Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Quinta-feira, 12.07.07

A Matemática, o País e eu

 
Nunca fui um ás em Matemática, mas aprendi a tabuada e ainda hoje faço contas de cabeça ou longas operações de aritmética sem necessidade de usar máquina de calcular. Nunca fui bom a Matemática, mas o primeiro curso que tirei foi o de Contabilista, tendo de saber cálculo comercial e cálculo financeiro — para quem desconhece, tinha de fazer toda a gama de cálculos sobre juros e, em especial, o do juro composto, para além de regras de liga (entre os mais jovens, sabem o que isso é?), regras de três compostas, sistemas de equações e de inequações e mais coisas que a idade e a falta de uso foi apagando da memória. Nunca fui bom a Matemática, mas conclui a disciplina equivalente ao actual 12.º ano de escolaridade — vulgarmente designado, naquele tempo, por 7.º ano do Liceu — e ainda sou capaz de fazer a discussão do binómio ou de identificar um caso notável da multiplicação. Nunca fui bom a Matemática, mas conclui as Matemáticas Gerais do 1.º ano da Faculdade de Ciências (já lá vão 45 anos!) com a classificação de 11 (onze) valores — na época, era uma nota pouco brilhante que queria dizer qualquer coisa como: «sabe mais do que o mínimo e menos do que o comum».
Ora, vem este rol a propósito das classificações que os jornais noticiam sobre os exames de Matemática em Portugal, no 9.º ano de escolaridade. A grande e esmagadora maioria dos alunos tem nota negativa. E porquê?
 
É este impertinente «porquê» que mata a cabeça de todos os ministros da Educação Nacional.
Na minha opinião, a resposta é simples e configura um problema que, ou se encara de frente, ou nunca passaremos da mediania nacional: os Portugueses não aprendem no ensino elementar básico (para mim ainda corresponde à vulgar instrução primária, à aprendizagem das primeiras letras e dos algarismos) três coisas essenciais: saber raciocinar com lógica, saber a tabuada completa e saber redigir uma composição com introdução, desenvolvimento e conclusão. Enquanto isto não for feito, não há método, sistema ou reforma que consiga o milagre de pôr os Portugueses a serem capazes de, em Matemática, pelo menos, «saberem mais do que o mínimo e menos do que o comum».
 
Se se aprender a raciocinar com lógica é-se capaz de pensar com clareza, de, com maior ou menor aptidão, resolver problemas mais ou menos complexos de aritmética, de escrever com alguma coerência e de pontuar com alguma cautela.
 
Marcello Caetano (aí estão os saudosistas a esfregar as mãos de contentes!) no seu livro Minhas Memórias de Salazar, diz, logo na página 12 da 3.ª edição:
«O acaso, de resto, tem sempre uma grande influência na vida das pessoas. (…).
Tinha-me formado em Direito em Junho de 1927. Encaminhei-me para esse curso também por acaso… Até ao 5.º ano [actual 9.º de escolaridade] do Liceu sempre me considerara com vocação para as Ciências Naturais e aspirava ser médico. Não sabia se isso seria realizável: meu Pai era funcionário da Alfândega, tinha encargos pesados de família, um curso superior era demorado e caro…
Mas no Liceu comecei a destacar-me nas Letras: discutia vivamente Literatura, destacando-me nas aulas de Português pelo conhecimento dos autores e das escolas literárias e pela facilidade em redigir. E os condiscípulos proferiram sentença quando, no final do 5.º ano, era necessário optar entre Letras e Ciências: tu vais para Letras!”
Para Letras? O meu desconhecimento das coisas práticas era quase total. Sim, está bem… eu gostava de Letras, iria então para a Faculdades de Letras… Aqui intervieram outros mais esclarecidos: não, não caias nisso! O curso de Letras só dá para professor do Liceu. Vamos para Direito! Que ser advogado rende muito dinheiro!
Bom, irei com vocês para Direito… — acabei por condescender. O Direito para mim era porém uma realidade muito vaga… (…).
Assim ingressei em 1922 na Faculdade de Direito de Lisboa em pleno estado de inocência jurídica, por ter bossa para a Literatura… Não me venham falar em vocações. Deve havê-las: nunca as conheci em mim. Jeito para ensinar, sim, escolhi e amei a profissão de professor. Mas vocação…».
 
