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Fio de Prumo



Domingo, 12.03.06

Forças Armadas profissionais

Desfile militar - 2.JPG


Há mais de vinte anos o general Loureiro dos Santos batia-se publicamente contra a ideia de, no nosso país, acabar o sistema de conscrição nacional, isto é, do serviço militar obrigatório. Não via com bons olhos umas Forças Armadas profissionais ou profissionalizadas. E justificava-se com boas e saudáveis razões.


Não quero repetir o que tão brilhante oficial disse na altura. Seria, como o Povo diz, «chover no molhado». Prefiro repescar dois argumentos que na época Loureiro dos Santos não estava ainda em condições de prever: o avanço acelerado para a profissionalização das Forças Armadas dos países da Europa e a elevação da taxa de desemprego generalizada. Comecemos pelo primeiro.


Na Europa, depois dos anos 70 do século findo, no apogeu do desenvolvimento e do bem-estar, quando ainda não se fazia sentir a falta de trabalho para os jovens qualificados com diplomas, garantindo habilitações do âmbito superior universitário ou politécnico, os políticos deixaram que ganhasse foros de cidadania a ideia da quase inutilidade dos exércitos. As descolonizações estavam feitas e não exigiam presenças de tropas em terras distantes, o alargamento do mercado garantia altos índices de consumo acompanhados de bons níveis salariais, o possível confronto entre os blocos de Leste e o ocidental começava a ganhar os contornos de um mito que jamais passaria disso mesmo (neste campo, as grandes preocupações residiam entre os estados-maiores e os políticos mais cépticos de um clima de paz instável).


Neste contexto, justificavam-se grandes exércitos na Europa? Não viriam os Estados Unidos imediatamente em apoio dos europeus, se a ameaça de guerra caminhasse para a concretização? Foi dentro de tais parâmetros de pensamento e dos condicionalismos de um clima de paz que, um após outro, os países da Europa foram aceitando a ideia de modificarem o sistema de recrutamento militar. Além do mais, a sofisticação do armamento parecia avançar para a redução dos efectivos a empenhar em conflito — se este ocorresse.


Na década de 80 e na de 90 todo o cenário internacional se desmoronou e assumiu novos contornos. As grandes guerras entre grandes potências nunca mais seriam uma realidade. Curiosamente o conflito das Malvinas veio, numa perspectiva geoestratégica, confirmar que, no bloco ocidental, os alinhamentos estavam há muito traçados e não se repetiriam os erros das teias de alianças que desembocam em guerras generalizadas: os mais fortes punham rapidamente na ordem os mais fracos, embora dissidentes!


Para a Europa, e para os europeus, os exércitos haviam ganho, aos olhos das populações, uma utilidade relativa e circunscrita a enfrentar conflitos regionais, de pequena dimensão e, acima de tudo, com a queda do bloco de Leste, a tornarem-se meros elementos de reposição da paz onde ela estava ameaçada. Daí à imposição do serviço militar voluntário foi um passo que se deu num instante.


Nas mesmas décadas em que se acelerava o processo antes descrito começava a esboçar-se o fenómeno da globalização — primeiro com a banalização dos computadores pessoais e da facilidade de comunicação rápida e personalizada entre distantes pontos do globo e, mais tarde, já depois do ano de 2000, com o claro domínio de uma economia capitalista lançada à escala planetária. Esta nova realidade veio trazer novos fenómenos geoestratégicos: o aparente domínio militar do globo pelos Estados Unidos da América. A invasão de Granada deu o sinal de partida para a nova postura e a primeira guerra do Golfo foi o corolário de uma globalização que se consolidou nas intervenções nos Balcãs. A par disto, o desemprego, tanto na Europa como na América vai disparando em flecha. Há um instante em que jovens mal habilitados para o mundo do trabalho ou receosos da ampla concorrência que se desenha maior e mais intensa, começam a optar por servir como voluntários nas Forças Armadas dos seus países.


As perguntas que, sob forma retórica, a mim próprio faço, ficam aqui: — Que género de jovens são estes? Que grau de desenvolvimento intelectual possuem? Que capacidades para a aprendizagem apresentam? Que perfil psicológico demonstram? Que valores realmente os animam? Com que hostilidade sentem uma sociedade que lhes não proporciona outra profissão?


Não vou responder, mas vou deixar aos meus leitores um desassossego. Coloco-o, também, sob a forma de interrogação: — O que se pode esperar de quem serve nas Forças Armadas, buscando uma alternativa em um contexto de dificuldades?

