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Fio de Prumo



Domingo, 07.05.06

Os políticos não perdoam

Há tinta e dois anos, estava eu em Moçambique, colocado no Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 31, sediado na Beira, quando ocorreu o cessar-fogo entre as forças portuguesas e a guerrilha da FRELIMO.

Tive oportunidade de conviver muitíssimo de perto com chefes militares daquele movimento independentista, tal como convivia com os meus camaradas pára-quedistas.

Mais com o olhar de sociólogo do que com o de militar, observei e registei na memória a vivência desses momentos, porque tive plena consciência de serem irrepetíveis e, por isso, históricos.

Foram raros os casos em que pressenti a existência de um ódio surdo ou mal contido quer por parte dos oficiais portugueses quer pelo lado dos responsáveis guerrilheiros. Posso mesmo garantir que se entre os nossos algum mal estar se manifestou nunca foi ao nível dos oficiais do quadro permanente. Hoje poderei generalizar, afirmando que, quanto mais profissionalizado era o quadro, menor sentimento de rancor existia. Havia como que uma consciência superior sobre a necessidade de fazer a guerra sem nela colocar ódio pessoal pelo adversário. Aos graduados da FRELIMO ouvi afirmar, com frequência, mal chegaram à cidade da Beira, a frase que jamais esquecerei: — Fizemos a guerra ao colonial-fascismo e não ao Povo Português. Esse, sofreu tanto como nós! Chamo a isto consciência e formação políticas. Este estádio só o podem alcançar profissionais treinados para subsistirem a um combate de morte; homens para quem morrer faz parte do quotidiano, mas que desejam sobreviver; homens para quem o conflito não é uma actividade continuadamente prolongada, mas, se necessária, é para nela darem tudo por tudo... mesmo a vida.

Reside nesta última afirmação a diferença entre o profissional militar e o profissional político. O primeiro, prepara-se para o conflito, desejando não o viver; o segundo, com ou sem preparação, vive continuadamente o conflito, alimentando-o com ódios, intrigas e disputas verbais... Raramente põe em perigo a própria vida! Essa a razão pela qual, para o político, não há tréguas, nem cessar-fogo, nem paz.

Vem tudo isto a propósito de uma notícia que passou despercebida ao Portugueses. Explico.

No jornal catalão La Vanguardia, do dia 29 do passado mês de Abril, noticiava-se que o novo ministro da Defesa Nacional de Espanha, José Alonso, havia determinado a substituição do Chefe do Estado-Maior do Exército, general José António Garcia Gonzalez, levando-o à passagem à situação de reserva com a antecipação de dois anos sobre a data prevista para cessar funções, porque, segundo a explicação oficial, pretendia renovar a política de entendimento militar com a Europa.

Evidentemente que este motivo é uma mera cortina de fumo para a classe política espanhola se vingar do Chefe do Estado-Maior do Exército por este não ter actuado com rapidez sobre o tenente-general Mena, quando, em Sevilha, nos festejos do Dia de Reis, em discurso público, chamou a atenção para o facto de o Exército estar disposto a cumprir com o juramento que obriga os militares a defenderem a Constituição Política do seu país.

Garcia Gonzalez e Mena são do mesmo curso da Academia Militar, conhecem-se há longos anos e, naturalmente, o segundo não actuou no pleno desconhecimento do primeiro. Mena não terá feito afirmações públicas distintas das que pronunciou, em privado, ao seu superior hierárquico, camarada e velho companheiro. A isso o obrigava a disciplina e a lealdade. Devemos, inclusive, neste momento, recordar-nos que a punição imposta ao general desabrido e frontal foi-lhe aplicada pelo então ministro da Defesa e não, como seria de esperar, pelo Chefe do Estado-Maior do Exército. Os políticos espanhóis evitaram o escândalo de procederem à substituição simultânea dos dois generais — poderia ser motivo para manifestações de indisciplina por solidariedade — contudo, passados três meses, à velocidade dos acontecimentos diários e aproveitando a substituição do ministro, o Governo de Madrid aplicou uma efectiva medida disciplinar ao general Garcia Gonzalez.

Eles — os políticos — não perdoam, não esquecem e alimentam o conflito, porque sem conflito não nos faziam falta, bastavam-nos gestores!

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por Luís Alves de Fraga às 19:14


10 comentários

De A propósito a 08.05.2006 às 00:01

"Aos graduados da FRELIMO ouvi afirmar, com frequência, mal chegaram à cidade da Beira, a frase que jamais esquecerei: — Fizemos a guerra ao colonial-fascismo e não ao Povo Português. Esse, sofreu tanto como nós!"
Foi por isso que moveram uma perseguição feroz a tudo quanto era branco, português, e cheirasse a Portugal... Aos próprios africanos que tinham servido nas Forças Armadas Portuguesas. Eu estava lá e estive ainda mais dois anos. "Consciência superior!..." Só se é para rir.

