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Fio de Prumo



Domingo, 04.06.06

A vocação militar dos sargentos

Tenho, algumas vezes, abordado o problema das carreiras militares e, em particular, o da vocação dos jovens para alcançarem o oficialato. Realmente — e por exclusiva culpa minha — nunca me debrucei sobre a forma como os sargentos escolhem a vida castrense. Tentarei hoje colmatar essa falha.
Não existe, entre nós, a tradição das Academias para diplomar sargentos, também designados sub-oficiais , noutros países. Existem escolas viradas para formação militar específica em certas Armas e Serviços onde se ministram cursos que habilitam para o desempenho de funções. São, no Exército, as chamadas Escolas Práticas onde, afinal, também os oficiais e as praças adquirem valências específicas. Este modelo não é seguido na Força Aérea nem na Armada; optou-se por um estabelecimento único, em cada um daqueles ramos, para por lá passarem os especialistas, aprendendo o que se reconhece como fundamental para o exercício das funções a que se destinam.
A transição de mero sargento em regime de contrato para sargento do quadro permanente faz-se por opção do candidato, existência de vagas, satisfação de requisitos e informações satisfatórias. Não vou pormenorizar aqui — até porque não viria a propósito — toda a metodologia de ingresso. Interessa, na minha perspectiva, é perceber a importância dos sargentos nas Forças Armadas de ontem e de hoje.
Eles foram, ao longo dos tempos, vistos, quase sempre, como profissionais militares oriundos de praça, com uma fraca preparação intelectual e cultural. Não vou dizer que este esteriótipo está errado. Realmente, no nosso país, até ao fim da 2.ª Guerra Mundial, raros foram os casos de sargentos que fugiam ao padrão referido; eram os chamados tarimbeiros ou lateiros, consequência da sua origem.
Logo no pós-guerra houve necessidade de alterar, pelo menos em parte, este tipo de sargento, como resultado da admissão de Portugal na OTAN; teve de se admitir gente com formação técnica para satisfazer a imperativos ditados pelas novas formas de desenvolver operações militares; a electrónica dava os primeiros passos e impunha os radares, os sistemas de pontaria sofisticados, as telecomunicações modernas. A partir de então o recrutamento centrou-se em jovens com cursos industriais ou, no mínimo, com frequência dos mesmos. O nível técnico e cultural subiu entre a classe de sargentos. O seu vencimento passou a estar equiparado ao de um professor de instrução primária o que não constituía favor nenhum. Este salto recolocou os sub-oficiais na posição intermédia que haviam tido no século XIX; eram os especialistas que enquadravam os praças permitindo ao oficial uma maior mobilidade para se dedicar à nova evolução do modo de fazer a guerra.
A partir de 1961, com o começo do conflito nas colónias e a sua longa duração de 13 anos, acrescida do baixo nível técnico que se exigia dos homens para as operações militares, a classe de sargentos, embora sacrificada no desempenho de sucessivas comissões de serviço em África, tornou a baixar no tipo de recrutamento; importante era saber fazer a guerra no mato e enquadrar os praças. Houve um significativo recuo. Ele foi de tal ordem que chegou a reflectir-se na classe de oficiais por haver absoluta carência destes, admitindo-se a ascensão de sargentos ao oficialato sem grande rigor selectivo.
Acabada a guerra, no intuito de, por um lado, estancar as promoções à classe de oficiais e, por outro, remediar a carreira, não truncando perspectivas criadas no tempo do conflito, foram adicionados mais dois postos à classe de sargentos: os sargentos-chefes e os sargentos-mores. Estes últimos viriam a auferir um vencimento inferior em pouco ao de um capitão.
Nos 32 anos que decorreram desde 25 de Abril até hoje, posso garantir que novamente houve profundas alterações no modo de recrutar os sargentos. Alterações que foram consequência de um maior tecnicismo dos armamentos e de um mais elevado padrão cultural de todos aqueles que optam por seguir a carreira. Actualmente, é com alguma frequência que se encontram sargentos licenciados por universidades estatais e privadas nas fileiras dos quadros permanentes.
Hoje, ser sargento das Forças Armadas é uma opção tão importante como a de ser oficial, porque a valia operacional de um e de outro são subsequentes e complementares. Na minha opinião, é pena que não se dê o salto para a criação de uma Academia de Sub-oficiais onde se ministrassem os fundamentos culturais e militares de uma carreira, deixando-se para fase posterior a aprendizagem técnica que cada ramo deve desenvolver dentro das diferentes especialidades. Ao mesmo tempo acabava-se, de uma vez por todas, com a escolha de uma carreira já depois do desempenho de funções a ela inerentes. Porque não começar do zero, como se faz com os oficiais do quadro permanente? Quanto melhores forem os sargentos mais aptos e competentes terão de ser os oficiais que os comandam.

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por Luís Alves de Fraga às 08:36


4 comentários

De Fernando Vouga a 04.06.2006 às 17:12

Caríssimo Fraga

Tenho andado arredado do "universo militar", pelo que o que vou dizer, apesar de se tratar quase de uma mera pergunta (que não ofende...), poderá ser totalmente descabido.
Mas eu estava convencido que nas Caldas da Rainha havia, salvo erro, uma "Escola de Formação de Sargentos" para o Exército, uma espécie de Academia Militar para essa classe.
Estou certo ou estou errado?