Transcrevi, talvez em excesso, por se tratar das páginas mais belas que conheço quanto à escolha de um futuro!
O que é que ressalta de tudo o que o antigo presidente do Conselho de Ministros do regime fascista nos diz?
Simplesmente isto: teve uma excelente preparação no ensino básico; sabia fazer contas com agilidade e escrever com desenvoltura. Esse facto colocou-o na dúvida entre a Medicina e as Letras. A vitória em Direito ficou a dever-se a uma excelente memória — naquele tempo usava-se e abusava-se da memorização, tal como ele fez, mais tarde, aos seus alunos (é inesquecível a sua célebre frase: «pode dar as definições que quiser, mas não serão melhores nem mais completas do que as que apresento nos meus apontamentos, por isso…») — e a um bem fundamentado raciocínio lógico (ninguém articula leis se não souber pensar com lógica); depois, a capacidade de expor e de argumentar vinham-lhe da junção dos conhecimentos basilares. Assim, Marcello Caetano ousou duvidar da vocação e preferiu substitui-la pelo acaso.
 
Eu sempre quis ser militar, porque tinha vocação. Servir. Servir, com amplo significado, a comunidade. Servir a Pátria — que sempre soube perceber, na perfeição, o que era e o que é. Não tive dúvidas. Mas as minhas apetências naturais aconselhavam-me a escolha de um curso na área das Ciências Sociais e Humanas… nada que tivesse a ver com idiomas estrangeiros! Contudo, para ser oficial tinha de possuir formação em Ciências chamadas exactas e, aí, subi o meu calvário. Mas só fui capaz de chegar ao cume, porque tive uma boa formação básica; na instrução primária os meus queridos e saudosos professores souberam incutir-me as ferramentas necessárias para, com as dificuldades inerentes a quem não gosta de uma matéria, conseguir um êxito relativo.
Estava a preparar-me para ser oficial militar e já descobria, em mim, uma nova vocação: o ensino. Era com imenso gosto que ensinava… Matemática. Depois, anos mais tarde, descobri a História, a Sociologia, a Ciência Política, a Estratégia e, aos poucos, fui deixando «cair» o meu interesse pela Matemática e por todas as Ciências exactas que havia aprendido.
O único elo que me prende à figura de Marcello Caetano é este que tenho tentado ressaltar: um bom ensino básico catapulta-nos para a escolha de qualquer curso superior — que se concluirá com maiores ou menores dificuldades, mas que se conclui. E um bom ensino básico faz-se a partir de encaminhar as crianças para o raciocínio lógico, o domínio da aritmética e da escrita da língua nacional.
 
Não se reformem os cursos superiores, nem o ensino secundário; façam-se bons professores do ensino básico, preste-se muita atenção aos programas daquele nível e tudo se alterará neste nosso país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 09:35


6 comentários

De Agapito a 12.07.2007 às 12:12

Ex.mo Prof.
Aqui está mais uma opinião em que estamos de acordo. Não há que ter complexos quando se concorda com alguém mesmo divergimos noutros campos. Não somos perfeitos e é bom procurarmos nos outros aquilo que têm de bom. Os meus respeitos a V.Ex.ª. Agapito

De António José Trancoso a 12.07.2007 às 15:00

Meu Caro e Bom Amigo
Permite-me que subscreva a tua exposição, ressalvando uma única objecção, que esclareço: a tua própria Estatura dispensa a citação do correcto pensamento de um homem, que, no entanto, no domínio político, se permitiu o titubeante e sinuoso acaso (em vez da firme e certeira lógica) responsável pelo ruir de muitas esperanças e pela continuação de enormes dores e sacrifícios infligidos ao Povo Português.
Bastaria a tua, incontestável, reflexão.

