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Fio de Prumo



Terça-feira, 06.06.06

A bandeira nacional

Nasci na capital portuguesa há pouco mais de sessenta e cinco anos. A Lisboa da minha meninice nada tem a ver com a de hoje. Era uma pequena cidade — grande para nós que cá vivíamos — descoberta por todos os refugiados que fugiam ao terror nazi. Foram eles que trouxeram um toque de modernismo à velha e pachorrenta cidade de Lisboa. Até então, éramos uma capital quase fora do tempo. Claro que a ditadura que se abatera sobre os Portugueses — mas que eles aceitavam com elevada passividade, porque não há ditadores contra a vontade do Povo, ainda que às vezes seja muito conveniente fazer de vítima! — ajudava a compor este quadro provinciano de uma cidade europeia nada cosmopolita. Contudo, e pese embora esta descrição pouco abonatória, o certo é que também nenhuma das outras capitais da Europa havia atingido a grandeza de hoje... A relatividade manteve-se, ou quase.
Sendo Lisboa a cidadezinha provinciana do Velho Continente, por cá mantinham-se certos hábitos, em meu entender, saudáveis que o tempo, a ânsia de viver, e a adopção de costumes alheios fizeram desaparecer por completo. Não me julgue o leitor um sexagenário retrógrado, saudoso do passado, apostrofando contra a modernidade. Não! Nada disso! Quero ser um cidadão do meu tempo, ainda que reconhecendo os bons valores que se perderam na voragem desse caminhar para o moderno.
Um desses valores consumidos no altar do progresso, foi o respeito.
Hoje respeita-se pouco e quase nada. No que toca às pessoas, é mais importante ser-se famoso do que respeitado. Aliás, entre nós, troca-se, com o maior desplante, fama efémera por respeito — todos os reality shows vão nesse caminho.
Na Lisboa da minha infância havia manifestações públicas de respeito; respeito perante pessoas, acontecimentos e coisas.
Ao passar a carreta transportando o féretro de um cidadão os cavalheiros tiravam o chapéu e todos os homens se descobriam, se usassem qualquer tipo de gorro. Respeitava-se a morte, o morto e a dor dos que o levavam a enterrar. Os soldados, independentemente da sua graduação, à passagem do funeral, tinham prescrito no Regulamento de Continências e Honras Militares, que deveriam parar a marcha, voltar-se para o flanco por onde rodava o carro fúnebre e fazer a saudação castrense. Assim fui educado!
À passagem de uma força militar, transportando o estandarte nacional, os homens paravam, viravam-se para o lado por onde se desfilava e descobriam-se, tirando chapéu ou outra qualquer peça que lhes tapasse a cabeça. Não eram soldados quem passava. Não transportavam um pano num pedaço de pau. Era o símbolo da Pátria quem por eles passava guardado por quantos juraram defendê-la mesmo com sacrifício da própria vida.
Há quase cem anos, morrem homens e mulheres para dar glória a esse trapo verde e vermelho com a esfera armilar e o escudo das cinco quinas. Há quase cem anos que vão a enterrar cobertos com esse pano homens e mulheres que puseram a sua vida ao serviço de Portugal. Há quase cem anos que esse pano representa a comunidade que nós somos.
E vem a propósito contar que, antes de 1974, na longínqua ilha de Timor, no lado português, quando se içava a bandeira verde rubra em qualquer pau de repartição pública ou quartel corria sério risco o incauto cidadão que não parasse e não assumisse uma posição respeitosa. Os Timorenses, os velhos Timorenses que haviam sofrido a invasão australiana e japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, exigiam respeito por esse pano para eles quase sagrado. Estranho, não é?!
Há dois anos, quando por cá decorreu o final do campeonato europeu de futebol, alguém lançou a ideia de se cobrirem as janelas dos prédios deste país com bandeiras nacionais. Manifestação de um nacionalismo bacoco, balofo e espúrio.
A banalização de um símbolo retira-lhe o conteúdo simbólico. Embora não sendo católico, sou tão contra a exposição das bandeiras nacionais por tudo quanto é sítio, como sou contra a venda de imagens de Nossa Senhora de Fátima — alguma delas, até, fosforescentes! — em todas as bancas e lojecas da Cova da Iria. Não se podem abastardar símbolos que são elementos de culto.
Num tempo de anti-valores alguém, de novo, veio apelar para a exposição das bandeiras nacionais e muitos de nós, pacóvios, sem qualquer noção de patriotismo, sem valores nem respeito por símbolos, penduramos das janelas a bandeira de Portugal numa manifestação de carneirada mais capaz de ir para o matadouro da estupidez do que compreender que não é o relvado de um campo de futebol o local próprio para exibir o saudável nacionalismo que devemos guardar no relicário das coisas sagradas.
E o Governo aprova. E o Presidente da República aplaude. E ninguém vê que por este caminho se perde Portugal e os seus valores, porque é o caminho mais fácil para o desrespeito que há-de atingir quantos se regozijam agora com tanta tontice.
Que alguém tenha coragem de pôr cobro a esta palermice, a esta idiotice e tão petulante demagogia, para bem de Portugal e dos Portugueses.

