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Fio de Prumo



Domingo, 05.08.07

Militar, funcionário ou segurança

 
Quando eu era católico e assistia à missa — aprendi em latim, mas depois passou a ser celebrada em português — a certo passo, depois da consagração, quando a hóstia já sagrada era apresentada à assembleia, dizia-se — e diz-se — «Senhor, eu não sou digno que entreis na minha morada, mas dizei uma só palavra e a minha alma será salva».
 
Todos os domingos, ou quase todos, vou almoçar com a minha mulher à Messe Militar do Campo de S.ta Clara. Antes que o Governo se lembre de acabar com a Manutenção Militar e com todas as Messes, lá vamos comer a refeição um pouco mais barata do que em qualquer restaurante de média categoria.
Há, talvez, quatro ou cinco semanas fui surpreendido por uma estranha substituição: a recepcionista — faz também as funções de telefonista — já não era uma funcionária, nem um funcionário civil da Manutenção Militar, nem mesmo um militar, mas uma funcionária da empresa de segurança que dá pelo nome de Securitas.
 
Foi nessa altura que me vieram à mente as tais palavras da missa: Senhor, eu não sou digno… — mas agora tive de as substituir — de entrar na vossa morada… Não sou, porque estou completamente baralhado!
Eu estava a entrar num estabelecimento militar ou numa qualquer instituição de uma natureza desconhecida? É que, “no meu tempo” a segurança das unidades militares era feita por soldados; o trabalho de recepção podia ser desempenhado por militares ou por civis em estabelecimentos com a vocação de messe, mas por elementos de uma empresa de segurança?! Essa não lembra ao mais pintado!
 
A profissionalização das Forças Armadas está a andar a uma tal velocidade que, um dia destes, nas paradas militares — ainda há disso?! — vê-se desfilar um regimento da Securitas, seguido de um batalhão da ProSegur e de uma companhia da Esegur e outra da Condor; por mero acaso, está na tribuna um senhor fardado de general!!!
 
Não sei — embora possa imaginar — qual o motivo por que foi substituída a funcionária da Manutenção Militar por outra da Securitas, mas, senhores coronéis e generais, tenham a noção do ridículo… Fardados com o uniforme da Securitas à porta de um estabelecimento militar é que não! Tenham, ao menos, um pouco de… vergonha para não dizer de dignidade. A tal dignidade que me leva, todos os domingos a pensar, antes do almoço: Senhor, eu não sou digno de entrar na vossa morada… porque tenho vergonha e uma pensão de reforma que não chega para alimentar a minha forte vontade de ir comer no restaurante em frente.
 
Em face do que acabo de expor e que é rigorosamente verdade, pergunto-me: sou somente eu que tenho um exagerado sentido do ridículo e da dignidade ou estarão os militares na situação de activo a perder o que deveriam ter? Tiveram e perderam ou nunca tiveram?
Ah senhores, “no meu tempo” não era assim!

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por Luís Alves de Fraga às 08:18


8 comentários

De Tavares a 05.08.2007 às 13:20

Sr. COR Prof
Até estou de acordo consigo. É realmente vergonhoso o que decreveu. É caso para dizer: veja agora pois talvez não volte a ver. Faço alusão áquela história duma guarda de honra cujo cmdt mandou a formatura apresntar armas de joelhos à passagam do pálio. Não sei se conhece?Mas não vale a pena chover no molhado. A culpa é só uma. É dos próprios militares ou que ainda se dizem militares. Sim porque para ser militar não basta ter frequentado uma qualquer escola de formação. Veja que hoje qualquer corporação de bombeiros é mais militar que os próprios militares. Pode acrecentá-los ao defile que propõe. Sr. COR IC(RF) será preciso ir buscar os "velhos" para ensinar esta gente a aprender ser militar e comportar-se como tal? Pelos vistos os seus antigos alunos aprenderam pouco. Devia-os ter chumbado.

