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Fio de Prumo



Quinta-feira, 28.05.15

Agradecer ou não?

Há dias, um aluno meu, colocou-me a questão de saber se devia fazer agradecimentos na página a isso destinada na sua dissertação de mestrado ou, pura e simplesmente, não reconhecer dívida de espécie alguma a quem quer que seja.

Não tive relutância em responder-lhe: não só devia fazê-lo como era de bom tom que o fizesse.

- Mas, replicou ele, não basta agradecer ao orientador, que, em boa verdade, é a pessoa a quem mais devo na execução do meu trabalho?

Fiz-lhe ver que agradecer exclusivamente ao orientador, de forma expressa ou não, era um acto de indelicadeza para com todos quantos, directa ou indirectamente, contribuíram para que o trabalho dele se tornasse uma realidade. É que ninguém, além de morrer, faz nada sozinho, pois há sempre alguém a quem agradecer condições criadas para que se realize um sonho ou uma necessidade nossa. Não pensar assim é um acto de egoísmo. Mais, de soberba intelectual, pois, por muito pouco que alguém contribua para o nosso trabalho, esse pouco, em certas circunstâncias, pode ser muito ou mesmo tudo.

O meu aluno ficou convencido, mas remoeu que teria de dar voltas à cabeça para encontrar a quem agradecer.

Estou com pena dele! Pena de mistura com algum desprezo, pois, quem assim procede, não merece graus académicos, os quais devem começar por constituir um acto de humildade.

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por Luís Alves de Fraga às 17:41

Terça-feira, 26.05.15

No Ministério da Defesa eles não sabem…

 

No Ministério da Defesa Nacional (MDN) estão colocados alguns militares — escolhidos, suponho eu — para desempenharem missões não decisórias, porque estas são executadas pelo ministro. Quando muito, nelas podem participar os directores-gerais, mas como meros instrumentos de emissão de opinião não vinculativa.

Da consulta dos diferentes mapas de pessoal apresentados no sítio do Ministério, na Internet, garantidamente, conseguem-se apurar, para o ano de 2013, vinte e quatro militares nele colocados. Que sejam mais, não importa, porque, importante é onde estão colocados e como podem interferir na tomada de decisão do ministro. Assim, muitos ou poucos, não invalida nada do que vou dizer de seguida.

 

Comecemos pelo que se entende, entre nós, por governar.

Pois bem, governar é pôr em execução a bagagem de ideias feitas que foram impingidas ao ministro por força de um programa de governação traçado nos gabinetes das sedes dos partidos e que ninguém lê antes de votar no acto eleitoral. Mas, mesmo que leia, acaba não percebendo nada, porque as meias palavras servem para criar uma nuvem de fumo capaz de permitir um entendimento vago de ideias bem determinadas.

Quando o indigitado ministro vai ocupar o cargo já tem o rumo traçado, tendo somente de fazer cumpri-lo, distorcendo vontades mais ou menos fáceis de mudar para manter posições de agrado perante os escalões mais altos da tomada de decisão.

Em suma, o senhor ministro, para as considerações que vou expender, pouco ou nada precisa de saber sobre defesa nacional. Precisa é de fazer cumprir, tendo uma margem de manobra de certo modo ampla, o programa do Governo. Nem precisa de saber os postos militares, nem para que servem as Forças Armadas, nem o que é mais importante para efectivar a missão de defesa do território nacional. Não precisa de saber nada! Não precisa, porque os inteligentes do partido já pensaram as grandes linhas que devem ser levadas a cabo na vigência de um mandato governamental.

E quem são os inteligentes do partido? Ah, bom, são uns senhores que, para o caso em análise, não percebem nada de defesa nacional! São uns tipos, quando muito, que frequentaram o, pomposamente chamado, curso de defesa nacional, ministrado no instituto do mesmo nome, onde ouviram palestras sobre palestras — sem o cuidado de uma avaliação de conhecimentos adquiridos — versando geopolítica, geoestratégia, história e relações internacionais, organização de defesa, vagas noções de armamento decisório e do seu emprego estratégico e táctico, noções de economia relacionada com a defesa, algumas ideias sobre conflitos e resolução dos mesmos e mais uma quantas teorias de estratégia nas suas vertentes operacional e logística. O resto passa por escutar uns conferencistas estrangeiros que ganharam notoriedade internacional, desenvolvendo cenários de conflito que, umas vezes, acabam saindo certos e, noutras, absolutamente errados.

