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Fio de Prumo



Quarta-feira, 03.01.07

O inquérito e a opinião pública

 

Morreram pescadores na costa portuguesa, a pouca distância do areal.
Lamento que tal tenha acontecido a homens que todos os dias lavram o mar para dele arrancarem o pão que os há-de alimentar — a eles e a nós. Lamento que se tenham perdido vidas humanas em circunstâncias tão primárias. Mas lamento, também, a demagogia do ministro da Defesa Nacional — tal como vem anunciada no Correio da Manhã — que ordenou, de imediato, um inquérito à Armada e à Força Aérea para determinar as causas da demora dos meios de salvamento.
 
É assim que os ministro deste — e doutros Governos anteriores — procuram varrer a testada, admitindo perante a opinião pública, que a culpa das mortes é dos ramos das Forças Armadas envolvidos na situação. E fazem-no, porque sabem que os militares, por causa do seu comportamento ético, por causa da postura a que se obrigam, por causa da lei de silêncio que aceitam voluntariamente, não acusam o ministro, também publicamente, dos cortes de verbas, das demoras nas resoluções, do incumprimento de preceitos e de muitas mais coisas de que o poderiam acusar e que lhes dificulta a actuação nestas e noutras circunstâncias iguais ou semelhantes.
 
Este é um jogo viciado, em que as Forças Armadas saem sempre a perder face à Nação e os ministros sempre a ganhar. É um jogo viciado que os ministros jogam com o maior desplante e desprezo por aqueles que não lhes podem dar o troco devido. Jogam-no até ao dia em que um militar responsável, em lugar público, com a audiência devida, se dispuser a romper com os códigos a que está obrigado e desmascare os ministros; lhes chame aquilo que eles são e devem ouvir ser chamados.
 
O senhor ministro da Defesa Nacional, proclamando do alto da sua baixa estatura, a abertura de um inquérito — como se essa não fosse uma rotina usada na Armada e na Força Aérea — para apuramento de responsabilidades, vem rapidamente colocar-se a jeito para ficar bem na fotografia. Uma tristeza! Uma tristeza aproveitar-se do sofrimento de famílias para tirar vantagem política do facto. Já basta a ignorância e a dor daqueles que assistiram ao naufrágio levá-los a, irresponsavelmente, atirarem para o ar a demora na chegada do helicóptero da Força Aérea.
 
Acaso o senhor ministro manda abrir inquéritos para apurar a responsabilidade de todos os salvamento pelos quais a Esquadra da Base Aérea do Montijo é e foi responsável? Acaso ele vem à praça pública explicar que todos os dias, 365 dias no ano, está uma tripulação em alerta — homens que dormem na Base, vestidos — prontos a elevarem-se nos céus «Para que outros vivam»? Que são homens para quem não há família, nem filhos, nem domingos, nem feriados! Homens dispostos a enfrentar todos os riscos para irem salvar outros homens e mulheres em perigo, estejam eles onde estiverem? Isso o senhor ministro não diz publicamente e se o diz é no seio das unidades militares, longe dos órgãos de comunicação social, sempre, também, dispostos a atirarem com a «sua acha» para a «fogueira» da opinião pública.
Se o senhor ministro se calasse muito bem calado e deixasse de usar da prosápia que todos lhe conhecemos, ou a pusesse ao serviço de boas causas, fazia muito bem e muito melhor. Deixe de ser um oportunista — que é o nome que se dá a quem, sem escrúpulos, se aproveita das oportunidades para brilhar à custa dos outros — e aprenda, com os homens e mulheres que servem na instituição que tutela, a não ser demagógico. E respeite, de facto, a dor dos outros.

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por Luís Alves de Fraga às 20:18


10 comentários

De Fernando Vouga a 03.01.2007 às 20:47

Um ministro deixar de ser oportunista? Mas isso é uma blasfémia! O oportunismo é a essência da política.

De vasconcelos a 03.01.2007 às 21:55

Sou militar da Armada tendo já participado há uns 10 anos atrás em diversos salvamentos por toda a costa Portuguesa. A verdade é que a Marinha tem apenas um navio SAR no continente, (porque não consegue dispor de mais) que é normalmente uma corveta, que há 10 anos já estava obsoleta e que claro, agora, nos seus mais de 30 anos não consegue dar resposta a pedidos de SOS. Recordo uma situação que curiosamente aconteceu nessa praia, em que a corveta se encontrava no Algarve, recebeu o pedido de SOS, partiu rapidamente até à Nazaré e quando lá chegamos, havia... água. Para variar chegamos tarde demais. É pena que os responsáveis pela Marinha, talvez porque pensam todos que agradar é subir, não denunciam estas situações quando são confrontados.

