Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Sexta-feira, 24.08.07

Quando a Mátria não é madrasta

 
Há algumas semanas insurgi-me, aqui, contra as palavras visionárias e claramente inadequadas do ministro da Defesa Nacional quanto ao papel que actualmente é pedido às Forças Armadas deslocadas em territórios estrangeiros. Insurgi-me, porque tudo aquilo poderia ser dito por quem, realmente, fosse ministro de um grande Estado com fronteiras para defender… As nossas todos os dias são assaltadas das mais estranhas formas e não há ninguém que cuide disso com verdadeira cautela! O senhor ministro sofre, provavelmente, de alucinações ou leu em qualquer lado a frase que disse e, sem se procurar em referir a fonte, resolveu repeti-la como um papagaio irresponsável o faria.
Com as Forças Armadas não se brinca… Ou não se devia brincar!
 
Mão amiga fez-me chegar, há instantes, os vídeos que aqui deixo em baixo.
Devem ser vistos com respeito, ainda que, pessoalmente, por ser laico e estarmos num Estado laico, entenda que neles há um excesso de religiosidade católica que, entre nós, poderia ser dispensada ou bastante atenuada.
Para todos os leitores que forem ou tenham sido militares sei que serão assaltados por aquele sentimento que só quem alguma vez jurou bandeira ou envergou uma farda das Forças Armadas sabe sentir. O coração pulsa-nos mais rápido e a juventude arremete-nos de novo; as vértebras já mais unidas, por terem suportado o peso dos anos, voltam a separar-se e ganhamos a postura de quem está disposto a oferecer o peito às balas. Isto, nenhum senhor ministro compreende, se não tiver passado pelas fileiras e cumprido com pundonor!
 
Se o senhor ministro, da pequenez da sua estatura e do alto da sua balofa jactância verbal, fosse capaz de determinar que os seus colegas de Governo estivessem presentes, nem que por uma só vez por ano, em cerimónias deste tipo, com a grandeza, a pompa e circunstância que aqui ao lado os nossos vizinhos nos mostram, talvez fossemos capazes — nós os militares — de lhe perdoar algumas das suas tropelias e dos seus desalinhos. Mas descansemos, porque não é, nunca o será e nunca haverá em Portugal quem o seja!
Os nossos políticos não gostam de militares
  
"

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 19:30


8 comentários

De António José Trancoso a 26.08.2007 às 02:33

"Os nossos políticos não gostam de militares". Mas...gostam das suas Chefias, isto é, dos "militares" que se transmutaram em...apaniguados políticos.
A Zita Seabra não é caso único. Há mais...e mais graves.
Aquela traiu , mudando-se; outros traem...chefiando.

De Camoesas a 27.08.2007 às 23:28

Meu caro Fraga,

Desculpe o aparente off topic.
Pareceu-me ter visto e ouvido hoje, nas notícias da noite na SIC, que as Forças Armadas não terão verba ou estará em causa o subsídio de Natal dos Militares (13º mês)...

Será mais um "atirar barro à parede a vêr se cola", não gostarão mesmo dos Militares ou estarei a sofrer de alucinações? Já vi quase de tudo no circo!

De António Viriato a 28.08.2007 às 08:48

Caro Amigo Alves Fraga,

Fez bem em trazer para aqui a visão destas cerimónias militares dos nossos vizinhos. Mesmo se as achamos de um cunho religioso demasiado acentuado, elas são o reflexo do reconhecimento da importância, para o bem e para o mal, da Igreja na formação de Espanha, entidade de difícil construção, por isso mesmo muito mais tardia que a nossa e cuja solidez possível assentou nesses dois pilares fundamentais: o Exército e a Igreja Católica. Sem eles, nunca teria havido Espanha e sem o primeiro, o Exército, nunca teriam voltado à estabilidade que a Monarquia lhe tem assegurado, apesar das tensões internas, das forças centrífugas subsistentes, que podem ainda vir a romper o equilíbrio obtido com a Constituição de 1978, se as Autonomias perderem o senso da realidade.

O respeito para com as Forças Armadas em Espanha contrasta, em absoluto, com o nosso quase desdém com que tratamos a Instituição Militar, embora em ambos os casos os actuais regimes lhes devam a caução.

Mas em Espanha não houve Revolução, apenas uma transição sensata da Ditadura para a Democracia, com total controlo da situação pelos Militares, que ainda assim se enervaram. Daí, o seu 23 de Fevereiro de 1981, algo exótico, com o Tejero, de pistola em punho, a subjugar o parlamento, coisa insólita de se ver, na Europa, já nos anos oitenta do século passado.

Felizmente que grande parte das Forças Armadas se conteve, recuperou a lucidez e o Rei soube desempenhar o seu papel agregador, para que os demónios de 1936 não tivessem regressado.

A Espanha é hoje uma sociedade muito diversa da do tempo de Franco. No plano moral, até custa a perceber como foi possível tanto distanciamento, sem aparentes convulsões, sobretudo da parte da Igreja.

Porém, talvez porque subsista, entre os espanhóis, a noção de que essa permanente caução do equilíbrio precário da entidade que os criou só possa ser garantida pelas suas Forças Armadas, a elas tenham votado um sentimento de continuado respeito e de natural gratidão.

