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Fio de Prumo



Segunda-feira, 05.06.06

A Escola de Sargentos do Exército

 

Em boa hora os comentários do meu camarada Fernando Vouga e o do meu amigo Camoesas foram feitos à crónica que intitulei «A vocação militar dos sargentos», porque me permitem esclarecer aspectos não suficientemente explícitos naquele escrito.
É certo que existe, no Exército, a Escola de Sargentos, a funcionar nas Caldas da Rainha. Ela poderia ser quase uma Academia de Sargentos, mas não é, visto enfermar de um defeito comum aos três ramos das Forças Armadas: só admitir na sua frequência alunos que já sejam militares, mesmo que oriundos da Armada ou da Força Aérea.
Esta condição faz toda a diferença entre o recrutamento de sargentos e de oficiais do quadro permanente. É uma nuane que quase passa despercebida, mas que, na minha opinião, é fundamental. De resto, o mesmo acontece na frequência do ensino politécnico militar — que permite o ingresso nos quadros técnicos de oficiais a sargentos do quadro permanente e outros militares contratados. São formas de adulterar ou de possibilitar a adulteração da vocação castrense, vendo-a, ainda segundo a perspectiva elitista que marcou o século XIX. Esse o motivo do meu desacordo frontal e absoluto! Vejamos, porquê.
Se a abertura à carreira de sargento se faz só para quem já é militar o leque de opção fica restringido ao universo castrense e, dentro deste, a praças e sargentos em regime de contrato. Seria impensável um oficial neste último regime concorrer à frequência do curso de formação de sargentos! Julgo que nunca tal aconteceu, embora a legislação não o proíba explicitamente. Assim, de fora ficam todos os jovens que, sendo civis, poderiam desejar ingressar nas fileiras imediatamente como sub-oficiais , desde que para tal tivessem aptidões intelectuais, físicas e técnico-militares (estas últimas a fornecer e comprovar durante os cursos respectivos). A proceder-se deste modo dava-se lugar à existência de genuínas vocações de sargentos! De contrário, fica-me sempre a dúvida de quando é que a opção pela vida militar foi um mero recurso ou um efectivo chamamento interior!
Claro que o actual sistema de recrutamento interno oferece algumas garantias de êxito na formação dos sargentos, mas constitui uma forma enviesada de seleccionar os antigos lateiros, agora mais envernizados do que no passado. Numa palavra, é um sistema elitista, porque, por um lado, não dá as mesmas oportunidades aos jovens civis e, por outro, marca, de forma sub-reptícia, um distanciamento entre oficiais oriundos das Academias e outros graduados das Forças Armadas. É, no mínimo, um sistema onde ainda se faz sentir o princípio monárquico das diferenças de nascimento; é um sistema pouco republicano e quase nada democrático.
A abertura de Academias de Sub-oficiais à frequência, por concurso, em paridade com as Academias militares para Oficiais, a todos os jovens civis — sem exclusão da possibilidade de também concorrerem todos os que já fossem militares — era um sistema democrático e dignificante da carreira de sargentos, pois a escolha resultava de uma perfeita opção entre ser oficial ou ser sargento sem invalidar que, pertencendo a esta última classe, pudesse vir a ser oficial se satisfizesse às condições de admissão à respectiva Academia.
Para os leitores que pretenderem informar-se com mais algum pormenor sobre o tema aqui tratado, deixo as respectivas ligações à Internet. Assim, poderão aceder à informação sobre a Escola de Sargentos do Exército, clicando sobre o respectivo nome, tal como para o Curso de Formação de Sargentos da Armada e Curso de Formação de Sargentos da Força Aérea.
Edifício do Comando da Escola de Sargentos do Exército
 
O navio-escola «Sagres» a navegar a todo o pano
Brasão de armas do Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea

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por Luís Alves de Fraga às 09:20


5 comentários

De Carlos Camoesas a 05.06.2006 às 22:23

Agora sim, amigo Fraga, subscrevo.
Por vezes o problema não são as ideias mas sim o modo como as conseguimos (ou não) apresentar aos outros. A argumentação é convincente, democrática e faz sentido, coisa que demasiadas vezes não acontece com as "paridelas" dos nossos legisladores e Governantes!
Gostei do ponto-de-vista da sociedade civil e do facto de se poder optar pela carreira militar profissional (porque continuo a considerar que os profissionais são os do Q.P. e não aqueles que apenas servem para baixar as estatísticas do desemprego...), independentemente da categoria de Sargento ou Oficial, também o facto de prever a hipótese de futuro acesso à outra carreira (desde que reunidas as condições) me parece convincente e exequível.
Muito provavelmente, nas actuais condições, muitos terão desistido de concorrer à mudança de classe por apenas se sentirem demasiado crescidos para serem tratados como putos que vão fazer a recruta. Muitos não terão conseguido suportar a ideia de tornarem a ser tratados como imberbes mancebos depois de se terem tornado pais, alguns, provavelomente também com filhos já nessa idade "parva"!
Mas, o pior de tudo isso, é que, na realidade todas essas imposições e condicionantes, apenas se destinam a impedir o acesso de "lateiros" à classe de oficiais, afinal, a legislação actual "pensou" em tudo aquilo que o amigo Fraga idealiza como um futuro melhor, mais honesto e de carreira.
É compreensível, já não existem lateiros, poderá ser iniciada a "revolução" de mentalidades!
Por vezes, são chamados a fazer estudos ou simplesmente como consultores. militares na reserva (talvez reformados também), a "tropa" estará a perder mais uma oportunidade...

