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Fio de Prumo



Sábado, 15.07.06

A viatura do comandante

Mais ou menos por vagas cíclicas, os órgãos de comunicação social dão-nos notícia da renovação das frotas automóveis dos administradores do Banco de Portugal, dos presidentes de Câmaras Municipais, de ministros, e de outras entidades que vivem e esbanjam os dinheiros públicos, o mesmo é dizer, de todos nós. Mas o bode expiatório dos gastos anormais e sumptuários deste país, mais tarde ou mais cedo, através dos mesmos órgãos de comunicação social, acaba sendo as Forças Armadas. Mais subliminarmente, ou sem subtileza nenhuma, lá está escarrapachado nas páginas da imprensa a notícia de uma pensão milionária de um general ou gastos aparentemente desnecessários com a defesa armada do país. Desmentir e provar o contrário é tarefa ciclópica, mas não impossível. Talvez, porque quixotescamente gosto de lutar contra moinhos de vento em defesa da minha «dama», lá vou hoje, junto dos meus leitores, fazer prova de como se poupam, no seio da corporação militar, os dinheiros públicos. Poderá ter detractores a minha argumentação; poderão querer deturpar as minhas palavras, mas elas ficam aqui, afinal, para os Homens honestos e de boa vontade. Vamos à estória.
Há tempos, o comandante de uma unidade do Exército, cujo aquartelamento se situa no centro do país, convidou-me para fazer uma conferência aos seus militares sobre a participação de Portugal na Grande Guerra.
Tal como vem sendo hábito nas unidades com sede em pequenas urbes da província, os comandos procuram abrir tais eventos à população civil de modo a esta poder beneficiar de uma saudável inter-penetração de convívio e, ao mesmo tempo, gerar uma maior animação cultural em terras onde as rupturas da rotina são raras. Assim, acabei falando para uma vasta e heterogénea audiência, utilizando o auditório da biblioteca municipal da localidade.
Nada disto teria interesse referir se eu não pretendesse enaltecer esta nova sensibilidade de muitos comandantes que «abrem» a vida militar às populações civis, numa atitude de imensa compreensão de como é importante não haver um divórcio entre quem vive no quartel e quem, à sombra dele, habita. Todos os louvores são poucos para enaltecer esta postura.
A gentileza do comandante da unidade foi ao ponto de me mandar buscar e trazer a Lisboa na viatura que lhe está distribuída para deslocações em serviço. É um automóvel de função, a gasóleo, sem mais distintivos que a matrícula militar sob a qual não é possível descobrir o ano de entrada em circulação do veículo.
A viagem para lá foi óptima, segura, a uma velocidade dentro dos limites permitidos pela Lei e com uma «resposta» do motor em tudo semelhante à de um carro usado e que até poderia ser o meu.
Ao fim da tarde, depois da conferência, pouco antes de entrar de novo no mesmo automóvel para fazer a viagem de regresso, perguntou-me o comandante:
    E que tal se portou o carrito, na vinda?
Como seria de esperar, não só por delicadeza, manifestei a minha satisfação, tecendo encómios ao condutor e à viatura e qual não foi o meu espanto quando me diz, com um sorriso de satisfação nos lábios:
    Pois, aqui onde vê este carro, estão já dezoito anos de serviço!
Desta vez olhei para o automóvel com verdadeiro respeito. Dezoito anos com aspecto de ter seis ou sete de uso!
No regresso, depois de recapitular a simpatia de um dia bem passado, entre camaradas do Exército e uma população civil generosa nos elogios tecidos à minha exposição, não pude deixar de concentrar, agora com redobrado cuidado, a atenção no funcionamento do carro que me transportava. Era um utilitário de marca Opel, sem luxos, mas cómodo, com o motor trabalhando em disfarçado ronronar, amortecedores suaves, compensando a característica irregularidade do piso das nossas autoestradas, enfim, uma viatura que não envergonha quem lá vem dentro nem dá trabalhos de maior a quem a conduz. Depois desta observação, fiquei, naturalmente, a pensar nos gastos na aquisição de sumptuosos carros para entidades eleitas por todos nós ou escolhidas por quem nós elegemos para nos governar! Que diferença entre quem serve, efectivamente, com dignidade e modéstia o país e o Povo e a cáfila de pavões que malbaratam o nosso dinheiro para se darem ares e importância que não têm, nem jamais terão!
Porque será que uns possuem o real sentido de serviço nacional e outros o de serviço pessoal?
Até quando, senhores?!

