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Fio de Prumo



Domingo, 01.07.07

Literatura e Editoras

 
Há dias tive conhecimento de que já se iniciaram negociações entre a Porto Editora e um grupo financeiro espanhol para venda da parte desta consagrada chancela portuguesa, que se dedica à edição de livros escolares.
Depois de já terem sido compradas a ASA, a Texto Editora e a Caminho pouco falta para Espanha dominar, quase por completo, a edição de livros escolares em Portugal, pois ocupa, também entre nós, um importante lugar na edição da literatura ficcional.
 
Depois de dominadas as maiores editoras portuguesas pelo capital de Espanha pouco restará às pequenas para poderem sobreviver com independência e segurança. Isto quer dizer que os autores nacionais ou se adaptam à vontade do mercado ibérico ou não terão possibilidades de ver publicados os seus manuscritos. Assim se afoga a criatividade de um Povo e a sua cultura escrita.
 
Este negócio para apoderar-se do mercado do livro escolar — aquele que dá mais lucro e garantias de consumo — já em Espanha levou a que se tenham discutido programas de várias disciplinas, nomeadamente o de História, pois há regiões autónomas que privilegiam o conhecimento aprofundado do seu passado em detrimento do da Espanha como Estado único. Poderá vir a acontecer o inverso entre nós?
Será que teremos, em breve, de passar a estudar em pormenor os reinados dos Filipes, esquecendo que houve uma Aljubarrota, uma batalha de Alcântara e, até as campanhas da Restauração? Será que no jardim do paço episcopal de Castelo Branco as três estátuas representativas dos reis espanhóis serão substituídas de modo a terem a mesma estatura da de todos os restantes monarcas portugueses? Que a Praça dos Restauradores, em Lisboa, se passará a denominar Praça Ibérica?
 
Não defendo um nacionalismo serôdio e bacoco ou fascizante, mas tenho, sem sombra de dúvida, amor a esta terra, a esta gente, a esta cultura que durante séculos nos manteve distintos dos vizinhos aqui do lado — nem melhores nem piores — mas somente diferentes. Por tudo isto me insurjo contra a facilidade com que se permite a descaracterização de Portugal, a estouvada e gananciosa venda dos bens estratégicos portugueses a estrangeiros que passarão a dispor de condições de forte intervenção nas decisões governamentais.
Repugna-me a ideia de imaginar que o verdadeiro centro decisório da política portuguesa — já agora fortemente dependente de Bruxelas, de Paris e de Berlim — poderá passar a ser Madrid ou Barcelona. E, bem pior, em vez de se subordinar ao palácio da Moncloa, se subjugue ao edifício de uma qualquer sede de grupo financeiro que talhe e retalhe a seu bel-prazer (claro que, no mundo globalizado em que vivemos, os Governos são eles mesmos meros serventuários da alta finança internacional, que mostra um rosto somente para ter uma cara passível de ser fotografada! O verdadeiro poder está diluído nas mãos de meia dúzia de accionistas desconhecidos, ou quase, do grande público, mas temidos nos meios onde se fazem os mais iníquos negócios especulativos).
 
À força de sentir Portugal como uma identidade separada da Espanha desde sempre e, mais em concreto, desde 1640 vejo em todas estas manobras de capitais ibéricos outros tantos Filipes II. E o mal está em que o Governo de José Sócrates se mostra impotente — quando não padrinho — perante estes jogos.
 
Nesta trincheira onde combato, todos os dias vislumbro mais nebuloso o futuro da Pátria que, na força, na coragem e no ardor dos meus vinte anos jurei servir com sacrifício da própria vida se tal fosse preciso. Mantenho-me junto ao parapeito, olhos postos na terra de ninguém, esperando as arremetidas de todos quantos, comprados e corrompidos pelo dinheiro estrangeiro, me possam querer silenciar.