De A propósito a 08.05.2006 às 00:29

Eu não me vim embora em 1974 ou 75, com as costas quentes e todas as garantias.
Regressei em 1977, depois de me roubarem tudo o que constava num contrato assinado dois anos antes.

De A propósito a 08.05.2006 às 01:02

Além disso, os "consciência superior" nunca foram autorizados pelos próprios pára-quedistas a utilizar as instalações do BCP 31 enquanto estes lá se encontraram.

De Luís Alves de Fraga a 08.05.2006 às 09:45

Não tenho por hábito responder a comentários colocados no meu blog. Acho que todos são livres de dizer o que entenderem dizer. Todavia, acho também que devo dar uma resposta a «A Propósito» (curioso que se eu "dou a cara" penso que todos deviam fazer o mesmo, evitando pseudónimos... É uma opção pessoal que respeito, mas registo). Aqui vai ela: 1) Parece-me que está a confundir o que digo. Com efeito, eu falo em quadros profissionalizados não me refiro à soldadesca de ambos os lados... aí a situação era diferente, até por causa da base cultural que lhe era inerente; 2) Se a situação podia não ser linear no que respeita aos soldados, piorou quando, logo após a independência, a FRELIMO teve de desenvolver uma consciência nacional (ou o mais próximo disso) junto da população negra que havia ficado indiferente perante a actividade dessa mesma FRELIMO. Assim, é natural que os mais indiferentes dos mais ignorantes dos negros "mainatos" quisessem "mostrar serviço" junto dos novos "senhores" e passassem a ser mais papistas que o próprio papa! Acredito que tenha sido doloroso, para quem ficou ou optou por sair de Moçambique, ver-se sem nada. Mas a pergunta que se pode colocar é a seguinte: Alguém, em seu juízo perfeito, poderia esperar a mudança de poderes e que os empregados de "café", de restaurante ou simples anónimos continuassem a chamar "patrão" aos brancos? Que continuassem a receber o dinheiro dos seus magros salários e fizessem vénias de agradecimento como era habitual no tempo da Administração portuguesa? Se há quem acreditou nisso, então deveria mudar-se para outro planeta, porque não sabe como se vive neste chamado Terra! É tempo de saber compreender aquilo que se viveu! Vá ler a História do Brasil e veja como os Brasileiros passaram a tratar os Portugueses logo após a independência e, no entanto, o seu Chefe de Estado era um príncipe português! E os Brasileiros eram maioritariamente brancos, porque no primeiro quartel do século XIX, os negros no Brasil ainda não tinham plenos direitos de cidadania. Estas reacções são, historicamente, justificáveis... anormal é o contrário!

De A propósito a 08.05.2006 às 16:29

Não tem grande interesse que o meu endereço ande por aí. Não é importante, penso eu.
Fui militar subalterno durante 18 anos... depois de 1970, civil. Lidei com a "soldadesca", com serventes, com mainatos, até com gente ao mais alto nível. Estive nos dois lados, no terreno.
Foram os próprios responsáveis da FRELIMO que fomentaram o ódio, em particular o seu chefe máximo, Samora Machel. Não havia necessidade nenhuma disso. Havia muita gente, como eu, que tinha menos medo de ficar em Moçambique do que teria hoje de ficar em Portugal se isto se transformasse numa Cuba ou numa Albânia. A prova é que três anos depois teve de mudar de agulha. Só que o desastre já estava consumado. Constatei mais de uma vez que, salvo os comissários políticos do costume e algumas excepções, ninguém tinha ódio nenhum aos portugueses. Pelo contrário.
Alíás, diga-se também, que enquanto eu adinda acreditava, já a maioria dos naturais tinha visto o ia sair dali. Repito: Eu estava lá, no terreno... a lidar com eles todos os dias. Quanto aos "responsáveis", eram eles os primeiros a roubar os retornados no próprio cais de embarque. Eu não falo de cor... aconteceu comigo.

De Carlos Camoesas a 08.05.2006 às 03:40

Caro amigo Fraga,
Começo por lhe manifestar a minha solidariedade, implique isso o que quer que seja que os nossos políticos entendam e decidam (note-se que existe uma grande conivência entre os nossos "políticos" e os nossos irmãos Espanhóis e as suas empresas e interesses).
Acho que além de todas as "virtudes" que conhecemos, eles (políticos), não serão de tal modo COBARDES que persigam a minha descendencia!