De Agapito a 12.07.2007 às 22:36

Ex.mo Prof.
Mão amiga fez-me chegar o discurso critico do Gen Gomes da Costa proferido em Agosto de 1925 ao Ministro da Guerra de então, Gen Vieira da Rocha. Como diz não gostar de Generais, estava interessado em conhecer a sua opinião sobre sobre este documento, claro está, se porventura já o leu. Os meus respeitos a V.Ex.ª

De Luís Alves de Fraga a 13.07.2007 às 10:33

Exmo. Senhor,
Como deve ter reparado, fazendo uma breve e rápida análise a este blog, não tenho por hábito dialogar com os autores dos comentários. Ultimamente tenho aberto mais excepções do que era meu desejo. Abro-a, também, para V. Exa.
Tenho conhecimento da carta que já indiciava a vontade de fazer o que, pouco tempo depois, acabou por levar a cabo: encaminhar Portugal para a mais longa ditadura dos tempos modernos (entenda-se séculos XIX e XX). Ditadura com a qual não concordei quando era jovem, continuo a não concordar e com a qual não concordaria se tivesse vivido no tempo do velho general.
Gomes da Costa era um vaidoso, intelectualmente um quase «pobre diabo», corajoso como poucos, mas pouco mais do que isso; era uma vítima da família que gastava acima do seu soldo o que o obrigava a todos os meses ir empenhar a espada e as condecorações para, no início do mês seguinte as ir retirar do «prego». Era um militar que não sabia impor disciplina na família (acontece a muito boa gente) e que de finanças percebia muito pouco, como acabo de dizer. Era, somente, um militar corajoso incapaz de perceber os mais elementares meandros da política!
Diz V. Exa. que não gosto de generais. É sua a conclusão.
Não gostos de generais que, ou só sabem pensar com os calcanhares e tacões das botas, ou perderam a verticalidade ao ascenderem ao generalato (se alguma vez a tiveram). Para se ser general é necessário manter a verticalidade castrense e o descernimento capaz de indicar a fronteira onde acaba a correcta postura política para começar a subserviência aviltante. A Gomes da Costa sobrava coragem e faltava subtileza, daí que a tal fronteira estivesse obscurecida por uma nuvem bem densa.

Discursos e cartas de militares aos políticos ( e o general ministro da Guerra era, então, um político) não faltam neste país!
Sem o brilho nem o mérito de algumas de outros, também eu escrevi, em Agosto de 2005, uma carta aberta ao Primeiro Ministro de Portugal. Pode V. Exa. lê-la, se consultar este blog, no mês antes indicado. Fui, na época, o primeiro a fazê-lo. Depois disso muitos se apressaram a dar publico repúdio das medidas adoptadas. Também escrevi, de igual forma, ao ministro da Defesa Nacional. Mas eu sou somente um coronel na situação de reforma! Não tive idade para atingir o generalato e, se a tivesse, duvido que me abrissem as portas às estrelas, porque, sem falsa modéstia, soube ser soldado e soube cultivar-me intelectualmente para não temer afrontar a classe política que nos governa, porque importante não é enganar, ludibriar o eleitorado, mas ser capaz de ter espírito de missão e de serviço nacionais, sabendo olhar com justiça para as injustiças que a sociedade liberal vai semeando por este desgraçado país.
Cumprimento V. Exa.

De agapito a 14.07.2007 às 12:04

Ex.mo Prof.
Mais uma vez agradeço a sua disponibilidade e a clareza da sua resposta. Também concordo com a sua perspectiva de análise ao documento. Como referi noutro local já li grande parte do que está escrito neste seu blog e desta forma conheço a carta que V.Ex.ª dirigiu ao primeiro ministro. É pena que não haja mais exemplos destes sobretudo da parte das chefias militares. Conheci vários oficiais que enquanto não ascenderam ao generalato eram grandes revolucionários mas depois não destoariam na brigada do reumático. Enfim ... coisas. Saudações a V.Ex.ª

De A. João Soares a 13.07.2007 às 09:00

Caro Amigo,
Embora seja assunto diferente do deste post, sugiro uma visita e o seu comentário ao post Do Miradouro (http://domirante.blogspot.com/2007/07/generais-obedientes-amordaam-militares.html)
Cumprimentos
A. João Soares

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Julho 2007

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031