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por Luís Alves de Fraga às 07:53


5 comentários

De Fernando Vouga a 01.07.2007 às 22:15

Caro Fraga

Há muito que, no particular das editoras, tenho observado o fenómeno do desaparecimento das editoras mais pequenas que, não raras vezes, davam a mão a quem estivesse em começo de carreira, digamos assim. Arriscavam algum dinheiro na esperança de descobrir novos valores.
Lastima-se o seu desaparecimento, porque é um rude golpe na cultura. Há por aí muitos escritores que, pelo facto de não terem apoios, não conseguem furar a barreira dos editores. Porque nem sequer conseguem que alguém leia os seus trabalhos.
As grandes editoras visam apenas o lucro. Publicam todo o lixo que se escreva, desde que se venda. Nada melhor que um escândalo sexual de um político ou de um dirigente desportivo de primeiro plano...
Quem for desconhecido e não tenha dinheiro para investir na publicidade e na sua imagem, não pode sequer pensar em ver as suas obras à venda.
Os tempos do Camilo, que vivia do que escrevia, estão passados.
E não me parece que este Governo, que já mostrou uma total insensibilidade para tudo o que não dê dinheiro, se interesse por estes assuntos. Para estes governantes a Pátria não passa de uma palavra vazia de conteúdo que fica bem nos seus discursos.

De Paulo sempre a 01.07.2007 às 23:45

Também jurei defender a Pátria mesmo com o sacrifício da própria vida.
Nunca fui um soldado valente, desembaraçado, enérgico, firme, determinado, persistente, hábil, bem preparado, pragmático, com alta capacidade intelectual, visão política, serenidade.
Nunca entendi essas «coisas» das virtudes e qualidades militares.
Talvez tivesse sido um soldado menos afortunado....
As velhas insígnias militares do «valor, lealdade e márito» e «Torre e Espada», nunca deixaram em mim um "conceito de Pátria amada".
Cheguei a pensar que não era deste Mundo...estranho devaneio...
Ainda assim, fiquei com uma profunda amargura quando vi Soldados com estrelas, e os peitos pejado de insígnias, desintegrarem a sua Pátria, aquela a quem juraram defender a sua integridade.
Não sei como essas "criaturas" vivem o seu actual «exílio» perante o juízo das gerações mais novas de militares. Endossar a outros as suas traições e crimes contra a Pátria constitui a maior cobardia porque o seu nome e as estrelas do seu uniforme ficarão para sempre a rubricar os instrumentos oficiais das infâmias cometidas contra os humildes como eu que nunca me foi dado a saber qual a "trincheira" onde se encontra o "saco azul" para o ultramar.
Foi-me difícil ser igual a mim mesmo, ser o rochedo batido por todas as tempestades, mas que ficou de pé e que nenhum furacão abalu.
Quando me punha na posição de sentido na frente do «meu coronel» - com vivo prazer, posso assegurar-vos - nunca senti estar parante um militar mas sim perante um princípio de autoridade que considero útil e respeitável quando os «chefes» não esquecem que alguns dos seus subordinados são verdadeiros chefes...
Todavia recordo, com emoção, a «lição» de um "velho" Sargento, que ,certo dia me disse: "quando o superior pune, uma só emoção deve vibrar na sua voz..., o desgosto que sente de se ver obrigado a recorrer a esta extremidade..."
Ainda hoje, aos vinte e seis anos, gostava de voltar a ver esse sargento esse homem que em 2001 me disse:" o egoísmo tudo submergiu; aqueles, mesmo, que procuram salvar as almas e que procedem com coragem, sentem-se prestes a ser esmagados pelos novos "vira-casacas" da retórica".
Hoje, estou na minha «trincheira» à espera do meu "grito" de "sentinela alerta?" não ter como resposta "alerta está"...pois a qualquer momento o meu receptor pode ter caido às mãos dos que calam a voz...e levado a meu da noite...
Abraço.
Paulo

BS: Desculpe o longo comentário e a forma do mesmo.


