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Fio de Prumo



Quinta-feira, 13.04.06

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Sou agnóstico. Há muito anos, as minhas dúvidas sobre o Ente complexo a que o Homem resolveu chamar Deus instalaram-se na minha mente. Gostava de poder compreender esse Conceito, abarcá-Lo com a minha racionalidade, explicá-Lo com o prolixo discurso. Quando penso que estou capaz de O compreender Ele foge-me e torna-se distante e abstracto.
Na minha juventude fui católico praticante, fervorosamente praticante. No rondar dos vinte e um anos perdi — como se dizia, então, nos meios que frequentava — a Fé. Voguei durante vários lustros nesse limbo rente ao ateísmo, até ao momento em que, fruto de circunstâncias várias, optei por me definir como um agnóstico consciente — aceito a existência de uma «ordem» universal, um «não acaso», passível de ser chamado Deus e impossível de ser aprisionado por qualquer homem ou qualquer religião (isso quebrar-Lhe-ia a condição divina), incapaz de ser explicado e de ser compreendido (isso retirar-Lhe-ia a omnipotência). Mas sendo agnóstico, ou talvez por ser agnóstico, respeito, tolerantemente, todos quantos preferem aprisionar um deus, chamando-lhe seu e inventando determinações que acreditam ser ditadas por ele. Respeito e tolero até ao limite em que a sua crença não se torna impositiva, obsessiva e obstrutiva do direito de livre opção ou, por outras palavras, alienante.
Ora, vem tudo isto a propósito de uma cerimónia para a qual o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o meu Amigo general Taveira Martins, fez o favor de me convidar: a apresentação pública do livro Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Templo da Força Aérea Portuguesa.
Acontece que a igreja em questão fez parte da minha juventude — nela orei e vivi momentos importantes: foi lá que fui padrinho de Crisma de dois condiscípulos mais novos — porque era o templo contíguo ao Instituto dos Pupilos do Exército — que frequentei na década distante de 50 do século passado. Aliás, uma parte do Instituto ainda ocupa as velhas paredes do convento dominicano de Benfica. Antes de a Força Aérea «ter conhecido» o seu templo conheci-o eu.
O livro está cuidadosamente ilustrado e recolhe a história da igreja, bem como consegue apresentar uma enumeração exaustiva dos diferentes túmulos de campa rasa que recheiam o seu interior. A família Mascarenhas — da Casa de Fronteira e Alorna, cujo palácio está muito próximo — tem ali sepultados variadíssimos ascendentes. Lá repousam, em túmulo com estátua jacente, por trás do altar-mor, os restos mortais do Doutor João das Regras, figura de burguês e homem de leis do século XIV que defendeu, em cortes, a legitimidade de D. João, mestre da Ordem de Avis e filho bastardo de D. Pedro I, como pretendente ao trono de Portugal. No convento anexo viveu e morreu Frei Luís de Sousa.
Durante a cerimónia de apresentação da obra que decorreu com grande simplicidade, mas de modo muito digno, foi evocada a memória do antigo capelão da Força Aérea, o padre Pedro, aquele que, movendo e arredando todas as dificuldades, conseguiu para o seu Ramo a atribuição do templo de Nossa Senhora do Rosário.
Conheci-o em Moçambique, no início dos recuados anos 70 do século passado. Era um entusiasta, um camarada. Tratávamo-nos por tu — um tu respeitoso — não sei se por sermos capitães, se por sermos colegas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Ambos nos licenciámos naquela instituição; com uma diferença: é que o Pedro era duplamente licenciado. Na sua insaciável sede de saber, ocupou o tempo estudando, sem fazer alarde dos diplomas conseguidos. Para além de meu colega — no âmbito académico — e camarada, o Pedro era um Amigo a quem respeitava e admirava. Acima de tudo, ficava, quando o via, espantado com a sua inquebrantável força de viver, saudável alegria e extraordinária capacidade de realização. Era um Homem cujas virtudes humanas apetecia tomar como modelo.
É curioso que, dos vários capelães com quem me cruzei em mais de quarenta anos de oficial, sempre colhi, de quase todos, uma excelente opinião, recordando com saudade dois deles, em particular: o padre Almeida, homem de uma integridade absoluta, transmontano dos quatro costados, capaz da chalaça brejeira, mas sério nas suas convicções — que morreu vítima do cancro que o minava e a quem, a última vez que o vi, conscientes ambos que seria a última, ousei pedir autorização para o beijar como o faria a um irmão mais velho, abraçando-nos com lágrimas nos olhos— e o padre Bernardo, também transmontano, mas diferente, por viver com uma tranquilidade profunda e uma abertura de espírito quase total onde a tolerância se sobrepunha a qualquer laivo de radicalismo imposto pela hierarquia eclesiástica — sabia que os «rebanhos» castrenses requerem uma virilidade e uma paciência muito próprias. Mais alguns conheci no meu longo caminhar pela Força Aérea, mas foi efémera — embora não negativa — a lembrança que me deixaram.
É pena que entre nós ainda se reserve tratamento especial aos sacerdotes da Igreja Católica Apostólica Romana, nas Forças Armadas, dando-lhes capelanias e privando outros credos de gozarem de igual privilégio. Bem sei que é voz corrente serem os Portugueses maioritariamente católicos romanos, mas já se justificava a abertura de possibilidades para outras práticas religiosas. Seria saudável e traria vantagens o ecumenismo nas fileiras e todos nós, militares, ganharíamos com isso.

