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Fio de Prumo



Quarta-feira, 16.08.06

Uma democracia ridícula

 

Leia-se o editorial do Diário de Notícias de hoje, bem como a principal informação do jornal on-line e percebe-se o título que está a encimar o actual apontamento.

Este Portugal dos segredos de polichinelo vem assim desde há vários séculos. Pelo menos, desde a implantação consolidada do Liberalismo (1834). Antigamente dizia-se, dos segredos passados de boca a ouvido, que o informante era pessoa que bebia do fino, expressão clássica na literatura clássica do século XIX.

Esta necessidade de quebrar segredos de Estado e difundi-los na praça pública está ligado indissoluvelmente à maneira de ser dos Portugueses: toda a gente quer ter importância ou dar-se ar de importante. Em Portugal todos nós estamos inconformados com o que somos, por isso queremos parecer mais. Sempre mais importantes e poderosos. Daí este país de doutores! Mas isto sempre foi assim. E demonstro. Vou socorrer-me da transcrição de uma passagem do livro do ilustre historiador Professor Oliveira Marques intitulado Portugal Quinhentista que, a dado passo, reproduz e traduz um documento de anónima autoria, redigido por um Italiano, provavelmente datado do ano de 1580 e que reza assim:

«Os oficiais e ministros da justiça que não vos entendem, todos orgulhosos, todos inchados, todos amigos de mostrar que podem, pelo que, se os não adulais tendes os beleguins [oficial de justiça] atrás. Em verdade se pode bem dizer (perdoem-me os Portugueses) ser aquela uma das partes do mundo onde podem os homens mais do que as leis porque, consoante querem, assim as transformam [vem ao caso recordar que, logo após o 25 de Abril de 1974, ouvi, da boca de um dos mais altos responsáveis militares de então, a seguinte frase: “Para os amigos tudo, para os inimigos, a Lei”... trezentos e noventa e quatro anos depois do trecho que estou a transcrever!!!]. Quando lhes toma o ódio por uma pessoa, fazem que a justiça tire as informações da sua vida — ao que chamam tirar devassa — e por qualquer pecado que lhe acham, assim o castigam em muitos modos. (...).

Os processos são em número infinito, (...), porque a qualidade das gentes leva a que quem tem razão nunca seja despachado. As dilações, as suspeições, as sentenças ambíguas, as apelações e os testemunhos falsos são tantos que as leis acabam, por fim, por ficar tão sofismadas que da verdade e da mentira resulta uma embrulhada tal que a não desfiaria Apolo» (p. 207).

Meus caros leitores, este documento foi escrito, repito, em 1580 ou por volta dessa data. Está guardado em arquivo e publicado em livro. Leiam-no para ficarem a conhecer o Povo que somos.

A forma como nos comportamos é genética, atávica e, por isso, quase inalterável. Só esporadicamente, sob o jugo e o chicote de um qualquer ditador — tão corrupto como os corruptos que à sua volta vão crescendo em crescente adulação (única processo de fugir à fúria dos senhores do mando absoluto), se parece transformar o lobo, lançando sobre os costados a pele de cordeiro.

Queremos pôr fim a este estado de coisas? Queremos deixar de ser uma democracia ridícula que só macaqueia alguns dos aspectos mais caricatos de tal sistema político? Façamos uma longa revolução do ensino! Não. Não se trata de passar a ensinar mais e melhor matemática, ou química, ou física, ou língua portuguesa! Não. Ensine-se civismo, porque tudo o mais vem por acréscimo. Civismo desde o infantário, porque as crianças ensinarão, aos poucos, os respectivos pais. Civismo em casa e na rua. Civismo para com tudo — não é só respeitar o meio ambiente — e, principalmente, com todos. Todos, ministério das Finanças incluído. Civismo, meus senhores, civismo. A Moral vem com o civismo.

Mas não se esqueçam de mandar os professores frequentar um longo estágio nas heréticas, porque não católicas, democracias do Norte da Europa... Isso é o mais importante de tudo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 13:59


6 comentários

De Carlos Camoesas a 16.08.2006 às 22:27

(???)

Confesso que não entendi!

Talvez eu esteja a precisar de férias ou, terei de admitir que os moínhos de vento me estão a levar a melhor...
Democracia ridícula, segredos de Estado e frequências rádio, Líbano e força de manutenção de paz, professores, civismo, revolução do ensino, moral e homens que podem mais que as leis.

Gostaria de comentar (se entendesse) mas é tão vasto e interligado (aparentemente desconexo) que teria que escrever um livro ...

De Luís Alves de Fraga a 17.08.2006 às 00:03

Caro Camoesas
Como sabe, não tenho o hábito de responder aos comentários. O que escrevo está dito! Cada um comenta como entende. Hoje abro uma excepção.
Se calhar, por ser complexo, quase desconexo, é que nós, os Portugueses, somos um Povo ingovernável. Somos um Povo de «empatas»... chegamos à estranja, como não nos deixam «empatar» aceleramos o passo e «vencemos a corrida».
Não vencemos por sermos bons; vencemos porque não nos deixam ser como efectivamente somos.
Para poder haver um Governo que ponha mão neste Povo ingovernável não pode ser usando o gasto processo de governar; a única saída é revolucionar as mentalidades para que quem tem de ser governado o deixe fazer.
Só poderá haver segurança quando um Governo, dito democrático, for capaz de seleccionar uma banda de frequências para as comunicações secretas e, ao mesmo tempo, proibir a entrada de aparelhos que possam captar essas bandas, tal como se faz no estrangeiro, na UE. Mas por cá qualquer Xico esperto compra o que quer, porque outro Xico esperto importa o que deseja e ninguém fiscaliza.
Isto é uma democracia, pelo menos, ridícula!
É assim, porque toda a gente se acha no direito de se pôr em bicos dos pés, que mais não seja para se dar ares de importância.
Quando aprendemos - sem ditaduras - que cada macaco deve ficar no seu galho?
Terei agora sido mais claro, tendo conseguido a relação com os apontamentos anteriores?
Os seus comentários são sempre bem-vindos. Um abraço.

De Fernando Vouga a 17.08.2006 às 23:32

Muito bem observado, mas penso que o mal não é exclusivamente nosso. Andei muitos anos fora do País e vi muita coisa nos locais mais insuspeitos...
Acho apenas que, por causa nosso atraso cultural crónico, essas coisas acabam por ser sempre piores.

De DDDDDDDDDAAAAAAAAAAAAAAAA a 16.12.2006 às 22:43

SÃO TOCOS UNS TONTOS

De TITITOTO a 16.12.2006 às 22:38

NÃO SE PERCEBE NADA DESTA SECA

De SILA a 16.12.2006 às 22:40

TENS RAZÃO

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