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Fio de Prumo



Terça-feira, 27.02.07

Salazar, porquê?

Recordando José Afonso
 
A ideia surgiu e está em marcha. Escolher o Português mais famoso de todos os tempos. Não se sabe bem qual o motivo e eis que surge entre os dez primeiros a figura de António de Oliveira Salazar.
O homem que durante quase quatro décadas foi responsável por uma retrógrada ditadura política em Portugal aparece agora entre os mais famosos portugueses de sempre.
Parece perfeitamente irracional que um Povo, vivendo já há trinta e três anos em regime democrático, faça arribar da neblina da História recente um ditador cruel, mesquinho e medíocre. Que fado estará na origem de tal aberração?
 
Pessoalmente, parece-me simples explicar tal fenómeno. Para tanto, terei de decompor as várias estruturas que o suportam.
 
Em primeiro lugar, tudo se justifica com base na manifestação da vontade expressa de uma pequena, mas activa, clique de velhos admiradores do antigo governante. Manifestam-se com o mesmo entusiástico proselitismo com que no passado marcharam nas fileiras da Mocidade Portuguesa ou, em casos mais raros, nas da Legião. São saudosistas de um sistema do qual só conheceram os aspectos menos perversos; saudosistas de uma ordem construída sobre contra-valores dos quais ainda não tinham idade para se aperceberem completamente; são saudosistas de uma situação que, parecia, os havia beneficiado ou iria beneficiar. Seja como for, esses são poucos e pouca ou nenhuma influência têm no normal decurso dos acontecimentos nacionais.
 
Depois, vem um muito maior e mais perigoso grupo de cidadãos que, por andarem mal informados, por serem verdadeiros ignorantes do passado, por ouvirem dizer aos anteriores coisas que lhes perecem maravilhosas, se tornaram nos continuadores ideológicos dos saudosistas. Não fazem a mais pequena ideia do que é viver sob um regime ditatorial; não imaginam o que é a falta de liberdade de expressão do pensamento, nem o terror da perseguição constante por se estar em desacordo com as decisões de quem ilegitimamente manda, nem a desinformação que cai sobre toda a sociedade. É gente que idealiza a ditadura como uma bela solução para os destemperos dos governantes democráticos. Mas pior do que a ignorância é que muitos desses vendilhões da democracia são descarados oportunistas capazes de cederem os mais queridos valores sociais em troca do usufruto de vantagens superiores às dos seus concidadãos. E se quisesse mencionar nomes conhecidos de quem viveu o Estado Novo em tal situação, gastaria algumas páginas a citá-los. É o atrevimento da ignorância que movimenta este vasto grupo ou, o que é pior, o escondido oportunismo de quem espera beneficiar com a mudança.
 
Há, depois, uma mole imensa de supostos simpatizantes de Salazar e do que ele representou. É composta por todos aqueles a quem eu designo por revanchistas. Umas vezes, são ignorantes do passado, mas simpatizantes quase convictos da democracia, e outras, é gente que alimenta em si um forte sentimento de despeito político. Curiosamente, este grande grupo só se manifesta em favor de António de Oliveira Salazar por força do mau comportamento dos dirigentes políticos que nos governam ou governaram, como consequência da situação caótica a que chegou o país. Nada, ideologicamente, os identifica com o Estado Novo, mas também já pouco se sentem identificados com esta democracia rastejante onde infelizmente vivemos cada dia que passa. Quer dizer, este grande grupo de apoiantes de Salazar encontra no desconforto do presente o fundamento para a exaltação da figura do pretérito tirano. Em consciência, não os culpo. Culpo os políticos que nestas décadas de democracia deixaram que se instalasse em cada um de nós — comuns cidadãos pouco afortunados pelas prebendas distribuídas entre os mais descarados apoiantes de quem esteve no Poder — o desencanto e a descrença nas virtudes do mais justo e equilibrado regime político que a humanidade concebeu (quando não é traiçoeiramente vilipendiado pelos que, ao contrário de servirem, se servem).
 
A Pátria está à venda, está sujeita a discussão, porque quem se arvorou em seu defensor não a defendeu e não honrou a confiança recebida de todos nós.
 
