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Fio de Prumo



Domingo, 19.07.15

Contradições de um tempo ilógico

 

Pus-me a reflectir sobre a crise europeia, a crise da Grécia, a de Portugal e todas as muitas outras que não vou enumerar. Detectei contradições profundas neste tempo feito de ilogicidades económicas e financeiras. Quero dar conta de algumas só para se perceber o anormal funcionamento da “máquina” que se nos impõe, a nós, meros cidadãos incautos e impreparados.

 

Comecemos por um lado para, depois, passarmos a outros. A escolha é indiferente.

Nos últimos vinte e cinco ou trinta anos o salto tecnológico, especialmente no domínio da electrónica, foi espantoso! Há um abismo entre as máquinas de calcular eléctricas, para não falar das manuais, de há cinquenta anos e os actuais telemóveis, tablets, computadores portáteis, que juntam valências de várias maquinarias numa só! Máquinas que já não carecem de ecrã, pois a pele do braço pode fazer essa função. O abismo mantém-se se pensarmos na diferença entre velhos artefactos para medir a tensão arterial, pulsações, desgaste de calorias, medição de peso e simples “relógios” actualíssimos que fazem tudo isso ao mesmo tempo.

Este presente é já um futuro e o futuro de amanhã será o limite da imaginação esboçada há cinquenta anos.

 

Pois bem, tudo isto está disponível para ser comprado. Tudo isto e muito mais que não é necessário referir. Mas comprado por cada um de nós. Tudo depende é da capacidade financeira de que se dispõe. Contudo, a tendência é para os preços irem baixando de forma a tornar acessível o produto a quase todas as bolsas. Só assim se justificam os avanços tecnológicos, pois se fossem feitos para servir a uma elite não valia a pena, porque o investimento em investigação não era compensado pela produção massiva.

A macro ideia que comanda a inovação é delimitada por duas balizas: 1) fazer que a produção seja acessível ao maior número de gente — teoricamente, a todos os cidadãos do planeta; 2) fazer que, em curto espaço de tempo, a modernidade de um artefacto seja ultrapassada pela modernidade de um outro que traz vantagens e se torna mais apelativo. A sociedade da abundância carece de compradores; se os não tiver morre e a modernidade acaba.

Neste mesmo sentido, nesta mesma linha, seguem os cuidados de saúde para, lutando contra a morte, manter um mercado de “compradores de vida”; e o mesmo se passa com a educação/instrução, pois quanto mais, maior e melhor for a instrução dos cidadãos mais cedo entram, ou fazem entrar os encarregados do crescimento das crianças, no mundo de um certo tipo de consumo sofisticado.

Para que tudo isto seja viável e possível é imprescindível que haja paz e segurança nas sociedades e, por isso, exige-se competência das forças policiais e celeridade na justiça.

 

Quem é que pode garantir o funcionamento estável das sociedades? O Estado. Somente ele é o garante de todo o equilíbrio. Quanto mais o mercado oferece para consumo tanto mais o Estado tem de crescer para gerar ordem e capacidades aquisitivas, pois, nos países economicamente pobres, a única grande fonte de rendimentos provém do emprego na máquina estatal. E neste caso, para o Estado gerar os equilíbrios necessários à satisfação de um mercado competitivo e sempre em modernização, não tendo como nem quem taxar, para aumento dos rendimentos, tem de endividar-se para conservar as capacidades aquisitivas dos cidadãos. A dívida é o componente essencial á manutenção de uma amplitude sempre crescente do mercado. Sem dívida o mercado “encolhe”. Sem medicamentos e sem meios de diagnóstico precoces e eficazes aumenta a taxa de mortalidade infantil e a de idosos, gerando-se, por conseguinte, uma contracção das potencialidades aquisitivas. Sem dívida o Estado gera desemprego, “matando” potenciais compradores. Sem dívida a receita do Estado não carece de ser tão grande e a cobrança de impostos pode baixar até ao limite mínimo da sustentabilidade do aparelho, ou seja, até ao limite da incapacidade quase total de aquisição dos cidadãos, logo, até à retracção da produção; logo, até à estagnação da investigação e da modernidade.

 

É aqui que estão as contradições de um tempo ilógico, pois, ou se deseja ampliar o consumo para sustentar a possibilidade de aumento do mercado produtor e vendedor; ou se deseja ganhar margens de lucro financeiro por aumento das taxas de juro nos empréstimos com prejuízo da evolução do mercado e, por conseguinte, da economia, da investigação, do progresso e do bem-estar.