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por Luís Alves de Fraga às 11:27


8 comentários

De Carlos Camoesas a 06.06.2006 às 23:05

Explêndido!
Também eu nessa altura, nesse outro campeonato da bola me insurgi, escrevi até um artigo para um jornal da minha terrinha e publicaram!
As pessoas confundem Patriotismo com Futebol, confundem a Nação com a Selecção (de futebol), só são " patriotas" quando está em causa a bola, depois esquecem-se, até se esquecem do farrapo que fica a apodrecer!

Repugnam-me as janelas e varandas que exibem farrapos descoloridos e rasgados, isso não representa a Nação que eu amo e sofro! Guardo a memória dos meus antepassados na sua glória, na sua força, nunca exibiria os seus restos mortais arrastando-os pelo pó ou deixando-os apodrecer na ponta de um pau.
Já nem falo dos castelos que eram afinal pagodes, já nem falo que alguém lucra com a venda dos "trapos", como se fossem relógios da selecção, já nem digo que se está a "marketizar" o símbolo máximo da Nação.
Não passaria pela cabeça de ninguém, passear o nosso Presidente da República, vestido de maltrapilho ou despido de decência, desnudando-o de todo o seu simbolismo.
Uns são e sentem, outros dizem que o são e pensam que o mostram...

De Fernando Vouga a 07.06.2006 às 00:06

Já nem sei o que dizer. Nem o que pensar quando vejo que os nossos representantes na AR não mostram o mínimo entusiasmo e respeito pela sua função. Entre discutir os problemas da Nação e ver uns pontapés na bola, escolhem a segunda hipótese. E se os polícias fechassem as esquadras para ver o jogo? E se os médicos abandonassem as salas de operações? E os controladores aéreos deixassem os aviões no ar? Ou será que o trabalho dos deputados é de somenos importância? Se calhar até é e eles têm razão.

De maria de são pedro a 07.06.2006 às 11:21

O nosso País está transformado num carnaval de total falta de nível onde se atropelam e misturam valores como pátria, respeito e educação com futebol e mais futebol... basta tentar ver qualquer telejornal que deveria ser de informação mas que não passa de um pasquim de informação sobre a vida privada de um punhado de gente que é tão bem paga que até se dá ao luxo de ser malcriada com quem faz centenas de quilómetros para os apaparicar...
Isto está mesmo uma palhaçada!!!
maria
(filha de um "pilão")

De Fernando Freire a 07.06.2006 às 23:07

Não finjas uma convicção que não tenhas.
Não te rendas diante a popularidade
Pensa sempre que é para servires o próximo e não para te servires a ti.
Nunca procures ser maior que os outros, mas não consintas em ser menor.
Tem fé na razão, que ela geralmente prevalece.
Põe a moral por cima das leis.
Aprecia o sentido comum como o melhor dos textos.
Procura a paz como o maior dos triunfos.
Busca sempre a justiça pelo caminho da sinceridade
e sem outras armas que as do teu saber.
Estuda, pensa, luta e trabalha.
Ama o que fazes.
Sê leal, tolera e tem paciência.
Crê na paz como substitutivo piedoso da justiça.
Acima de tudo crê na liberdade,
Sem a qual não há sociedade.
No dia em que o teu filho te pedir um conselho sobre o seu destino,
Considera uma honra para ti aconselhá-lo a que exerça a tua profissão
Que defenda a sua Bandeira !

De António José Trancoso a 09.06.2006 às 15:38

Quando mancebos fizemos um Juramento que implicava a doação da própria vida na defesa dos Valores Maiores implícitos no conceito de Pátria. E muitos Portugueses, ao longo de séculos, honraram-No. Mesmo num passado recente, quando, uns, por Dever de Ofício, e, outros, por consciente e fraterna solidariedade, com os deserdados Filhos do Povo, foram obrigados à participação num conflito injusto. Conflito esse a que Abril, agora sim, Patrioticamente, pôs termo. De novo pudemos voltar a comtemplar, com restaurado respeito, o Nosso Símbolo Maior. Mas, de novo, o vemos vilipendiado pela banalização resultante de uma peregrina ideia terceiro-mundista, onde "ordem e progresso" não passa de ironia de mau gosto. Não nos admiremos que, mercê do insultuoso laxismo dos orgãos de soberania, os nacionalismos extremistas, encontrem terreno fértil para uma espúria proliferação.

