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Fio de Prumo



Sexta-feira, 08.09.17

Coerência

 

Às vezes fico-me a pensar sobre o significado profundo das palavras. Não me interessa o que diz o Dicionário; interessa-me o que me diz a experiência de vida e, por conseguinte, o resultado da minha reflexão.

Hoje fiquei-me por coerência.

 

Diz-se ser coerente alguém que age em conformidade com o que pensa e apregoa. E acha-se nisto uma virtude.

Reflectindo com cautela, eu acho nisto um tremendo defeito. E passo a explicar.

 

A absoluta certeza em nós mesmos é um acto de enorme vaidade e de egoísmo. Na base da coerência tem de estar essa certeza, pois, se não estiver, a nossa postura - que mais não seja, no foro íntimo - é vacilante, incerta, e, consequentemente, falha de coerência, porque nos balançamos entre o sim e o não. E nem o sim e nem o não poderão ser definitivos, porque novas dúvidas nos podem assaltar em cada momento que passa. Deste modo, a coerência é irmã siamesa do egoísmo, já que se centra nas nossas certezas "inquestionáveis". E só não nos questionamos se estivermos "cheios de nós".

 

Egoísmo é, ao cabo e ao resto, o que mais abunda no ser humano! Por isso somos "coerentes". Vemo-nos em primeiro lugar e como centro de tudo e de todos. E o egoísmo é a exaltação da nossa vontade - tal como a coerência -, porque não somos capazes de nos despirmos de nós mesmos, das nossas pequenas "feridas" ou desejos ou vontades ou certezas. Em vez de nos colocarmos na pele do outro, não somos capazes de despir a nossa pele e, se por ventura o fazemos, é como exercício para provar a nossa razão, é para reforçarmos a nossa vontade e jamais para gerar, em nós, a dúvida. Porque o egoísmo é essa incapacidade, por vezes, por conveniência pessoal, até deixamos transparecer a existência de tolerância, de incerteza, de hesitação. Todavia, é mais um artifício do nosso egoísmo, na tentativa de parecermos coerentes, para impormos aos outros a nossa "coerente" vontade.

 

O grande e mais belo discurso de coerência verdadeira que conheço é a tradução portuguesa, devida a Félix Bermudes, do "If" de Rudyard Keppling onde se faz a apologia do máximo desprendimento pessoal. Eis porque, em consciência, julgo que a coerência exige a dúvida, a incerteza, ainda que estas se manifestem somente no íntimo de cada um.

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por Luís Alves de Fraga às 07:19


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