Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo



Quinta-feira, 31.08.06

Remover entulho

 

No final da batalha de La Lys , em Abril de 1918, o que restava do Corpo Expedicionário Português CEP ) foi, por ordem dos Ingleses — que detinham o superior comando táctico e estratégico do contingente nacional —, mandado abrir estradas e construir trincheiras para serem utilizadas pelos Britânicos. Os generais de Sua Majestade haviam perdido a confiança nos soldados de Portugal enquanto combatentes, achando-os, todavia, com competência para usarem enxadas, pás e picaretas. Foi trabalhoso para o general Garcia Rosado, comandante do CEP , inverter esta visão dos nossos velhos aliados. Os próprios soldados preferiam morrer — porque continuaram a ser vítimas dos bombardeamentos alemães — de enxadas nas mãos do que gloriosamente com uma arma de campanha.

Como se vê, a falta de brio, de galhardia, de saudável vaidade já rondava os Portugueses na última guerra a que foram na Europa. Eis o motivo por que não me espanta a decisão do Conselho Superior de Defesa Nacional: enviar para o Líbano uma companhia de engenharia; 140 homens para limparem o entulho que outros fizeram. Limpar o entulho e construir ao serviço de empresas que outros irão gerir e de onde retirarão pingues lucros... E é por razões destas que vamos, com toda a clareza, tomar partido em um conflito no qual tínhamos excelentes condições de sermos neutros, eventualmente, mediadores entre as partes e com isso retirarmos vantagens para Portugal!

Assim, tal como foi ajustado no Conselho Superior de Defesa Nacional, vamos fazer parte de tropas de ocupação com um mandato supostamente de paz ou apaziguador, que nem vai almejar a primeira nem reduzir o fogo de ódio, há dezenas de anos, ardente nos peitos dos muçulmanos e dos judeus da região.

É como trabalhadores de enxada, ou melhor de escavadoras emprestadas por outros, quase pela certa, que vamos contribuir para o esforço de entendimento entre as partes desavindas.

A minha boa educação e o respeito que tenho pelos meus leitores calam-me os vocábulos «caserneiros» que me afloram aos lábios quando penso na decisão tomada.

Quem derrubou, que limpe! Essa seria, por certo, uma sentença salomónica se ao justo rei bíblico fosse possível pedir conselho e acreditássemos na sua imparcialidade, sendo ele mesmo monarca dos Judeus.

Quem derrubou, que limpe, porque já está, por certo, conluiado com as grandes empresas construtoras do mundo, pois não quero acreditar que a sociedade Alves Ribeiro, ou outra quejanda, tenha antecipadamente marcado lugar para pôr de pé tudo o que as bombas israelitas deitaram a baixo. Não quero acreditar, porque, então, uma vez mais, os nossos políticos deveriam mandar reservar, com antecedência, lugar de honra no próximo congresso de mafiosos que se reunir em qualquer dos centros e antros por onde essa gente se movimenta. Não quero acreditar, mas deixo para os leitores a dúvida que me martela a inteligência: — Qual o motivo porque, em vez de uma companhia de engenharia, não segue, imediatamente, um hospital de campanha ou uma companhia de saúde com terapeutas capazes de recuperar os estropiados que a guerra fez ou, ainda, uma companhia de administração militar com trem apropriado à confecção de alimentos e pão?

No mínimo mostrávamos, sem sombra para dúvidas, que a nossa motivação era puramente humanitária!

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 11:47


4 comentários

De Carlos Camoesas a 31.08.2006 às 15:47

“esta opção tem um risco relativamente moderado, não é uma força combatente, tem um custo baixo, e está associada a uma alta visibilidade política” disse o senhor ministro da Defesa, Severiano Teixeira.

Finalmente o Governo deixou falar o ministro da Defesa, já estava um pouco "embassado" de ouvir o Ex-ministro da Defesa (que parece continuar a ser). No início do telejornal, um senhor fardado comunicou aos portugueses, a decisão, quase no final do telejornal, finalmente ouviu-se o ministro da defesa a dizer o que já tínhamos ouvido...

"Alta visibilidade política", estes políticos não têm vergonha nenhuma, até admitem assim publicamente que se servem dos militares.

Além das estradas e pontes, os nossos militares também deverão fazer as necessárias infra-estruturas para que os outros países possam depois edificar postos de abastecimento gasolineiros, hipermercados e ...
Macdonalds, claro!

De Anónimo a 31.08.2006 às 16:07

Fraga:
As tuas afirmações, bem fundamentadas, são duras como punhos.
Cada vez mais me convenço que a nossa sociedade não passa de um bando de pacóvios ignorantões que o chico-espertismo novo-rico dificilmente consegue disfarçar.
Julgava eu que a época das Marias-a-dias , em França, não era mais que uma contingência da estreita, anquilosada e imposta, mentalidade ruralista do estado salazarista!... Que, apesar de tudo, contraditória e erradamente (nos seus pressupostos e objectivos) se esforçava, habilidosamente, por nos fazer crer numa decorosa, embora mítica, identidade soberana.
Hoje, porém, nem decoro, nem orgulho, nem...nada. E se as Marias francesas o eram, por imperativa necessidade, os nossos governantes são-no...por, subserviente, ridícula e despudorada, gula.
É essa mesma realidade que está presente na oposição, aparentemente correcta, do conselheiro "deste" estado, AJ Jardim, porquanto, na linha do "nem um cêntimo para Timor", o que pretende é a canalização desses fundos para o seu imenso saco de prebendas.
Por tudo isto, não admira o incómodo que, para a gente séria, seja, fora de portas, a declaração da sua Nacionalidade.
Ao que se chegou...

De António José Trancoso a 03.09.2006 às 16:48

Meu Caro Fraga:
Permite-me que volte ao tema, correndo o risco de me tornar francamente maçador. Porém ocorreu-me um outro tipo de abordagem que decorre do facto da decisão do Conselho de Estado ter sido tomada por unanimidade, e, desse mesmo Órgão fazerem parte alguns Oficiais Generais... Será que nenhum deles vislumbrou o que a ti, e a quem esteja minimamente atento, de imediato, foi objecto de severa e sensata crítica?!!!
Por onde anda a "coragem", dessa elite, que, no tempo da Velha Senhora, se caracterizava por atitudes seventuárias , baseadas num "poder" arbitrário, ao arrepio das suas próprias e hipócritas "leis"?!!
Será que o Estado de Direito está moribundo e a Brigada do Reumático ressuscitou?!! Por onde anda, que ínvios, mesquinhos e interesseiros, caminhos percorre, afinal, a Reserva Moral da Nação?!! Não admira que, com tais "eunucos lentilheiros ", se faça "gato de sapato" das Forças Armadas deste "alpinista" e desgraçado País.
Sim, desgraçado País onde os Homens Inteiros, de "antes quebrar que torcer", não têm lugar.A estes, porém, resta-lhes a dignidade de não possuírem as banalizadas "condecorações" que a História não deixará de envergonhar os seus "beneficiados" portadores.
Há gente que se esqueceu (ou nunca soube) do verdadeiro significado de envergar uma Farda.
Tão bem, ou melhor que eu, meu Caro e Digno Coronel, saberás que sei do que falo.

De Fernando Vouga a 05.09.2006 às 21:31

É bom que não se esqueça que os nossos soldados da IGG andaram a cavar trincheiras porque, para além de outras razões (nomeadamente convulsões políticas), não tinham quem os comandasse. Os senhores oficiais, vinham de férias a Portugal e, na passada, baixavam ao hospital ...
Talvez seja melhor não cavar muito fundo na História desta campanha.
Ou será?

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Agosto 2006

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031