De Camoesas a 05.08.2007 às 21:45

Meu caro Fraga,
Constou-me que já se coloca novamente a hipótese de celebrar a missa em Latim...
...Espero que continuem, na "tropa", a fazer o juramento de bandeira em português, para que pelo menos saibam e entendam que estão a jurar a vida pela Pátria e não a "assinar" um contrato de trabalho numa empresa !
Ainda teremos uma patrulha de Beriev, Canadair e Dromadair, a substituir os F-16 nas escoltas presidenciais e as motos dos Securitas a abrir caminho à comitiva terrestre...

De António José Trancoso a 06.08.2007 às 00:32

Meu Caro Alves de Fraga
Porque, desde há muitos e longos anos, sempre te conheci como um Homem Sério, tenho de acreditar no que acabas de relatar!!!
Quem diria que, 42 anos depois de uma indigna arbitrariedade, não tenho, directamente, de suportar a humilhante decadência da Condição Militar a que os meus ex-Camaradas estão a ser sujeitos!!!...
Para onde caminha este pobre País?!!!

De Fernando Vouga a 06.08.2007 às 11:58

Meu caro Fraga
Em Dezembro de 1992, a dois dias de expirar o prazo, meti o papel para passar à reforma antecipada. Como muito boa gente. Fi-lo mais por razões familiares prementes e muito graves, mas fi-lo contrariado. Também ajudou toda a pressão que era exercida sobre a nossa geração para abandonar a carreira das armas.
Nesse dia, em que me dirigi à Direcção da Arma de Cavalaria para entregar o requerimento (o que causou surpresa a muitos, talvez porque ainda tinha algumas hipóteses de ser promovido), fechei uma porta e abri outra, a da vida civil. Fui-me afastando lentamente e esta lentidão deve-se apenas a razões de cortesia para com a instituição militar.
Hoje já estou totalmente liberto, como desejava e, à maneira do avestruz, não quero sequer ver o que se passa. Não ponho os pés em algo que cheire a tropa.
Assim é melhor para todos. Não me incomoda o que lá se passa e não incomodo os que lá estão. Eles é que sabem em que cama é que se vão deitar.

De Camoesas a 06.08.2007 às 22:26

Caríssimo Fernando Vouga,
Compreendo a sua atitude de Avestruz, vinda de quem já terá sido jovem, aguerrido e livre como as Águias. Não compreendo as atitudes de algumas aves que pairam sobre os "Exércitos", para se alimentarem das suas carnes putrefactas...
O grande problema é que grande parte dos "que lá estão" se irão deitar não nos seus próprios lençois mas sim, na pocilga que irão herdar, feita por outros...

De Fernando Vouga a 07.08.2007 às 15:25

Caro camoesas
Obrigado pelas suas palavras amigas.

De Paulo sempre a 15.08.2007 às 01:07

"Nada há como as cerimónias religiosas e as cerimónias militares, para fazer exaltar as multidões, cuja alma vibra mais intensamente sob a acção de duas músicas: a voz dos sinos e o som dos clarina" (Comandante René Andriot)

Hoje, tudo o vento levou...
Hoje o Comandante/chefe encontra-se por vezes, em face dum problema difícil e doloroso. Até que ponto será justificado arriscar a sua carreira em pról das suas ideias e convicções?
Até que ponto as virtudes e qualidades militares sedem perante decisões políticas tipo "banha de cobra"?
Algumas vezes o domínio das almas fortes sobre as almas vulgares, manifesta-se por factos que teriam um aspecto cómico, fora das circunstâncias terríveis do quadro em que decorrem....outras vezes, não.

Abraço

De Ernãni Balsa (SMor RES) a 27.08.2007 às 18:26

Não, meu caro Coronel e camarada Luís Alves Fraga, não é o seu sentido do ridículo, nem da dignidade que é exagerado... o que é exagerado, aliás totalmente deturpado, é o sentido que os nossos chefes, talvez influenciados pelos políticos que vão venerando, sempre que se trata de manter o poderzinho, dão a palavras como ridículo e dignidade!... Reformularam o seu sentido para não sentirem o "ridículo", esse sim, das suas atitudes... E olhe que o tempo dessa tal parada de que fala, talvez já não esteja assim tão longe...

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