São estes os inteligentes que traçam as linhas mestras da política de defesa nacional nas sedes dos diferentes partidos políticos. Como na actualidade até já nem serviço militar obrigatório se cumpre, estes inteligentes não fazem a mínima ideia do que é pegar numa arma ligeira e transportá-la quarenta quilómetros às costas! Não fazem ideia do quanto ela pesa no início da marcha e no final! Julgam, como inteligentes que são, que pesa o mesmo! Umas bestas! Mas, mesmo que tivessem prestado serviço militar, veriam sempre as Forças Armadas com os olhos do posto que atingiram nas fileiras… No máximo, com olhos de tenente! Ora, um profissional militar — mais ainda se for oficial de elevada graduação — sabe que a visão da defesa nacional vista por um tenente, passado fugazmente pelo quartel, está muito longe do que se ao fim de trinta anos de serviço militar.

 

Por muito que o Dr. Aguiar-Branco tivesse sido militar, — que não foi —, por muito que tenha escutado conferências sobre defesa nacional, — que não deve ter escutado —, só está a executar, com ampla margem de manobra, o que os inteligentes do PSD/PPD puseram no programa eleitoral, que ninguém leu — e se lesse não alcançaria a amplitude das ideias disfarçadas por trás de palavras escritas para enganar —, só está a executar, dizia eu, com mais os acrescentos que a prática governativa em austeridade impuseram, as lições mal aprendidas que uns quantos inteligentes, licenciados em qualquer coisa, ouviram, entre bocejos e graçolas, nas palestras do curso de defesa nacional… se é que o frequentaram!

É altura de começar a distribuir responsabilidades a quem as tem e de chamar os burros — sim, burros e não bois! — pelos nomes.

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por Luís Alves de Fraga às 01:48

Sábado, 23.05.15

O Museu dos Coches

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Portugal pode orgulhar-se de ser um dos poucos países que tem, há muito tempo, um museu de coches reais. Foi D. Amélia, a última rainha de Portugal, quem deu a ideia para o criar. Funcionou, como é sabido, durante muitos anos, no picadeiro do palácio de Belém. Era bastante apreciado pelos estrangeiros que nos visitavam.

Alguém entendeu, depois de se terem desactivado unidades militares, passar o Museu dos Coches para as instalações das oficinas auto do Exército, mesmo em frente da estação dos caminhos-de-ferro de Belém, a poucos metros de distância do palácio, hoje, da Presidência da República. Mas, porque o nosso espírito megalómano não se compaginava com a simples reutilização das infra-estruturas existentes, ainda que fazendo pequenas obras de readaptação, vá de derrubar os edifícios por cujo chão passaram as mais diferentes viaturas auto do Exército, onde se operaram verdadeiros milagres para dar vida a quase moribundos veículos de guerra, e construir um “monstro” que rivaliza em falta de beleza, estética e deselegância com o Centro Cultural de Belém… Cavaco Silva, directa ou indirectamente, deveria deixar ligado o seu nome a essas “bestialidades” arquitectónicas!

 

Como sobrava espaço, lá vieram, do palácio ducal de Vila Viçosa, mais umas quantas carruagens para compor o “ramalhete” daquilo que foi o parque hipomóvel dos Chefe de Estado, no tempo da Monarquia. Felizmente que a Dr.ª Maria Cavaco Silva não se lembrou de solicitar que se faça o museu dos automóveis da Presidência da República! Onde se iria implantar outro “monstro” para expor os carros – se é que ainda estão guardadas essas velhas raridades! – onde se pavonearam todos os Presidentes?

 

Se é verdade que tem interesse museológico esta reserva dos coches, também não deixa de ser verdade que é um dos mais extravagantes museus, pois recordam a maior vacuidade de um povo e, acima de tudo, da Casa Real desse povo!

Mas é uma atitude que vai muito a contento dos Portugueses!