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por Luís Alves de Fraga às 11:46


8 comentários

De Anónimo a 13.03.2006 às 18:03

Passei para deixar um "Olá" e agradecer o comentário recebido. Ontem, dia 12, a ouvir a Banda da Força Aérea Portuguesa e todas aquelas Fardas azuis com bonitas divisas (será assim que se diz?!) e todos aprumados a tocar divinamente, pensei neste "Fio de Prumo"... Juro que pensei: É lindo ver a disciplina e a força de uma Farda seja ela qual for. As Fardas exercem um fascínio à minha mente. Cumprimentos.Blueyes41
(http://silvarosamaria.blogs.sapo.pt)
(mailto:rosasilva@vodafone.pt)

De Anónimo a 13.03.2006 às 00:12

Por norma não entro em diálogo com os meus leitores que deixam comentários no blog. Entendo que o direito à opinião é livre e constitui um elemento necessário à efectivação do contraditório. Dar resposta aos afloramentos discordantes do Pena tornaria muito longa a explicação. É bom que sejas um «homem de fé», porque essa fé no futuro de Portugal daqui por dez anos é, no mínimo, óptima... Se houver «factura» de valor mais elevado a pagar recai nos nossos netos esse encargo. O comentador «Deprofundis», com grande autoridade, já te deu parte das respostas. Eu acrescentaria que deves ter alunos de excepção (em competência, gosto pelo estudo e conhecimentos), porque os meus, há muitos anos, rondam o caótico... ou talvez as nossas bitolas de aferição sejam diferentes. Quanto à sofisticação técnica do material de guerra isso é discutível, pois basta ver como nos países africanos, onde o índice de analfabetismo é enorme, desde os guerrilheiros aos militares regulares todos sabem operar máquinas de guerra tidas como altamente complexas. Se o fossem estariam reservadas a técnicos e a especialistas! Fico-me por aqui, na excepção que abri. Cumprimentos.Luís Alves de Fraga
(http:\\luisalvesdefraga.blogs.sapo.pt)
(mailto:)

De Anónimo a 12.03.2006 às 22:47

Obrigado pela visita.
Se tem saudades de Beja, volte sempre, sera bem recebido.
O seu Blog te uma escrita formidavel.
Voltarei!Cravadinho
(http://paxjulia.blogs.sapo.pt/)
(mailto:cravadinho@sapo.pt)

De Anónimo a 12.03.2006 às 22:07

Até hoje aínda não encontrei ou entendi, ou não foi explicado pelos políticos, o significado de " profissionalização das Forças Armadas", vulgo tropa profissional. Se o entendimento correcto é fazer da "tropa" uma profissão, desculpem mas é um absurdo e altamente perigoso. Qualquer profissional está sujeito a um código, de trabalho, não de honra, "Luta" pelo seu posto de trabalho e por boa remuneração! Se o entendimento é tratar com equivalência às profissões civis, os militares...Nem nas condições de trabalho e vencimento, nem nas "ferramentas" ou reconhecimento. Alguém me explica ou tenta convencer que tudo isto e estas políticas de "profissionalização" não são mais que o caminho da "privatização" das Forças Armadas para um aínda mais fácil controlo político? Uma visão de ficção científica em que só existem os problemas de segurança internos, sociais, num mundo unificado sem fronteiras e divisões políticas, sem interesses económicos e guerras pelo controlo do petróleo disfarçadas de "democracia" e humanitarismo, sem divergências ou conflitos ideológicos ou religiosos...Nessa altura a "tropa" não será apenas profissionalizada mas também robotizada! Carlos Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

De Anónimo a 12.03.2006 às 20:59

Não me parece que a visão do autor seja assim tão redutora. A nobreza das intenções que, pelos vistos, preside hoje ao voluntariado para o Serviço Militar, normalmente desvanece-se muito em tempo de guerra, especialmente quando o número de mortos, feridos e estropiados é significativo. Por outro lado, subscrevo inteiramente a opinião de Luís Fraga. Reconheço, no entanto, que o voluntariado tem várias vantagens, mormente livrar da tropa as classes mais abastadas. Mas, por outro lado, há vários inconvenientes que passo a expor (de forma muitíssimo reduzida): 1º - Cria a percepção de que a Defesa é um problema militar e não um problema Nacional; 2º - Em caso de guerra, a Nação fica dependente, para o recrutamento, da boa vontade da juventude; 3º - As tropas profissionais são insaciáveis de tecnologia, bem como de apoios extensivos de combate e logísticos. São caras e demasiado preocupadas com a própria segurança; 4º - A tecnologia está a tornar-se obsoleta quando confrontada com a motivação. Não há comparação possível entre um piloto de F16 e um maltrapilho cuja peça mais cara do vestuário é o cinto de explosivos.deprofundis
(http://deprofundis.blogs.sapo.pt/)
(mailto:fcmvouga@sapo.pt)

De Anónimo a 12.03.2006 às 18:30

Que género de jovens são estes? Que grau de desenvolvimento intelectual possuem? Que capacidades para a aprendizagem apresentam? Que perfil psicológico demonstram?