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por Luís Alves de Fraga às 21:48


8 comentários

De Carlos Camoesas a 13.04.2006 às 22:36

Tema delicado, amigo Fraga. A abertura da Instituição Militar a outros credos ou religiões, seria difícil ou, atrevo-me até a dizer impossível. Manter o "status quo" parece-me a resolução mais plausível. A margem e diferenciação entre religião e "seita", é ténue e não científica, pouco credível e pouco isenta ou até mesmo impossível de na prática definir. Caso complexo, logo na elaboração de um "catálogo" de candidatura... Se o caminho fosse a via do número de crentes, praticantes, adeptos ou "sócios", aínda pior!
Já se legislou sobre o assunto no EMFAR, não tanto insinuando uma abertura a outras crenças mas sim, uma permissão de "incompatibilidade" com aquela que é aceite como "oficial" e única nas Forças Armadas, não durou. Foi de novo alterado o EMFAR, retirando o "direito de recusa" e manteve-se a tradição da obrigatoriedade católica. Os militares tiveram durante um curto lapso temporal, direito a não serem nomeados para cerimónias religiosas diversas do seu culto ( que poderá ser o ateísmo ou até mesmo a Secularização), mas... logo isso foi "corrigido" de modo a que, incompreensivelmente tenham de cumprir a nomeação desde que a cerimónia seja militar (?)
Assim, a meu vêr, o futuro da "religiosidade" nas Forças Armadas, não passa pela abertura a outras crenças, práticas ou "modos de vida " mas sim, pela não obrigatoriedade e pela aceitação da diferença e liberdade individual. Mantendo a tradição da prática católica no seio castrense, apenas para os que assim se definam, mesmo que a não pratiquem no seu relacionamento com os outros.

De Fernando Vouga a 14.04.2006 às 12:20

Caro Fraga. Belo artigo e muito isento. Em tudo há coisas boas e más. E é bom que recordemos as boas.
Achei curioso o seu percurso religioso. Mutatis mutandis, coincide com o meu. Tambéu eu, quando católico praticante, na ânsia de viver a minha fé em plena consciência, acabei porconcluir que a religião não me fazia sentido.