De António Viriato a 02.07.2007 às 00:05

Meu Caro Amigo,

Felicito-o por este texto, apenas lhe tecendo uma pequena observação, não exactamente dirigida à sua pessoa, mas a uma certa maneira de pensar, que, a meu ver, nos tem prejudicado bastante no nosso amor-próprio : nós não precisamos de pedir desculpa a ninguém pelo nosso amor a Portugal, à nossa Pátria, à nossa Língua e à nossa Cultura, em geral.

Ser pela Nação, ser nacionalista, não significa pretender a extinção ou subjugação das outras Nações, mas somente ter a nossa em maior consideração, preferi-la às demais, respeitando-as e até estimando-as, embora.

De tanto temor demonstrarmos em manifestar preferência pelas nossas coisas, vamo-nos descaracterizando progressivamente e acabaremos forçosamente colonizados : amando os heróis alheios, esquecendo os nossos, tendo vergonha da nossa Língua, como já hoje se nota em muitos jovens e menos jovens que optam por cantar em inglês ou em português, mas com sotaque brasileiro e, não tardará, aparecerão por aí uns artistas a ensaiar o castelhano, a cantar em ibérico, para aumentarem os seus públicos, como logo candidamente dirão.

Eis onde nos pode levar esse fundo complexo anti-patriótico, que começou por ser anti-nacionalista, anti-salazarista ou anti-fascista, onde todos nos enredámos há mais de trinta anos com os êxitos que agora lugubremente topamos.

No restante, solidarizo-me em absoluto com as suas inquietações.

Um abraço.

De Camoesas a 02.07.2007 às 00:43

Meu caro Fraga,

Partilho todos os seus receios e também me assusta que a nossa história possa ser "adaptada" por aqueles que a venham a editar, impor e ...vender!

Mas, muito mais medo tenho do presente que se vende, porque o passado já foi escrito e é imutável por muito que se tente impôr qualquer alteração.
As editoras, tanto quanto julgo saber, serão empresas privadas, logo, o mercado é livre e a edição do nosso presente poderá ser feita por quem o queira e possa comprar.

Muito diferente é a venda daquilo que é público, das empresas estatais e muito mais perigoso é, quando os representantes dos interesses estrangeiros até se sentam (ou sentaram) nas cadeiras do poder e do próprio parlamento...

Nem a propósito, ontem vi uma reportagem sobre o parque natural de Montesinho (onde moram pessoas), tão preservado e natural que nem os aerogeradores são permitidos. Sei que aquelas pessoas muito "puras" que não comem carne, vão para o trabalho de bicicleta, andam vestidos de nada como o Criador os trouxe e se dizem muito naturais, são contra.
Acho que eles são mesmo "contra" tudo, tudo o que seja progresso; as paisagens ficam desvirtuadas (só do lado português), os passarinhos fogem do enorme ruído dos geradores eólicos (só do lado português) e a electricidade gerada (acho eu) não será importante desde que haja o petróleo que eles (os tais "puros") tanto abominam. (???)

Não os percebo!!!

Do outro lado da fronteira, as populações beneficiaram com equipamentos desportivos e associativos, até têm internet de borla, fizeram-lhes saneamento básico e sentem-se felizes!

Tenho pena, tenho muita pena dos passarinhos espanhóis, coitadinhos...

De A. João Soares a 08.07.2007 às 17:34

Caro Fraga,
esta manhã dei com este texto recebido por e-mail de um portal brasileiro. Achei-o muito interessante e logo o transcrevi para o blog. Agora, que o vejo aqui, quero informá-lo desta usurpação que, no entanto, ficou devidamente identificada quando ao autor.
Como o poder reside nas mãos dos detentores do dinheiro, assistimos ao esvaziamento da soberania nacional, sem nada o poder evitar. É a TVI, a discográfica, agora as editoras. Entretanto são as indústrias ligadas à construção civil, algumas matérias primas, habitação, ruas de Lisboa a passarem de mão, abastecimentos de hortaliças, e não só, nascimentos de portugueses em Badajoz, etc.
Quando o Poder abrir os olhos já será tarde.
Abraço

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