De Camoesas a 04.01.2007 às 00:01

Repugna-me em primeiro lugar que pessoas supostamente educadas e cultas neguem quem são e a quem o devem, creio que este senhor ministro é filho de militar e mais não digo!
Repugna-me a leveza e estupidez dos actos e palavras de quem quer ter o seu minuto de fama (no caso do senhor ministro tem direito a mais , muito mais de um minuto) e tudo diz em resposta ao atiçamento de certos pseudo "OCS"...
O senhor ministro porque sugere logo um inquérito porque o jornalista e os populares assim querem, foi até mais longe depois, já li que este senhor criado por um militar, até já prometeu processos disciplinares. Claro que "as chefias" já estarão (perdoe-me a expressão) de cú para o ar à espera de cumprir aquilo que só eles têm competência de decidir!
Os jornaleiros (perdoem-me os que lavram a terra) porque incitam o povo e atiçam contra os militares, mas isso já é costume.
Por último, um popular que até deu o nome para o jornal e que na T.V. muito sábiamente questionou porque não houve busca e salvamento a partir da Base de Monte Real, ali ao lado...Parece-me a mim que deverá ser algo complicado montar um guincho num F-16 e levar dependurado um mergulhador, se Monte Real fosse uma Base de Harrier... talvez com uns chamuscos o mergulhador ou recuperador se safasse!
Isto é um país de BESTAS em que só os nossos políticos são pessoas inteligentes e responsaveis.
Tanto quanto sei, o sindicato dos pescadores exigiu um inquérito, mas sábia e responsávelmente não sugeriu que fosse aos militares...
...São tidos como gente rude pela vida que levam mas, afinal os pescadores e os seus representantes além da tradição que preservam de um país de mar, conseguem também preservar e mostrar inteligência.
Os meus sinceros sentimentos aos familiares das vítimas.

Sim, peçam um inquérito, um inquérito rigoroso e comecem por cima, pelos governantes, pela política de distribuição de meios de salvamento, pela política de investimento em helicópteros de SAR para passear ministros, pelas entidades responsáveis pela coordenação dos meios de socorro, sim façam um inquérito, comecem pelo ministro da Defesa, seguido pelo da Saúde (INEM), pela protecção civil e claro, também à "tropa"!

De Camoesas a 04.01.2007 às 00:38

Meu caro Alves de Fraga,
Perdoe-me a continuação de um já longo texto mas também já é longa a indignação!
O que a mim (e aos cavalheiros que "trabalham" na política ) faz medo, não é a antevisão do mais que provável , nas suas palavras " ...dia em que um militar responsável, em lugar público, com a audiência devida, se dispuser a romper com os códigos a que está obrigado e desmascare os ministros; lhes chame aquilo que eles são e devem ouvir ser chamados."
Isso acontecerá mais cedo ou mais tarde.

O que tenho medo mesmo, é que não se use simplesmente de palavras para desmascarar esta gentalha ...
Será necessário isso acontecer? A arrogância desta gentinha que se governa com os nossos impostos não terá limites? A irresponsabilidade governativa não terá consequências? O General Taveira Martins, públicamente na apresentação dos "Merlin" disse que não seriam usados para missões que não lhes estavam atribuídas, como transporte de entidades como membros do Governo...Pregou aos peixinhos!!!
Quantas horas de vôo já fizeram os "Merlin" à conta dos ministros? quantas horas de manutenção lhes foram dedicadas? Quanto material já foi gasto ? Quantas tripulações deveriam descansar para executar a missão primária (supostamente únicas)de evacuação e SAR? Quanta gente se verga e não se enxerga perante esta gente???

Ontem ouvi na rádio um ministro (o da Saúde) dizer que o sindicato dos médicos não os representa, que eles, os representados têm opiniões diferentes. Fiquei abismado!
Ele não faz parte do mesmo Governo que diz que quem representa os militarexs são as "chefias"?

Os militares não têm sindicato, têm "chefias" que falam por eles (melhor dizendo, calam-se) e representam o colectivo no seu silêncio.
Por outro lado, os médicos (segundo o ministro) não são representados pelo sindicato...

Isto é complicado, na próxima reencarnação vou fazer como eles (políticos) e não cumprirei as minhas obrigações cívcas como prestar serviço militar. Arranjarei um papá rico e/ou influente que me safe ou, fugirei para França. Isto se não conseguir comprar um pé-chato ou subornar alguém que me considere objector de consciência. Esperarei que alguém dê o coiro por mim e pelas minhas obrigações perante a Nação e depois, terei trinta anos para desfazer todos os ideais, consumir todos os recursos e destruír todos os sonhos que eles sonharam.
Venderei tudo o que é do Estado (de todos nós) consumirei o que estiver guardado nos cofres, fecharei todas as escolas, hospitais, tribunais e por demais coisas que existirem. Não garantirei coisa alguma a quem quer que seja, eu e os meus amigos, juntos criaremos empresas com o dinheiro de todos nós e... quem quizer usar isqueiro terá de obter licença!

De José Cruz a 04.01.2007 às 17:56

Para quê mais palavras?

De qualquer modo, sugiro a leitura do comentário feito no dia 1 do corrente, no blog http://cursooc.blogspot.com/, sobre o assunto.