De Carlos Camoesas a 14.04.2006 às 21:59

Nem de propósito! Passei os olhos por um jornal que não costumo lêr, como forma de me alhear do futebol na T.V., que a maioria democrática me "obriga" a assistir quando o aparelho não é meu, estou em local público ou é de propriedade e/ou uso "comunitário" ...
Acho que era o "24 horas" ou coisa do género, mas que afinal, também tem artigos decentes.
Bispo das Forças Armadas (Portuguesas), contra uma "patente" superior do Vaticano. Não, não vou por aí! Antes pelo contrário, admiro, respeito e considero de alta dignidade e postura a posição da Entidade máxima representante da Igreja católica no seio castrense Português. Considerar os Jornais, a T.V. e a Internet como os novos "pecados" , só revela uma postura retrógada da Igreja (católica) e um contrasenso ditatorial e contrário a todo o trabalho de aproximação feito pelo Papa que marcou o mundo.
Claro que todos os meios de informação e divulgação de cultura podem ser mal usados . Não me recordo se a Igreja já considerava também a Rádio como pecado!
Claro que, o autor de tamanha hipocrisia já tem uma certa idade mas, nem isso é desculpa, pois, O Papa (porque esse foi e ficará como "O Papa"), também era idoso e aínda debilitado físicamente e foi quem mais se, e aproximou a juventude. Tanto trabalho em vão! Tantas desculpas históricas e amargas, em vão! Agora, parece que também a hierarquia da Igreja (católica) quer regressar à Inquisição, será que voltaremos à Eucaristia em Latim? Não é assim que a Igreja se aproxima dos crentes, não é assim que a Igreja vai recuperar as ovelhas que se tresmalham por outros prados. Não é assim! Não é a praticar esse futebol que irão atraír mais sócios ou expectadores nos "estádios" (desculpem a ironia e equiparação). FELIZMENTE, existem pessoas como o bispo das Forças Armadas, como Frei Bento, como o "padre da Lixa", como um ou outro padre que pouco conheci ( Mota) mas muito prezei , como Grandes Pensadores e Filósofos que me orgulho de conhecer e que marcaram a minha vida, felizmente existem! Soa-me um tanto a hipócrisia pretender substituir a sociedade de informação e cultura à leitura da Bíblia! Não consigo entender ou sequer imaginar um jovem que não veja televisão, não leia jornais e não navegue na Internet e dedique todo esse tempo diário a lêr a Bíblia. Afinal porque "chamamos" (nós, sociedade ocidental, de maioria cristã, não necessáriamente católica) fundamentalistas aos Islâmicos??? As origens são próximas, até possuem "textos" praticamente iguais, desconheço Religião que ensine a praticar o mal, todas caminham no mesmo sentido e com o mesmo objectivo, a Irmandade. Por essa causa tanto lutou e "sapos engoliu" O Papa...E agora a Igreja Católica pretende retroceder 500 anos? Voltar à fase em que a sociedade ocidental passou por um período conturbado pelo qual passa agora a outra metade do mundo? Eles "eles", só estão a passar pela mesma fase de radicalismo, o que é natural e até históricamente compreensível, Maomé nasceu 500 anos depois do J.C. !
Porque não continuar a aproximação de Religiões que tanto tentou O Papa? Porque não ajudar a outra metade a ultrapassar esses 500 anos sem cometer os mesmos erros? Voltamos nós 500 anos atrás?
Quando as pessoas acreditarem mais na Humanidade, quando julgarem os outros por si, quando tentarem descobrir a essência do Bem e tentarem expurgar o mal em si...Sem se descartarem com o Sobrenatural, sem passarem a responsabilidade da constante vigília do seu comportamento para outras entidades Superiores que não elas... Serão Deuses, ou demónios atormentados!

De Carlos Camoesas a 15.04.2006 às 00:46

P.S.
Claro que cometo erros ortoigráficos, não escrevo o que penso em Word para de seguida passar pelo corrector. Transmito para as teclas em "directo", tão rápido quanto me é possivel, aquilo que penso. Erro, sou humano e não pretendo ser prémio Nobel ( ou Nobél como "vendeu" Saramago que, no "Evangelho..." se esqueceu de pontuar). Não pretendo ser o que não sou, apenas o que penso e... por vezes, também não coincide!

De Luís Alves de Fraga a 15.04.2006 às 10:23

Amigo Camoesas, desejo que este seja um espaço de tolerância e de compreensão. Julgo que aqui ninguém critica os erros ortográficos, porque o importante são as ideias deixadas. O seu contributo é sempre bem-vindo, pela sensatez das suas palavras e pela agudeza das suas observações. Estou-lhe grato. Apareça sempre.

De Anónimo a 19.04.2006 às 23:24

o link para o vozsurda não funciona, falta um (g).
blo(g)spot.

De Carlos Serejo a 20.04.2006 às 19:14

Senhor Luís Fraga:
Chamo-me Carlos Serejo e encontro-me neste momento a recolher testemunhos de pessoas que tenham convivido com o saudoso Padre Manuel Baptista Gonçalves Pedro. Esta recolha visa a elaboração de uma colectânea de documentos que permita prestar-lhe uma homenagem de forma digna.
Pelo que percebi, após a consulta do seu blog, houve entre os senhores uma relação de amizade, respeito, admiração... Venho pois, solicitar ao Senhor Luís Fraga que, caso queira participar nesta iniciativa, me envie uma nota evocativa sobre o Padre Pedro, ou me autorize a usar o texto do blog.
Informo ainda que esta acção está a ser realizada no âmbito da Força Aérea Portuguesa.
Com os meus respeitosos cumprimentos,
Carlos Serejo.

O meu endereço é carlosserejo@hotmail.com

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