Não, não estou nem nunca estarei com quem clama por Salazar. Mas não posso estar a defender todos quantos malbarataram um valor que nós, os militares que estivemos com os ideais de Abril, lhes entregámos de boa fé esperançados que saberiam gerir o que nós não quisemos por não sabermos como o fazer da forma mais correcta e justa para o Povo. Povo com o qual nos identificámos desde a primeira hora, porque, afinal, todos, sem excepção, éramos filhos do Povo donde provínhamos. Tínhamos as armas e a força para servir e não para recalcar aos pés a vontade da Nação.
Hoje já quase todos nós, os militares de Abril, ultrapassámos a barreira dos sessenta anos de idade, mas, continuando a acarinhar um sonho de justiça social, cada vez mais, somos as primeiras vítimas do Poder que quisemos equilibrado e ponderado, justo e respeitado. Contudo, quem souber olhar-nos bem no fundo dos olhos, ainda lá vê brilhar o fulgor de um grande ideal plasmado nos versos de Grândola, Vila Morena, pois ainda acreditamos ser possível que, «dentro de ti, oh cidade», haja «em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade».

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por Luís Alves de Fraga às 18:53


9 comentários

De C.Camoesas a 27.02.2007 às 22:25

Meu caro Fraga,
Simplesmente espectacular esta divagação, nada a que não estejamos já habituados. Confesso que ao princípio comecei a discordar mas quiz absorver tudo e todo o sentido do seu post.
Gostei, gostei especialmente de : "Curiosamente, este grande grupo só se manifesta em favor de António de Oliveira Salazar por força do mau comportamento dos dirigentes políticos que nos governam ou governaram, como consequência da situação caótica a que chegou o país. Nada, ideologicamente, os identifica com o Estado Novo, mas também já pouco se sentem identificados com esta democracia rastejante onde infelizmente vivemos cada dia que passa. "

Por isso, permita que também aqui coloque um comentário que escrevi há dois dias num outro blog e está bem dentro deste espírito :

Podem-me explicar?
O Governo determina o encerramento mas, depois realiza “protocolos” para o não encerramentio…
Eu sei e admito que sou “políticamente” limitado mas, não percebo. Somos governados pelo poder da rua? O Governo lança dados que determinam a sorte de quem lhe paga o salário?
Depois, espera-se pela sorte ditada pela rua e negoceia-se (leia-se protocola-se) a decisão irresponsavelmente tomada?
O comentador anterior referiu o “peso no partido”, é assim que se governa? Seguindo os interesses políticos e ambições pessoais de uma minoria que vive à custa do “cartão de sócio”, desprezando as populações, as pessoas que pagam os seus cargos?

Adoro a palavra “reestruturação” e também “reforma”, pena é que o senhor “engenheiro” Pinto de Sousa não lhes conheça o significado.
Em 1974, Portugal tinha 10 milhões de habitantes, hoje, mais de 30 anos depois…também!
Salazar era ditador e agora percebo porque se tenta apagar a sua memória; era um gastador de dinheiros públicos, em benefício dos portugueses!

33 anos depois do 25 de Abril de 1974, o brilhante “engenheiro” Sócrates, de miseráveis notas 10 na Universidade (Engenharia), descobre a pedra filosofal; desperdício de dinheiros públicos que poderão melhor servir a população transformados em caminhos Romanos para sermos invadidos (OTA e TGV)…

Sócrates (o “engenheiro”) REFORMA Portugal!

Reforma o Ensino (fecha escolas).
Reforma a Saúde (fecha Hospitais, Urgências e …)
Reforma a Defesa (vende quarteis e compra chefias militares)
Reforma Empresas Públicas (privatiza o Estado)
Reformará os Tribunais (esperem até saber…)

Vou “reformar” a minha casa, alguém conhece uma firma que faça …
…implosões???

C.Camoesas


De Hugo a 02.02.2013 às 03:09

.

De António Viriato a 28.02.2007 às 01:05

Caro Amigo,

Permita-me alguma divergência em relação à sua legítima apreciação.

Salazar é hoje uma figura histórica. Já deixou de ser o Ditador, como o Marquês de Pombal já não é o déspota, ainda que esclarecido, mas tão-só uma figura, mais uma, entre muitas outras históricas contraditórias, com o seu lado solar e o seu lado soturno. Ambos entraram no domínio largo da História, como Estaline, Hitler ou Mussolini. De nada serve diabolizá-los. Interessa antes entendê-los, no seu tempo, no enquadramento político e ideológico em que viveram e fizeram a sua intervenção na História.

De Sílvia de Jesus a 09.10.2007 às 17:36

Concordo plenamente com a sua observação, História, ainda que negra (também a inquisição o foi e é dos "acontecimentos" mais famosos da nossa história) é irremediavelmente permanente.

Podemos negar-lhe positivismo mas nunca notoriedade.