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por Luís Alves de Fraga às 19:18


4 comentários

De Carlos Camoesas a 15.07.2006 às 23:04

Amigo Fraga,
Se algum dia o senhor engenheiro Carvalho Pinto de Sousa lhe fizer um convite, pergunte se o Volkswagen Phaeton estará disponível. Caso contrário, aínda se sujeitará à incómoda viagem num Falcon da Força Aérea que apenas serve "tábua de queijo"!

De António José Trancoso a 16.07.2006 às 03:16

Meu Caro Alves de Fraga Lamento discordar, em toda a linha, com a tua, normalmente, tão sensata visão. Ela enferma de uma distorcida comparação entre as carreiras militar e política. A primeira alicerça-se num conjunto de convicções que permanece, ao longo de toda a vida daqueles que a abraçaram, constituindo a noção, permanente, do Dever Cumprido, a sua mais digna e gratificante recompensa; A segunda assenta na volatilidade conjuntural partidária, interna e externa, que obriga os seus actores a um, também permanente, esforço de afirmação, através do exercício da imaginação na procura e oferta das mais brilhantes e "vendáveis" promessas e medidas proporcionadoras da solidariedade e bem-estar sociais. Ora, isto provoca uma enorme pressão que a configura como uma actividade penosa e de desgaste ultra-rápido; físico e mental. Note-se, ainda, que não se podem comparar as compleições físicas, de uns, fortes e estóicas, e de outros, frágeis e sensibilíssimas (salvo raras excepções, como é o caso do Alberto João, que só não é General porque não se candidatou à Academia Militar). Assim sendo é muito natural que à tropa se exija a manutenção-duração das sólidas viaturas que lhe são atribuídas e que aos detentores de cargos políticos se distribuam os mais confortáveis e mais modernos automóveis. Quanto a mim, constitui uma gravosa ofensa à gratidão devida aos paladinos da notável qualidade de vida dos Portugueses, que, quando cessam funções, alguém se rebele por manterem na sua posse, aqueles, estoirados e desactualizados, instrumentos de trabalho (alguns com a avançada idade de uma legislatura, quando levada ao seu termo...) como o comprovam os preços praticados, que envergonham os da uva-mijona. Como vês não tens razão. Q.e.d., meu Caro...

De Fernando Vouga a 17.07.2006 às 19:22

Essa de o Dr. Alberto João dizer que teria sido general se tivesse ido para a A.M. prova que essa criatura não percebe nada de tropa. Façamos justiça: com todos os seus defeitos, o Dr. A.J.J . é um ser pensante e muito independente. Não teria qualquer hipótese.

De antonio.trancoso@netmadeira.com a 18.07.2006 às 20:01

Não posso deixar de, simultaneamente , concordar e discordar do seu comentário. Se aquele, potencial e desaproveitado, Cabo de Guerra, repentina e tardiamente, tivesse decidido candidatar-se à AM , para começar, sendo sobrinho e protegido de quem era, mesmo estando habilitado com o antigo 7º ano de Letras, por certo, teria, nas provas de aptidão, quem lhe transformasse a prosa em ciência exacta, e, no domínio da aptidão física, ser-lhe-iam proporcionadas , uma mini-pista de obstáculos, uma mini-corda , uns percursos de 100 e de 1000 mm (isso, isso, milímetros) nos tempos previstos para a conquista daquelas distâncias em metros, ou, melhor, ainda, a total dispensa de tão penosos, disparatados e plebeus incómodos. Em plena Guerra Colonial, os restantes Combatentes, obtusos, não lhe souberam aproveitar os preciosos conselhos psico-estratégicos que, em condições muito adversas e correndo sério risco de vida, dimanou do flagelado teatro de operações...do Palácio de S. Lourenço. Mal andou Kaúlza ao não o ter chamado para a sua equipa. O 25 de Abril teria sido outro, bem diferente. E, o ilustre guerreiro-estrategista , seria, desde logo, no mínimo, graduado em General. Hoje teríamos, muito provavelmente, o mais laureado Marechal de todos os tempos.
Como vê...

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