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Fio de Prumo



Sexta-feira, 17.08.07

O despertar dos generais

 
Foi há algumas semanas que os generais deram sinais de estarem a despertar de uma longa letargia. Mas não foram todos os generais, não se pense! Foram alguns. Foram três «velhos» generais, na situação de reforma, que têm a particularidade de serem mais ou menos vistos em lides relacionadas com as coisas castrenses: Loureiro dos Santos, Vieira Matias — almirante — e Gabriel Espírito Santo. Por arrastamento, surgiu um quarto: o tenente-general piloto-aviador Oliveira Simões, que, em tom mais moderado, fez coro com os anteriores.
 
Loureiro dos Santos e Vieira Matias apareceram no jornal O Diabo a recordar que o mal-estar está implantado nas fileiras, que se ouvem sussurros nos quartéis. E se eles o dizem, eles o sabem, porque não são cidadãos desinformados e, muito menos, desatentos; falam com os camaradas generais mais modernos, com os mais antigos, com outros oficiais e de todos são ou conselheiros ou confessores; de todos merecem respeito.
 
As prudentes e sábias palavras do almirante Vieira Matias podem ser lidas no excelente blog, essencialmente alimentado pelo vice-almirante José Botelho Leal, intitulado A Voz da Abita (na Reforma). Quem quiser e tiver curiosidade vá até lá. Não temporalmente muito longe está um artigo publicado pelo general Loureiro dos Santos, no jornal O Público, de 23 de Julho.
 
Curioso é que o general Gabriel Espírito Santo, no editorial da última Revista Militar (Julho do corrente ano) — órgão de reduzida, mas selecta, circulação é bem claro nos avisos que faz. Diz ele logo a começar: «Quem convive com a comunidade dos militares há longos anos e se habituou a perceber o sinais do seu comportamento (…), reconhece que não se vive um momento saudável nas Forças Armadas. Há ruídos de fundo no seu comportamento que revelam falta de confiança no futuro, oposição e resistência a medidas estruturantes apoiadas em racionais que suscitam dúvidas e uma tremenda frustração face à diferença cultural que se estabeleceu na sociedade portuguesa entre o Estado (e a sua direcção política) e a Instituição Militar, cujo sinal mais evidente se traduz num entendimento diferente sobre a condição militar».
Mais à frente volta a especificar: «O que realmente preocupa a comunidade militar situa-se noutra área: a que se relaciona com a condição militar e como ela é entendida pelo Estado e a sua direcção política. Há, de facto, uma divergência cultural entre o Estado e os militares nesse entendimento que vai originando ruídos de fundo e que não deveriam existir em regimes democráticos, onde a frontalidade de acção do comando deve ser correspondida com a lógica de decisões e não a teimosia de argumentos inconsistentes».
E continua: «A condição militar deve ser olhada pelo Estado como algo a dignificar perante a Nação, entendida como elemento distintivo que foi assumido voluntariamente por alguns dos seus cidadãos para o serviço de todos, fazendo o juramento de a esse serviço sacrificar a vida.»
E, logo de seguida, num claro recado sobre as alterações que se verificam ao nível da organização de certas forças militares ou militarizadas, afirma: «A condição militar é exclusiva dos militares e não pode ser repartida por outras forças ainda que armadas e ao serviço da comunidade». E bastante peremptório: «A condição militar é o dever dos que servem a Força Militar da República, que também não deve ser dividida. Os exemplos históricos de tempos em que se quis dividir a força militar da Nação e do Estado deveriam estar presentes no processo de decisão de quem tenta estas vias».
Quase a acabar diz, com a força moral de quem foi CEME e CEMGFA: «É dever do Estado explicar à Nação o que significa a condição militar e as suas especificidades. É assim nas Democracias, onde especificidades de sistemas de ensino, de saúde e mesmo de habitação da Instituição Militar e da condição militar dos que a servem não constituem privilégios, mas sim a forma como se procura retribuir a disponibilidade permanente e particular de servir a Nação»[sublinhado da nossa autoria]. E, finalmente, deixando-nos uma réstia de esperança sobre a capacidade de todos, ou só de alguns, os chefes militares dos Ramos das Forças Armadas, diz, com segurança: «Valerá a pena continuar a insistir em argumentos tantas vezes repetidos pelo Comando das Forças Armadas nos locais próprios? Insistimos que sim, já que o ruído de fundo continua persistente sem ser convenientemente filtrado».
 
Cabe-me a vez de me perguntar: — Valerá a pena acrescentar mais alguma coisa ao que o general Espírito Santo disse? Julgo que sim.
 