De amg a 04.01.2007 às 23:29

Sou «paisano» mas concordo totalmente consigo.
É pena que não se dê publicidade a textos como este (http://sa330.blogspot.com/2006/12/sexta-feira-noite.html)
Depois (ainda) existem aqueles chavões do «humilde servir» e que «a Marinha não gosta de gostar», etc, que servem muito bem aos «tempos que correm»...
Um Bom ano para todos e parabéns pelo seu blog
amg

De António Viriato a 05.01.2007 às 00:23


Caro Amigo,

Apesar de concordar com muitas das considerações aqui tecidas no seu artigo, honestamente lhe pergunto : perante a enorme suspeição levantada, poderia o Ministro ordenar outra coisa que não um inquérito às condições em que se verificou a tragédia ?

Do resto, veremos como ele se sai.

Um abraço e Bom Ano de 2007

De Luís Alves de Fraga a 06.01.2007 às 23:03

António Viriato,
Agradeço e retribuo os votos de Bom Ano.
Como creio que sabe, não tenho por hábito responder aos comentários colocados nos meus blogs. Uma questão de princípio para deixar que cada um diga o que melhor entender. Todavia, como me dirige uma pergunta directa, assim terei de dar uma resposta, também, directa.
A suspeição (enorme, quem a mede? como mede?) resume-se, na minha opinião à população da localidade e a mais uma pequena faixa da população portuguesa que foi atiçada pelos órgãos de comunicação social. É a essa população que o ministro deve dar satisfações? Porque não as dá ele aos 70.000 (?) militares que acusam o Governo (este e outros) de não cumprir , em relação às Forças Armadas, a legislação existente e que lhes confere benefícios? Porque não manda ele averiguar se o que as associações de militares afirmam é ou não verdadeiro?
Está a ver a demagogia? É esta postura que eu condeno. E condeno veementemente, de cabeça erguida e com os olhos postos nos de todos a quem acuso. Não. Não pactuo com meias tintas e muito menos com atitudes demagógicas.
Claro que o ministro podia e devia ter tomado outra atitude!
Podia ter ficado calado. Podia, talvez, em vez de inquérito com ameaça de acção disciplinar, tal como o fez e o «Correio da Manhã» proclama, podia afirmar que à Armada e à Força Aérea competia dar as explicações que os respectivos comandantes entendessem. Essa era uma manifestação de confiança naqueles que ele suposta e legalmente tutela; isso seria um sinal de confiança nos militares. Mas o que ele deu foi um sinal de desconfiança, foi um colocar-se ao lado dos órgãos de comunicação social, ao lado de todos os que, sem compreensão do esforço da Marinha e da Força Aérea, os acusam de falta de rapidez.
O ministro poderia, com respeito pelas vidas perdidas, afirmar que tudo faria para se averiguar como é possível andarem pescadores, com mau tempo, sem coletes salva-vidas e sem outras protecções que evitassem mortes trágicas.
Era tudo isto que o ministro deveria ter dito e não disse, preferindo dizer que até se poderia chegar à responsabilidade disciplinar!
Acresce que ele não mandou abrir um inquérito «às condições em que se verificou a tragédia» como me diz, mas antes, como afirma o matutino já referido: «Os processos de averiguações à actuação da Marinha de Guerra e da Força Aérea no socorro aos náufragos do pesqueiro ‘Luz do Sameiro’, que irão revelar o que se passou, já estão em curso, segundo informação oficial do Ministério da Defesa.
A abertura destes processos de averiguações, pedida no dia do naufrágio pelo ministro da Defesa, Severiano Teixeira, é habitual nestas circunstâncias, em qualquer ramo das Forças Armadas, mas desta vez, de acordo com a mesma fonte, irão decorrer “mais rapidamente”. Em função dos resultados, Nuno Severiano Teixeira irá pronunciar-se e, caso seja detectada alguma falha grave, mandará instaurar processos de inquérito ou disciplinares.»
Como se vê, é diferente.

De António Viriato a 07.01.2007 às 04:53

Caro Amigo Alves Fraga,

Não tenho especial simpatia pelo Ministro em causa, nem alinho no descrédito dos Militares, cuja honra e sentido do dever me habituei a respeitar. Mas sinto que alguma coisa aqui não se passou com normalidade e espero que o inquérito o possa revelar.

Afinal, o barco estava pertíssimo de terra, à vista do povo e não foi bem localizado, nem em tempo razoável. Temo que tenha havia alguma negligência em todo o processo do salvamento.

Mas não me adianto às averiguações e confio que elas sejam conduzidas com seriedade, suponho que também por Militares.

Aguardemos, portanto, as conclusões do inquérito.

O mais que refere pertence a outro tipo de discussão, exterior ao caso e até admito que - aí - tenha toda a razão.

De Camoesas a 06.01.2007 às 23:18

Caro Alves de Fraga, sugiro a leitura dos dois posts de hoje no VozSurda. As contradições das "investigações" umas sérias e outras não e o modo como os OCS, mais precisamente o Correio da Manhã se permite chamar "chulos", "cobardes" e outras coisas, impunemente aos militares.
Também se permite ofender esse dito ministro.
Agora até quero ver o que fará em relação ao Correio da Manhã o senhor ministro e as "chefias".
Só falta mesmo alguns OCS passarem do jornal on-line para op jornal em papel a chamar "chulos" aos militares. Mais tarde até na televisão o farão, já estou a imaginar o Miguel, será o primeiro e tudo para isso caminha...

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