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Fio de Prumo



Segunda-feira, 18.09.17

A Espanha

 

O país vizinho está tão próximo de nós, que não esconde a tentação histórica de nos absorver, como já aconteceu no século XVI (1580). Hoje, essa tentação aparece diluída na existência da União Europeia, mas existe. Para percebê-la basta olhar para o que está a acontecer em relação à Catalunha.

 

Desde sempre, mas em especial desde 1640, os Catalães desejaram a independência em relação a Castela e Madrid, mas o poder central esmagou, de formas diferentes, essa vontade separatista. Agora está ao rubro a tensão entre o Governo da região autónoma catalã e o Governo central de Espanha.

A separação justifica-se de muitas e variadas formas, mas, acima de todas, pelo facto de a Catalunha ter definida uma cultura absolutamente distinta da de Castela, cuja ambição centralista lhe vem da pobreza de meio económicos.

 

O que me preocupa mais, no momento que passa, é saber se os políticos portugueses têm consciência exacta da atitude estratégica a adoptar dentro da Península e fora dela, na União, pois, à maior resistência de Madrid em dar liberdade à Catalunha, corresponde — terá de corresponder — um maior desejo de domínio hegemónico sobre Portugal. É o jogo internacional das compensações. E, nisto, os militares de Portugal não podem deixar de ter uma palavra a dizer.

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por Luís Alves de Fraga às 14:16

Sexta-feira, 08.09.17

Coerência

 

Às vezes fico-me a pensar sobre o significado profundo das palavras. Não me interessa o que diz o Dicionário; interessa-me o que me diz a experiência de vida e, por conseguinte, o resultado da minha reflexão.

Hoje fiquei-me por coerência.

 

Diz-se ser coerente alguém que age em conformidade com o que pensa e apregoa. E acha-se nisto uma virtude.

Reflectindo com cautela, eu acho nisto um tremendo defeito. E passo a explicar.

 

A absoluta certeza em nós mesmos é um acto de enorme vaidade e de egoísmo. Na base da coerência tem de estar essa certeza, pois, se não estiver, a nossa postura - que mais não seja, no foro íntimo - é vacilante, incerta, e, consequentemente, falha de coerência, porque nos balançamos entre o sim e o não. E nem o sim e nem o não poderão ser definitivos, porque novas dúvidas nos podem assaltar em cada momento que passa. Deste modo, a coerência é irmã siamesa do egoísmo, já que se centra nas nossas certezas "inquestionáveis". E só não nos questionamos se estivermos "cheios de nós".

 

Egoísmo é, ao cabo e ao resto, o que mais abunda no ser humano! Por isso somos "coerentes". Vemo-nos em primeiro lugar e como centro de tudo e de todos. E o egoísmo é a exaltação da nossa vontade - tal como a coerência -, porque não somos capazes de nos despirmos de nós mesmos, das nossas pequenas "feridas" ou desejos ou vontades ou certezas. Em vez de nos colocarmos na pele do outro, não somos capazes de despir a nossa pele e, se por ventura o fazemos, é como exercício para provar a nossa razão, é para reforçarmos a nossa vontade e jamais para gerar, em nós, a dúvida. Porque o egoísmo é essa incapacidade, por vezes, por conveniência pessoal, até deixamos transparecer a existência de tolerância, de incerteza, de hesitação. Todavia, é mais um artifício do nosso egoísmo, na tentativa de parecermos coerentes, para impormos aos outros a nossa "coerente" vontade.

 

O grande e mais belo discurso de coerência verdadeira que conheço é a tradução portuguesa, devida a Félix Bermudes, do "If" de Rudyard Keppling onde se faz a apologia do máximo desprendimento pessoal. Eis porque, em consciência, julgo que a coerência exige a dúvida, a incerteza, ainda que estas se manifestem somente no íntimo de cada um.

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por Luís Alves de Fraga às 07:19


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