De Carlos Camoesas a 05.06.2006 às 22:35

Só para "arrefecer", desculpe o "off-topic".
Por acaso o amigo Fraga não estará a pensar fechar o blog nos dias de jogo-da-bola ? ou antecipar os posts? Não marcou nenhuma reunião em Paris a que se tem que deslocar de "Falcon" com uma paragem na Alemanha...(?)
E os Merlin, será que o transporte de políticos já é uma das missões para que foram comprados???

De Fernando Vouga a 06.06.2006 às 23:59

Obrigado, Caro Fraga pela informação.
Embora ande muito arredado do que se passa nas Forças Armadas, gosto de saber o que lá se passa e de "fonte limpa", como a sua.

De JSantos a 12.07.2006 às 10:03

Caro Fraga,
Foi com grande prazer que li este seu "post ". Gostaria, no entanto, de salientar um aspecto que, a meu ver, explica alguma da imagem negativa que a formação de sargento tem. Antes de mais, estes (os sargentos) não são consultados na definição das linhas orientadoras da formação dos novos quadros e, em segundo lugar, 90% dos instrutores dos cursos de sargentos são oficiais! Ou seja, a formação ministrada esta condicionada as expectativas de uma outra classe de militares, ou não ? Tive a oportunidade de frequentar a NATO School , na Alemanha onde as disciplinas do NATO Senior NCO Course eram ministradas exclusivamente por sargentos e com programa definido pelos mesmos. A "pobre" Croácia , que após a queda da Jugoslávia , teve de reestruturar as suas Forcas Armadas, tem seguido o padrão americano, criou um Gabinete liderado por um Sargento Mor, na dependência directa do Chefe de Estado Maior do Exercito, com o objectivo de definir as linhas orientadoras da instrução de Sargentos e inspeccionar os campos de instrução . O SHAPE , Comando Superior da OTAN na Europa, implementou o cargo de Senior NCO para o Comando Aliado das Operações , com o intuito de apresentar iniciativas com vista a melhorar a educação , liderança , treino e condutas das classes de Sargentos dos países membros da OTAN. Este cargo esta na dependência directa do Comandante Supremo Aliado para as Operações e e ocupado por um Master Sergeant . Curiosamente, os oficiais portugueses colocados nesse Comando da OTAN designam-no ironicamente de "pequeno SACEUR " e esta tudo dito!

De eu a 08.09.2008 às 14:16

o senhor acha mesmo que um jovem que sai da escola secundária está preparado para assumir uma carreira como a de sargento? acha que é capaz de integrar uma força nacional destacada num teatro de operaçoes hostil liderando uma secçao de 9 homens? Já nem vou tao longe e pergunto-lhe se acha que o ensino em portugal forma jovens com valores pátrios elevados? Acha que um jovem que nunca provou a sua rusticidade está preparado para entrar na ESE? Eu digo-lhe que não está! Eu que frequentei a ESE digo-lhe muito sinceramente que nao. Se a ESE só aceita candidatos militares é porque nas provas de admissão são necessárias avaliações dos chefes directos do candidato, ora se o candidato nao é militar entao deve passar por uma PAM (Prova de Aptidao Militar), como já aconteceu, ou será que vão pedir o parecer dos pais ou tutores do candidato.O Sargento é a espinha dorsal das forças armandas. É o elo entre o comando e os homens que executam no terreno. Não brinque com coisas sérias."Lateiros"???Tenha juizo, e cuidado com as coisas que publica na internet. A carreira das Armas é muito Nobre. Na ESE são formados dos melhores de Portugal, num curso muito intenso que deixaria qualquer universitário de boca aberta. É que os senhores doutores quando frequentam as universidades, se não lhes apetece ir ás aulas nao vao, e caso sejam os pais a pagar as propinas está tudo bem, pois com o aluno da ESE nada disto se passa. O esforço Hercúleo que é feito todos os dias, repete-se durante um ano, faça chuva faça sol, nas condições metereológicas mais adversas. Hoje, o Sargento é um profissional, com uma cultura geral acima da média, com estudos em matérias como a História e Geografia Militar, a Topografia, a Ética Militar, o Inglês Militar, a Táctica e a Logistica, e quando no estrangeiro, honra esse estado-nação que chamamos Portugal. Quando Portugal descansa, alguem zela pela Nação.

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