá-los. Clarinho para militar entender. Tavares

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