Muita coisa podemos aprender com Espanha, como com muitos outros, sem ter de ganhar complexos absurdos ou entrar em delírios de dissolução numa mitificada Ibéria política, como pretendem, desrazoavelmente, alguns compatriotas nossos, depois de terem andado durante decénios a defender soberanias de países improváveis, por esse mundo fora.

Desculpe-me a extensão do comentário, mas o tema cala-me fundo e modestamente lhe digo que já a ele dediquei alguma reflexão, na minha tribuna particular.

Como remate, acrescentarei que a Espanha mantém elevado respeito pelas instituições que estão na base da sua existência, como as Forças Armadas e a Igreja, porque nunca se deixou enredar em complexos descabidos, antes tem sabido salvaguardá-las de todas as tentativas da sua destruição, que episodicamente surgiram na sua História. Se um dia, por algum acaso em que o curso dos tempos é fértil, vierem a desprezar estas instituições a sua própria existência, como Entidade aglutinadora das diversas Nações que abriga no seu seio, ficará seriamente ameaçada.

Creio que os espanhóis estão conscientes disso, em especial, os militares.

Um abraço e, mais uma vez, releve-me a extensão do comentário.


De Fernando Vouga a 28.08.2007 às 14:50

Caro Luís Fraga
Concordo consigo. De qualquer forma, não me revejo nem aprecio rituais, sejam eles militares ou não. Talvez por mera questão de feitio.
É fácil fazer evoluir pessoas numa parada ou num palco, como se fossem autómatos infalíveis e obedientes. Até as meninas do Crazy Horse o fazem e com que primor...
Conduzir pessoas para a morte exige algo mais motivante e muito mais difícil de encontrar e gerir...

De Luís Alves de Fraga a 28.08.2007 às 15:46

Caros Amigos,
Como é sabido, não tenho por hábito dar resposta aos comentários que fazem o favor de deixar no meu blog. Contudo, gostaria de dar resposta a dois Amigos: ao Fernando Vouga e ao António Viriato.

Ao Vouga, para lhe dizer que concordo com ele no que respeita à superficialidade de certos rituais. Militares, até. Todavia, a nossa sociedade - a humana, tal como a de outras espécies - é feita de rituais e há aqueles que, só por existirem, dão nota do respeito que se nutre à «coisa» ritualizada. É uma espécie de círculo vicioso.
Entre nós, não faria nada mal se houvesse um pouco mais de culto de certos rituais que já existiu no passado e que um mal fadado regime político - o do Estado Novo, claro - abandalhou, por exagerar um nacionalismo balofo que só servia de almofada aos dirigentes da União Nacional.

Ao Viriato, com quem concordo, com algumas limitações, também, gostava de chamar a atenção para um dos vídeos em que o locutor da televisão dá importância à Coroa e o tenente-coronel, que está a comentar, rectifica para Espanha, facto que leva o dito locutor a emendar, já no fim, o ênfase que dá à Espanha em paralelo com a Coroa.
Realmente, para a oficialidade do país vizinho, Coroa, Rei e Espanha não são a mesma coisa, nem se confundem, daí a polémica havida - e que eu comentei aqui - com o general Molina quanto às autonomias. Em Espanha o Exército (Forças Armadas) nem servem um regime político, nem um rei; servem uma Espanha una.
Repito, repare-se neste pormenor do primeiro vídeo.

De António Viriato a 28.08.2007 às 23:43

Havia, de facto, notado a correcção do militar que comenta as imagens, que acho acertada também, embora não deixe de encarecer a contribuição efectiva do Rei para a coesão actual do Estado espanhol.

Já da experiência republicana não se poderá dizer outro tanto…

Mas aqui, creio bem, logo se iniciaria uma demorada discussão…

De António José Trancoso a 30.08.2007 às 19:13

Meu Caro Alves de Fraga
O teor dos comentários a este teu post sugerem-me um segundo.
Se não me engano quiseste estabelecer uma comparação entre as formas com que España e Portugal dignificam as respectivas Forças Armadas. Mais; como estas se auto-dignificam.
As diferenças são substanciais... em nosso prejuízo. No entanto, pesem, embora, as razões históricas que o determinam, não concordo com a "promíscua bengala religiosa" que enforma o ritual Español. <A Condição Militar contém Valores que, por si sós, a tornam merecedora de Auto-Suficiência e credora do máximo respeito da Nação que Servem. Permitir a intrusão de um credo religioso no seu seio, para além de desrespeitar todos os Militares que professem outras religiões ou nenhuma, diminue-lhe a Estatura e a isenta credibilidade. Não há Bela sem Senão... Será que se pretende fazer esquecer que Franco atentou, criminosamente, contra a legítima República, Laica e Socialista, "em nome dos valores cristãos" com as legiões de Mouros... muçulmanos ?! A Religião das Forças Armadas deve ser, ùnica e exclusivamente, a Pátria...na sua enriquecedora diversidade.

De Joao Vareta a 04.09.2007 às 16:04

Caro camarada

No dia em que este Governo ou qualquer outro, desvalorizar de uma vez por todas a Condição Militar, Portugal vai perder proventura o mais importante alicerce da sua soberania. Lamentávelmente são já frequentes os afloramentos dessa aventura, facto que, por si só, deve preocupar toda a gente, militares e não militares. Este tema devia ser refletido por todos, de uma forma profunda, pois pode haver quem pense que "ou vai ou racha" é a solução, na perspectiva da sua definitiva extinção.

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2007

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031