Meu caro Fraga, para todos se fazem PROVAS DE ADMISSÃO com níveis de exigência adequados. Na Revista Militar nos últimos anos trabalhamos com Praças Voluntárias que cultivam a Aprendizagem, se interessam pelas tarefas que lhe são cometidas e a passagem voluntária pelo Exército tem enriquecido os que entretanto saíram para a vida civil, desculpa, mas a tua visão é antiquada face à Guerra Moderna que exige interligação de Forças e utilização de armas e equipamentos cada vez mais sofisticados não adequados a Sistemas de Obrigatoriedade que naturalmente voltam se houver necessidade (Guerra Generalizada), esse Dever mantém-se na Constituição. Aliás a questão apenas se coloca como novidade no Exército uma vez que a Armada e a Força Aérea sempre optaram pelo Serviço Voluntário para as suas Especialidades Técnicas.

Que valores realmente os animam? Com que hostilidade sentem uma sociedade que lhes não proporciona outra profissão?

A Sociedade em termos de Economia varia muito, agora em Portugal há falta de Emprego, e eu, que sou professor de Economia desde 1996/1997 (disciplina ministrada ao 2º ano de dois cursos de licenciatura da área das Ciências da Comunicação na Universidade Lusófona) e doutor da área das Ciências da Comunicação, mas na especialidade de Comunicação e Ciências Sociais, sou de opinião e procura fazer doutrina que tudo se deve fazer para aumentar o Emprego em Portugal, concordando com com a orientação estratégica do Governo sobre o assunto, mas ontem na Caderno de Economia do Expresso, na página dedicada às análises do "Exame do Conselho dos Doze" a maioria compreende a situação e até não está preocupada por saber que houve esta necessidade (elevada percentagem de Desemprego) em alguns países, nomeadamente em Espanha, para se desenvolverem. Portanto eu tudo faço para incentivar o Pleno Emprego [Turismo melhorado, melhor "parque" habitacional, grandes obras como OTA e TGV, dinâmica empresarial com mais Qualidade e mais Exportação (Cortiça, Vinho, Azeite, Serviços), acompanhar o desenvolvimento de Angola interligando o país no conjunto BRIC passando-o a BRICA, facilitar o "ingresso" no mundo económico emergente da Ásia (China, Índia e Indonésia) converter Caridade em Desenvolvimento (incremento da Economia Social) e Transparência Fiscal com exigência de Factura/Recibo para todas as vendas e em qualquer local mesmo que seja um café ou um jornal vendidos no quiosque], mas muitos outros docentes e técnicos em economia estão menos preocupados e têm outras ideias, portanto a questão é conjuntural, daqui a dez anos Portugal está um Bom País e tem um bom Exército totalmente voluntário.

O que se pode esperar de quem serve nas Forças Armadas, buscando uma alternativa em um contexto de dificuldades?

A maioria dos jovens que ingressam nas Academias e Escolas do Exército para serem profissionais (Oficiais e Sargentos) fazem a opção por motivos diferentes de arranjar trabalho fácil e grande parte dos jovens que procuram ingressar no Exército para nele fazerem uma passagem laboral (Praças, Sargentos e Oficiais) também o fazem por motivos diferentes de apenas conseguir trabalho, naturalmente que no respeitante à Armada e à Força Aérea a questão ainda é mais evidente.

Desculpa, mas tenho lido as tuas considerações e de vez em quando tenho de dizer que a maioria dos escritos parecem ser de autores com visões demasiado redutoras do que se está a passar na Sociedade do Século XXI, Portuguesa e Mundial, custa-me contrariar as tuas visões, desculpa.
Saudações respeitosas e amigas,
António Pena.

António Pena
(http://desconhecido)
(mailto:antoniopena@netcabo.pt)

De Carlos Camoesas a 14.03.2006 às 00:43

Caro Fraga,
Nota-se que o blog tem tendencia a evoluir no formato, mas, permita que discorde apesar de alguma melhoria.
Talvez agora, a "leitura" seja mais igual à "escrita", no entanto, apesar de uma melhor formatação e apresentação, a cronologia parece-me errada. Lêr os comentários ao "post" de forma inversa temporalmente, tira algum sentido e descontinúa a linha de pensamento e sequência das respostas .
Também a identificação dos comentadores fica algo confusa e contraditória, pois, o "anónimo" no cabeçalho do comentário (inclusivé nos seus próprios posts), contradiz o e-mail (quando colocado) final.
Parece-me que será uma experiência, uma tentativa de melhorar o blog...
...O seu blog, não carece de formato, lombada ou imagens (coloridas ou não)para ser excelente, o seu blog só precisa de si !

De Carlos Camoesas a 14.03.2006 às 00:49

Acabei de verificar que o meu comentário último, apareceu colocado em último lugar, cronologicamente correcto. Também observei que não apareci anónimo, mas identificado pelo e-mail que coloquei.
Assim, deduzo que a identificação e cronologia dos comentários já foi corrigida.O blog está melhor!

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