Vale a pena dizer que, como Director da revista militar mais antiga do mundo, em constante publicação, ele não quis ferir susceptibilidades políticas e, por isso, remeteu para esse ser abstracto chamado Estado as responsabilidades que cabem a seres muito mais concretos e compreensíveis a que nós, que não temos a responsabilidade de dizer coisas sem parecer dizê-las, chamamos simplesmente políticos. Políticos que, sendo voluntários no serviço público tal como os militares, estão dispensados da verticalidade a que estes se amarram quando fazem o juramento de fidelidade à Pátria; políticos que podem mentir, que podem faltar à palavra, que podem cobardemente fugir quando os primeiros sinais de fogo e fumaça se fazem sentir; políticos que desejam para si prebendas e honrarias só pelo facto de cumprirem um desempenho para o qual são temporariamente eleitos, negando pequenas e poucas vitualhas a quem jura dar a vida, se e quando for preciso, pela Nação.
Vale a pena recordar aos Chefes militares que, ou se descolam do Poder político, que não servem, e se prendem à Nação e aos homens e mulheres que, nas fileiras, servem a Pátria, ou estarão a ampliar o ruído de fundo com o seu aparente sentido de disciplina, porque só sabe disciplinar aquele comandante ou chefe que antes e acima de tudo zela pelo bem-estar dos seus subordinados hierárquicos.

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por Luís Alves de Fraga às 11:50


9 comentários

De Anónimo a 17.08.2007 às 21:06

Atónito com a postura "activa" na reserva/reforma dos generais "inactivos" quando no serviço activo.
Efeito Viagra? Penitência?
Há quanto tempo é que a condição militar foi lançada às urtigas? Com esta corja que está no poder?
É sabido que não. Recue-se a 1992 e á lei dos coronéis, Quem era então CEME? Não era, por acaso, o gen. Loureiro dos Santos?
Os três of. generais citados foram chefes. Alguma diferença para os actuais?!

De Anónimo a 18.08.2007 às 02:13

Faz o que eu digo mas não faças o que eu faço...

De Luís Alves de Fraga a 18.08.2007 às 08:57

Por norma, não tenho o hábito de responder a comentários.
Excluo todos os que têm como origem uma tal organização PortugalClub , por razões que podem ser apreciadas ao consultar o mês de Março do corrente ano.

Este tem sido um blog onde se privilegia a frontalidade e, consequentemente, a coragem, donde, por norma, também, passarei a excluir todos os comentários que não vierem devidamente identificados, sejam anónimos ou se escondam atrás de um pseudónimo imediatamente identificável como tal.

Ou se tem coragem para assumir publicamente posições ou, então, é melhor não as expressar!

De Andre Luis de Lima a 26.01.2010 às 21:52

velho soldado: seguiria o senhor até o fim do mundo,para ver o país livre destes politicos. Andre Luis de lima. Goiânia-Goias.

De Jose a 20.08.2007 às 09:38

Concordo plenamente com este comentario
quando estes senhores estavam no activo, alguem ouviu ou leu algum artigo deste genero que agora publicam? recordo o ex-CEMGFA que esteve no lugar o tempo que toda a gente sabe, e só no final do mandato quando estava com os pes na rua é que escreveu algo. Desejava-se era identica atitude de frontalidade de quem hoje ocupa a chefia dos Ramos não mais tarde no recato de uma reforma onde nao estão sugeitos a um eventual "saniamento" . Haja coragem
Parabens Sr Fraga pelo Blog

De Fernando Vouga a 18.08.2007 às 10:20

Caro Fraga

A atitude destes generais é, a todos os títulos, louvável. E penso que útil também. Mas, no universo dos generais fora do activo são muitíssimo poucos. Que é feito dos outros? Isto para não falar do silêncio ensurdecedor dos que ainda estão ao serviço...
Apenas um reparo.
Não me parece muito eficaz esta invocação do juramento. Para começar, porque ninguém acredita nele. Os juramentos estão pelas ruas da amargura, especialmente os feitos nas tomadas de posse dos governantes.
E, além do mais, existem milhares e milhares de civis que o fizeram como conscritos, no tempo em que quase todos prestavam serviço militar.
Tenho a confessar que não foi o juramento que me fez dar o meu melhor na paz e na guerra durante a minha longa carreira. Para mim, bastou-me ser Português e militar.
Há que enveredar por um discurso mais consistente.
Sobre o assunto, gostava que lesse a reflexão que vem no meu "Quanto Mais Quente Melhor". http :/ petas.blogs.sapo.pt /)
Um abraço

De Paulo sempre a 21.08.2007 às 00:48

Concordo!!!!
Abraço

De António Lisboa Gonçalves a 22.08.2007 às 10:58

Só é pena que tenham levado tanto tempo a descobrir este estado de coisas, é que quando estavam no activo, e todos eles com cargos importantes, já a situação de agravamento da condição militar se verificava! Demorou foi a chegar lá "acima", pois os cá de "baixo" à muito que o sentiam.
Por mim deixei de acreditar em muitos dos valores, que me levaram a abraçar a carreira militar, por isso assim que pude passei à Reserva!

Cumprimentos

De José a 31.08.2007 às 10:07

No seguimento deste post quero enviar este link onde se pode ver como um discurso com umas dezenas de anos pode hoje ser hoje muito actual, haverá coragem hoje para fazer um de igual teor? quero pensar que não.
http://ans.pt/imagens/DISCURSODOGENERALGOMESDACOSTA.doc

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