Não se espante o leitor com a afirmação! Ora veja que o meio de transporte dos nossos compatriotas sempre foi o espelho da sua vaidade e, também, da sua miséria! Miséria, está claro! Pode não haver grande quantidade de pão para pôr na mesa, mas na rua, à porta de casa, lá tem de estar o automóvel, se possível de uma marca que encha de inveja o olho dos vizinhos, mesmo que já tenha uns anos de uso! Não interessa! É um bom carro, que ainda anda e dá para criar estatuto entre quem o vê! Ora, esta é e foi a realidade de sempre em Portugal. A velha aristocracia podia não ter no solar de família mobiliário para compor a casa e dar-lhe conforto, mas tinha de ter boleeiro vestido a rigor e carruagem, de preferência, com brasão de armas pintado nas portas, mesmo que os animais de tiro apresentassem ar de quem passa fome de toda a forma e feitio.

Estatuto! Estatuto, meus senhores, é tudo o que mais precisamos, mesmo que as indústrias definhem e os campos estejam entregues às estevas e a toda a casta de ervas daninhas! Por isso, no tempo das “vacas gordas” da CEE, entre investir para criar riqueza e motorizar-se a rigor, optava-se por comprar carros de alta gama e cilindrada!

 

Este Museu dos Coches é, por conseguinte, o retrato dos Portugueses: miséria nos cofres do Estado, carência de prosperidade produtiva, mas espavento para mostrar o espavento de outros tempos! Mostrar a talha dourada do coche de D. João V ou o coche onde D. Manuel mandou a Roma a mais esplendorosa embaixada para impressionar o Papa com as riquezas do Oriente.

Ah, mas, como que, para uns, um rebate de consciência e, para outros, o dedo acusador de uma perfídia, lá está também o “landau” onde um valente republicano, sabendo que vendia cara a vida, pôs termo à vida do penúltimo rei de Portugal e do seu filho primogénito! É o gosto tão nacional pelo melodrama!

 

E nós continuamos a viver um programa de austeridade imposto pela União Europeia, o mesmo é dizer, por Berlim e o seu ministro das Finanças. Nem à chibatada deixamos de ser iguais a nós mesmos!

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por Luís Alves de Fraga às 12:55

Domingo, 17.05.15

O ministro da Defesa Nacional

 

Provavelmente os meus Caros leitores nunca se deram ao trabalho — a não ser algumas raras personalidades de excepção, que fazem o favor de lerem o que escrevo — de pensar o que compreende a ideia de defesa nacional. Ora deixem-me que, sendo sintético, vos esclareça.

 

A defesa nacional tem como finalidade todo o conjunto de actividades que, de forma directa ou indirecta, garantam a segurança do território e de toda a população. Sendo que por segurança, para este efeito, se deve entender a acção ou conjunto de acções que permitem o exercício livre da vontade e do interesse nacionais, anulando, reduzindo ou limitando o exercício da vontade e interesses de Estados estrangeiros amigos ou/e potencial ou declaradamente inimigos. Assim, neste sentido, o Ministério da Defesa Nacional terá de ser olhado como um “super Ministério”, pois são muitas as vertentes por onde se pode pôr em risco a vontade e o interesse de um Estado. Como mero exemplo, apontam-se casos que, em Portugal, atentam ou atentaram contra a segurança nacional, sem que ninguém manifestasse qualquer tipo de interesse ou preocupação. Vejamos.

 

A ponte 25 de Abril, sobre o rio Tejo, é uma ameaça nacional: ela, se derrubada por efeito de um bombardeamento aéreo de precisão cirúrgica, impede imediatamente o trânsito naval de todo o estuário do Tejo e, muito em especial, aquele que lhe está a montante e onde se situam as infra-estruturas portuária de Lisboa. A Base Naval do Alfeite, estando onde está, é outra ameaça para a segurança nacional, porque, sendo o porto de abrigo da nossa esquadra é um excelente e compensatório alvo para um bombardeamento aéreo. Logo ao lado, a Base Aérea n.º 6, no Montijo, está nas mesmas condições, porque é, também, um alvo desejável facilmente atingível por todas as aeronaves que tenham por missão destruir a Base Naval do Alfeite. Do mesmo modo, no passado, os estaleiros da Lisnave estavam “à mão de semear” do bombardeamento e, logo um pouco ao lado, o complexo da CUF satisfazia e simplificava a acção do “inimigo” e, ainda no passado, a refinaria da Sacor, daria oportunidade às aeronaves adversárias “despistadas” de se satisfazerem através da destruição de mais de metade da nossa indústria petrolífera. A isto sempre eu chamei “ser amigo do inimigo”, poupando-lhe esforços e preocupações de maior com planeamentos militares.