De Fernando Vouga a 01.03.2007 às 00:13

Meu caro Fraga
Concordo inteiramento consigo e que a sua leitura é a mais correcta. A escolha de Salazar foi, por assim dizer, uma bofetada nos políticos que hoje temos.
De qualquer forma, tenho verificado que subsiste uma certa percepção da honestidade muito ligada ao enriquecimento. E, nesse particular, o ditador passou à História uma imagem de homem impoluto, só porque viveu e morreu pobre. Ora ser honesto é muito mais do que isso. Não há nada de honesto em meter pessoas no Tarrafal (e outras coisas piores) apenas porque não pensavam da mesma maneira.
E muito mais haveria a dizer, mas fico-me por aqui.
Um abraço.

De antonio.trancoso@netmadeira.com a 01.03.2007 às 10:53

Meu Caro Fraga
Salvo erro, creio que a iniciativa em curso se propõe a escolha, não do mais famoso, mas do MELHOR português de sempre.
A nuance é significativa.
Desse modo, a inclusão de Salazar nos dez primeiros, é, na minha modesta opinião, a consequência lógica de um atraso cultural que a "gestão democrática", em 33 anos, não conseguiu (ou não quis) superar.
Sabendo-se, como se sabe, que a Liberdade foi tomada de assalto por todo um sector, de oportunistas sem escrúpulos, no seio do qual os Homens sérios não têm a mínima hipótese de prevalecer, e, tendo em conta o anseio, generalizado e profundo, de Honestidade, não admira que a imagem, falsa e habilmente construída, do manhoso Ditador, ressurja como impoluta e desejada referência.
Bom seria que os governantes reflectissem sobre este lamentável fenómeno social.

De antonio.trancoso@netmadeira.com a 09.03.2007 às 03:07

Meu Caro Fraga
Não tenho por norma decidir sem ouvir e documentar-me sobre um assunto com importância relevante. Acabo de quebrar essa regra neste "concurso" cujas implicações sócio-políticas ultrapassam, largamente, os parâmetros do "entretenimento" televisivo.
Os nossos concidadãos "escolheram" os "dez maiores" portugueses de sempre.
A heterogeneidade é tal que nela se manifesta a existência da maior venalidade à MAIOR INTEGRIDADE. E, no que diz respeito à presença de alguns dos reis, dou de barato a respectiva grandeza, sabendo-se, como se sabe, que as glórias são sempre suas, mas, os desaires cabem, também e sempre, a convenientes "bodes espiatórios".
Assim, quebrando a regra, como disse, já votei.
E votei naquele que, dentre os dez, considero, nas circunstâncias vigentes, um Homem de Enorme Coragem e Humanismo, ditados por uma Integridade reconhecida, não só (tardiamente) em Portugal, mas, no Mundo inteiro.
O seu comportamento bem como as represálias que sofreu (do hipócrita e maníaco depressivo que imbecilizou este País, sem horizonte) constituem, entre muitas outras, a prova da iniquidade de um musculado Poder imposto, disfarçado de uma Autoridade que se foi perdendo e que, maioritariamente, acabou por não lhe ser consentida.
Por esta ordem de razões, votei em Sousa Mendes.
Ao fazê-lo adquiri o direito, com a mesma convicção, de condenar, com veemência, a política nazi do Estado Sionista de Israel no que se refere à abusiva ocupação dos territórios Palestinianos.
Paradoxos da História do Homem, como paradoxo será considerar no mesmo plano o Verdugo e uma das suas mais prestigiadas Vítimas.
Pelo teor do meu anterior comentário, não me espantaria constatar para que lado, previsivelmente, o prato da balança irá pender...

De A. João Soares a 11.03.2007 às 07:45

Mais um dos seus textos bem estruturados e muito didácticos.
Tal como Camoesas, concordo com a explicação do desconforto gerado pelo actual regime que gera o saudosismo do anterior.
Do conjunto dos comentários anteriores também ressalta a artificialidade do concurso que permite meter no mesmo palco, para comparação, entidades que nada têm de comum entre si.
Mas, pelo menos serviu para recordar um pouco da história.
Um abraço
A. João Soares

De Anónimo a 11.03.2007 às 15:10

Encomtrei por acaso esta pagina, foi interessante é pena estes novos oportunistas do poder não divulgarem a verdadeira história desta nossa ainda jovem Democracia.
Sera assim, ou devo chamar-lhe outro nome, todos se vão aburguesando e a verdadeira história vai sendo esquecida.
Para onde caminha este meu PORTUGAL de ABRIL.
Tenho medo da falta de interesse destas novas gerações e da falta de conhecimento que lhes é reconhecida.
A culpa não é deles, mas sim dos seus progenitores que pouca informação lhes transmitiram e da TELEVISÃO que se esqueceu de HONRAR os HOMENS/MULHERES que lutaram para que hoje nos fosse possivel falar LIVERMENTE
VIVA ABRIL
hmgbsoares@hotmail.com

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