 

Fui capaz de me fazer compreender?

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por Luís Alves de Fraga às 15:57

Sexta-feira, 10.07.15

Juízes e Militares

 

Foi notícia que o sindicato dos juízes reivindica, entre outras coisas, melhorias salariais para os seus sócios.

Se tem legitimidade este pedido? Claro que tem, num tempo de austeridade! Mas será justo? Claro que não! Não, porque, quando há Portugueses a passar fome, os responsáveis pelo exercício da J U S T I Ç A, pretendem praticar uma injustiça social. Mas só se pode fazer Justiça independente, é usual afirmar, se não se estiver dependente da tentação do suborno! Se o argumento é esse, deixem-me rir, pois subornáveis somos todos nós! Eu disse, todos nós! O que varia é o preço do suborno. E esse não depende de quanto se ganha, mas de por quanto se vende o potencial subornado! Há quem não se venda por dinheiro, mas tão só por honrarias!

 

Nos antípodas dos juízes estão os militares, pois, cada vez mais, vêem reduzida a sua capacidade de sobrevivência financeira diária e degradadas as condições necessárias para o exercício da sua missão, já que, enquanto os magistrados podem, com maior ou menor celeridade, ir cumprindo a finalidade da sua existência, os militares, de certeza, são absolutamente incapazes de reunir meios materiais e humanos para opor resistência credível a qualquer ameaça bélica exercida sobre o território nacional, mesmo se essa ameaça passar pelo tão famoso e actual terrorismo.

 

O ministro da Defesa pode proclamar aos quatro ventos que para todas as reformas tem obtido a concordância das chefias militares, mas o que não pode garantir é que estas, a darem tal concordância - e julgo que não dão! -, o façam de consciência tranquila. Não podem ter a consciência tranquila porque, se a têm, não são chefes militares! Podem é estar a reduzir ao máximo, através da existência de um mínimo de meios, a verdade da missão das Forças Armadas!

E fazem-no porquê? Porque, à boa maneira castrense, é primordial cumprir e só depois reclamar; é primordial resistir até ao limite do impossível; é primordial não dar mostras de desacato.

Estas são as razões pelas quais os dialogantes privilegiados do ministro são as chefias militares e não as Associações Profissional castrenses!

Ah, pois! É que os chefes militares só se sentem "libertos" das grilhetas castrenses quando vêem reduzida a sua condição à de reformados, sendo raros os que, no activo, são capazes de bater com a porta depois de ter dado dois murros na mesa do ministro e dito NÃO!

 

E os ministros sabem desta fragilidade dos chefes militares e desta força das associações castrenses, por isso optam pelo diálogo com aqueles em vez de terem de escutar estas. É porque estas usam de um discurso que, não sendo sindical, tem semelhanças com o dos sindicatos dos magistrados. Os chefes militares, infelizmente, vão crescendo na hierarquia, mas continuam a ter posturas próprias de oficiais subalternos, de capitães, de majores pouco impositivos, de tenentes-coronéis dóceis e disciplinados e coronéis à espera de serem seleccionados para o curso de oficial general.

 

Sou um oficial reformado crítico e por isso é que me permito escrever assim?! Não! Desde a mais tenra idade eu, ainda aluno dos Pupilos do Exército, cultivei uma postura de frontalidade! E só quando entraram outros valores, que não só os castrenses, na análise do meu comportamento, eu fui punido com três dias de prisão disciplinar, por ter cumprido até limites que não eram pensáveis por outros oficias que cuidavam da sua impoluta sobrevivência. Eu não cuidei, porque, para mim, era mais importante cumprir até ao fim, mesmo que para tal fosse julgado como culpado, sendo inocente como Jesus. E era só capitão graduado em major! Mas isto, são outras histórias!

 

O senhor ministro da Defesa é esperto - sim, só espero - e sabe tirar partido de quem tem na frente. Resta às associações profissionais castrenses, gozando da liberdade que institucionalmente têm, colmatar a liberdade disciplinar que as chefias militares não querem ou não mostram usar.

Se a justiça na sociedade é importante, a defesa e a segurança dessa mesma sociedade é-o mais ainda!

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por Luís Alves de Fraga às 12:09


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