De ernani balsa a 13.06.2006 às 15:35

É também com um misto de tristeza e raiva que vejo o folclore deste "patriotismo" balofo e despropositado à volta dum simples campeonato de futebol. A facilidade com que pessoas de todos os quadrantes e extractos sociais, dos mais diversos níveis de cultura e saber, responsáveis políticos e mesmo governantes, são arrastadas para este delírio do facilitismo e da aviltação dos símbolos nacionais, é deprimente!
Respeito quem gosta de futebol, como respeito toda a gente, mas confundir desígnios nacionais com resultados dum campeonato ou elevar à categoria de heróis nacionais, desportistas (?) que não fazem mais do que justificar, mesmo injustificadamente, as vergonhosas verbas que ganham, agride-me enquanto cidadão e militar.
Foi perante este símbolo - a bandeira nacional - que todos jurámos dar a vida pela pátria, servindo ele agora, reles estandarte dum enganoso orgulho nacional, para criar histerias tontas e desafinadas, ou foi perante qualquer outra coisa superior, que os portugueses já perderam no seu percurso atabalhoado pela história!?... O meu país, na verdade encolheu desastrosamente no seu verdadeiro orgulho de sermos um povo... passámos a ser uma simples e triste claque!

De Carlos Camoesas a 14.06.2006 às 07:58

Por curiosidade e porque se fala da mistura entre patriotismo e desporto, Portugal já tem um atleta apurado para os próximos jogos olímpicos (suponho que aínda o único) um dos melhores no ranking mundial.
Só li num jornal, talvez não seja verdade porque todos os outros OCS não referiram o feito!
...
É uma boa altura para os nossos Governantes atacarem em força, o povo anda distraído.
Fátima foi há pouco tempo aínda, agora o campeonato da bola...É o nosso fado!

De José Cruz a 08.07.2006 às 11:28

Meu caro Fraga
Já muito atrasado, aqui vai um pequeno contributo sobre este símbolo nacional que é a nossa bandeira:

Descrição Heráldica e Considerações Históricas
Os símbolos da Pátria são: a Bandeira Nacional, o Hino Nacional e o Chefe de Estado. A Bandeira Nacional representa as lutas da fundação, a independência e restauração de Portugal e os descobrimentos marítimos. No reinado de D. Afonso Henriques a Bandeira era branca com uma cruz azul larga ao centro, simbolizando o emblema do cruzado e o azul, a cor principal das armas da Casa de Borgonha. Sofrendo várias alterações ao longo dos vários reinados, a Bandeira Nacional com a Implantação da República passa a ser verde e vermelha, sendo composta por um rectângulo de pano cuja altura é igual a dois terços da largura. É dividida em duas partes, na vertical, sendo a parte que fica junto à haste de cor verde, ocupando dois quintos da superfície e a outra parte de cor vermelha, ocupando três quintos. Simbologia Cor Verde - Representa a esperança em melhores dias de prosperidade e bem-estar e também os campos verdejantes. Cor Vermelha - Representa o valor e o sangue derramado nas conquistas, nas descobertas, na defesa e no engrandecimento da Pátria. Esfera Armilar - Situa-se no centro da divisão das duas faixas, simbolizando as viagens dos navegadores portugueses pelo Mundo, nos séculos XV e XVI. Armas de Portugal - Assentam sobre a esfera armilar, sendo compostas por um escudo maior com outro mais pequeno brocante , simbolizando o escudo, a arma de defesa utilizada pelos nossos antepassados nos combates. Escudo Maior - É vermelho e à sua volta estão representados sete castelos que representam as cidades fortificadas que D. Afonso III tomou aos mouros. Escudo Pequeno - É branco e encerra cinco escudetes azuis pequenos, fazendo alusão às cinco chagas de Jesus Cristo. Cada um desses escudos contêm cinco besantes de prata que contando duas vezes os da quina do meio, recordam os trinta dinheiros pelos quais Judas vendeu Jesus Cristo e simbolizam o poder régio de cunhar moeda. Autores da Bandeira Republicana Columbano, João Chagas e Abel Botelho.

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