De Carlos Camoesas a 04.06.2006 às 23:46

A componente técnica e a militar, a partida do zero, quando da entrada de oficiais para o quadro permanente e a criação de uma escola de “Sub-oficiais” ou escola de sargentos…
Apesar de ter apreciado imenso a sua definição dos sargentos através dos tempos, creio que o caminho sugerido não será o melhor. Como o meu amigo muito bem diz, a componente técnica é cada vez mais, um factor primordial na formação de sargentos e como muito bem diz, a partir do momento em que se entrou para a NATO, a partir do momento em que se teve de dominar as novas tecnologias, talvez mais nuns ramos e “armas” que noutros.
Diria agora eu, a partir do momento em que os militares passaram a desempenhar funções equivalentes (mas não equiparadas) a actividades “civis”, distanciando-se um pouco do tradicional militar que marcha bem, sabe disparar e rastejar, e é ensinado com métodos de “Pavlov” a saltar ou cumprir cegamente uma ordem que pode ser apenas matar.
Creio eu, que o moderno sargento saberá o suficiente sobre Legislação, Justiça e Disciplina para ser adequado às suas funções cada vez mais técnicas, não descurando o vector hierárquico (ascendente/descendente ) obviamente inerente à sua condição militar. Assim, a meu ver, não sugerindo o oposto à sua ideia, considero que de uma forma (civilizada) os sargentos deveriam ser olhados e devidamente “equiparados” na função civil das suas aptidões técnicas e responsabilidade profissional.
Quanto aos oficiais (do quadro permanente), a aptidão e competência que se lhes exige para comandar os sargentos (também do quadro permanente), não perderia nada se, focasse mais a componente técnica no curso inicial, uma vez que, a componente militar, as estratégias, a liderança e chefia…serão porventura aprendidas mais tarde, quando do acesso à categoria de oficial-superior.
No meio de tudo isto, o que eu não consigo mesmo entender é a necessidade prática de sargentos e oficiais que não sejam do quadro permanente, os que julgo serem chamados de milicianos ou contratados. Muito mais me confunde a relação tanto hierárquica como funcional entre um sargento do Q.P. e um oficial “contratado”, isto claro, inseridos no contexto que falamos, numa “tropa” tecnicamente habilitada mas não equiparada aos seus congéneres civis, numa tropa de profissionais.

De Estou Farto a 10.06.2006 às 22:56

"Quanto melhores forem os sargentos mais aptos e competentes terão de ser os oficiais que os comandam."

Até concordo, mas apenas em teoria, isto é, após 22 anos de serviço activo como sargento do exército, foram raras as vezes assim como foram raros os oficiais, em que observei apreço por comandarem sargentos cujas qualidades se evidenciavam, pelo contrário, pareceram preferir os "lateiros" e os "tarimbeiros" que refere, os que não questionassem e dissessem sempre sim a tudo.
Apesar da existência da ESE, a formação ali ministrada ainda não conseguiu acabar com esse estigma do sargento "lateiro" ainda que muitos tenham habilitações ao nível da licenciatura e em nada contribuiu o facto de há uns anos, terem permitido que existam sargentos do QP que nunca passaram pela ESE, como não sabiam que fazer às praças do QP "deram-lhes" as divisas de sargento e assim ficou demostrado o que realmente pesam os sargentos na instituição.

De E Ficamos assim a 13.06.2010 às 19:01

A palavra "sargento", deriva do Latim sevientes " (aquele que serve ou que auxilia). O termo era usado, na Idade Média, para designar os guerreiros profissionais que não tinham estatuto de cavaleiro, sobretudo nas ordens militares.

Como posto militar, o sargento existe há mais tempo que o Exército, como ramo das Forças Armadas. Mesmo ainda antes da criação da primeira organização militar (Terço da Armada - cerca de 1650), já existiam sargentos-mores. O sargento-mor era o responsável por comandar o regimento nas manobras. Era superior ao de capitão e inferior ao de tenente-coronel.

Nesse tempo, os restantes sargentos eram designados "oficiais inferiores". Os sargentos-mores eram os responsáveis pela preparação militar dos homens em geral, gozando de elevada reputação social.

Na época, os nobres de quatro linhagens que entravam no Exército eram considerados oficiais maiores (mestre de campo e generais). Os não nobres que ingressavam ao Exército entravam como soldados (praças de pré). Destes, os que se destacavam eram promovidos a sargento (oficial inferior), posteriormente a alferes e capitão (oficiais subalternos) e sargento-mor (oficial superior). As praças de pret eram contratadas por dia de trabalho (de pret ) e os oficiais por contratos de três anos.

Em Portugal, no tempo do Marquês de Pombal foi contratado o general alemão Guilherme de Schaumburg-Lippe (nomeado Marechal-General do Exército Português para campanha contra a Espanha e a França em 1762), com o encargo de restituir à instituição militar o brio combativo de outros tempos. Este general, através do seu Decreto de 16 de Fevereiro de 1764, criou a Academia Real Militar e passou o Sargento à condição de praça de pré, apesar do contrato continuar sendo trianual. Reconheceu ao oficial inferior a competência para responder pelas companhias, determinando também que eles deveriam saber ler e escrever correctamente, porque o oficial comandante poderia não o saber por ser fidalgo. Para ser promovido ao posto de Alferes e poder frequentar a Escola de oficiais era necessário ser sargento.

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