Não me quero envolver ou comentar conflitos passados de outra "gestão", mas, gostei particularmente (e fora desse contexto) das suas palavras::"homens para quem morrer faz parte do quotidiano, mas que desejam sobreviver; homens para quem o conflito não é uma actividade continuadamente prolongada, mas, se necessária, é para nela darem tudo por tudo... mesmo a vida."

Permita uma outra vez um abuso de "fraseologia", indelicadeza e má-educação, mas, estou-me a cagar! Se um alto cargo político nacional o disse , porque não o direi eu, que neste caso o sinto e não desempenho alta função Estatal?

Solidariedade quando expressa, implica o consentimento das consequências e a nítida visão do que é a HONRA. Nem de propósito, acabei (cerca de uma hora atràs) de enviar uma mensagem de solidariedsade a quem a merece e mais indico que, com este meu nome, ontem assinei , o mesmo conteúdo em versão digital, legível por todos oos Portugueses e Outros, neste e em qualquer país.
Existem Generais dignos dessa patente em Portugal, pena que já não estejam no activo e os que supostamente estão...sejam passivos.
Não mais tenho futuro , devo-o a esses que "não perdoam" (políticos), sonhei e tudo fiz pela minha Nação e perdido o sonho LEGAL que sonhei e honrei, CAGUEI!
Apenas para mim caguei, assim como "bebi" força, história e honra, dignidade e bem-servir a Nação nos meus antepassados, o meu legado à minha descendência deste modo fica, nesta virtualidade, naquilo que fui e o que já não sou.
Para dignificar este Povo/Nação/Pátria , não preciso de um chamamento do além, já lá estou!
"Putos" com 29 anos de idade, candidatos à liderança de partidos com suposta intenção de governar este País como 1º Ministro, com 32 anos de idade (se vencesse e foi quase), Doutorados à custa dos papás, tendo tido como profissão cargo de deputado e actualmente chefe de gabinete de vereador...
Não me identifico com esta gente! Não me identifico com esta merda!
Caguei!

De Carlos Camoesas a 08.05.2006 às 03:59

Caro amigo Fraga,
Tive imensa dificuldade em inserir o anterior post. As regras foram alteradas e apenas à 4ª tentativa consegui, os políticos já lhe estão a tentar dominar/censurar o blog? Ou, apenas querem colectar cabeças e identificar os portadores das ditas?
De qualquer modo, se conseguir inserir este comentário, que fique bem claro e inequívoco que não levo a mal se o meu amigo me banir ou proíbir de comenter no seu Blog.
Exagerei no uso e abuso das palavras. É compreensível e aceito a a sua decisão, já admito tudo, roubaram-me a Dignidade. Os "profissionais da política" venceram, já morri!

De Luís Alves de Fraga a 08.05.2006 às 09:53

Meu Caro Amigo Camoesas,
Como sabe, não respondo, por norma, aos comentários feitos no meu blog, mas como estou em maré de fazê-lo, quero aqui deixar-lhe publicamente expresso que não vejo qualquer inconveniente na livre expressão dos seus sentimentos, nem o vou banir da área reservada aos comentários dos meus leitores... Era o que faltava! De censura chegou-nos o tempo do Estado Novo (que por sinal, em 1974, já estava a ficar velho!).
Agradeço-lhe os seus desabafos assim como o de todos os que por aqui quiserem dizer coisas.
Um abraço

De Fernando Vouga a 08.05.2006 às 14:57

Caro Fraga
Também é normal que os portugueses que investiram todas as suas esperanças nas antigas colónias estejam mais que desapontados. Também eles têm o direito à indignação.
Mas essa indignação deve-se muito à falta de informação sobre o que realmente se passava com o colonialismo salazarista. É preciso que quem escrever a História diga sem rebuços que as nossas colónias estavam condenadas a partir do momento em que os EUA entraram na 2ª Guerra Mundial.
De qualquer forma, é bom lembrar que em Moçambique reinava muita animosidade contra a actuação das nossas F.Armadas. Animosidade que não se compreende muito, se tivermos em conta o muito fraco empenhamento dos moçambicanos brancos no esforço da guerra. Em regra, aqueles que lá cumpriam o serviço militar obrigatório ficavam-se pelos cómodos quartéis das guarnições locais. Com muito ar condicionado à mistura.

De boinaverde@clix.pt a 08.05.2006 às 21:54

Quem é aquela malta que está naquele funeral da foto? O da frente, parece o Pinochet. Mais gordito mas é ele, de certeza!

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