 

Como se pode ver, a simples implantação de uma infra-estrutura produtiva em determinado local está relacionada com a defesa nacional, tal como está uma rodovia, uma ferrovia, um aeroporto, uma grande indústria ou uma pequena fábrica produtora de material estratégico. Claro que, entre nós, prevalece sobre tudo isto o facto de, a alguns quilómetros a norte de Lisboa, se situar o mais importante reduto defensivo de Portugal: o santuário de Fátima! E não se ofendam os católicos, porque só com ironia se podem perdoar tantos e tão graves atentados à segurança de todos nós.

 

É por causa de o Ministério da Defesa Nacional estar vazio de conteúdo estratégico e de cá, por esta terrinha, tais questões estarem entregues ao âmbito taumatúrgico de Santo António ou de Nossa Senhora, que o senhor ministro Aguiar Branco e toda a inútil cambada de assessores que o rodeia — provavelmente de uma absoluta ignorância estratégica merecedora do maior dó possível — achar que ser ministro de tal pasta se resume a ser, afinal, “ministro das Forças Armadas”!!!!!

 

Ora, porque o Dr. Aguiar Branco e todos os seus antecessores nada percebem de verdadeira defesa nacional têm mostrado uma pressurosa atenção, reduzindo a NADA as nossas Forças Armadas, pois também não sabem qual as razões de elas existirem, especialmente num Estado de pequenas dimensões territoriais, mas ainda com posições estratégicas invejáveis e invejadas pelas grandes potências militares da Europa e do mundo. Eles não sabem, mas, julgo, — na presunção de que o estudaram nesses múltiplos cursos frequentados no estrangeiro — devem sabê-lo os mais responsáveis e graduados quadros das mesmas Forças Armadas: antes e acima de tudo, constituírem um elemento dissuasor de qualquer acção militar contra a independência, soberania e segurança de Portugal. E pode dissuadir-se de muitas maneiras, desde que sejam eficientes e eficazes. Mas também se pode fazer muita asneira se a segurança e defesa não forem tomadas na sua mais ampla acepção! Como exemplo, basta pensar se, quando o afrontamento entre o mundo ocidental e o islâmico está a atingir um ponto próximo da ruptura, será conveniente mandar para o Iraque uma força militar, chamando a atenção das acções extremistas muçulmanas para Portugal?

 

O senhor Dr. Aguiar Branco, em vez de impor a condição de “super ministro”, nas suas deambulações políticas, remete-se à de “mini ministro”, cujo alvo é a redução dos recursos financeiros das nossas Força Armadas para, um dia, “sacudindo a água do capote”, dizer que a responsabilidade de uma falta de segurança é da responsabilidade dos comandos agora condicionados pela política de austeridade!

Tenho pena de viver num país onde se passeiam lado a lado a incompetência e a arrogância. E mais não digo, porque muito mais poderia dizer!

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por Luís Alves de Fraga às 19:23

Terça-feira, 12.05.15

Guerra-fria, Economia e Mercado de consumo

 

Certamente os mais avançados na idade recordam o que foi a Guerra-fria, mas, para que todos partam em pé de igualdade, quanto a esta questão, vou explicar com a maior brevidade possível de que se tratou.

 

Finda a 2.ª Guerra Mundial a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS) saiu mais fortalecida do conflito do que os Estados da Europa quase arrasados pela necessidade de reduzir a nada o poder da Alemanha nazi. O desmantelamento económico grassava por todo o Velho Continente. No outro extremo da situação estavam os Estados Unidos da América (EUA) que, por não terem sido alvo de qualquer ataque no seu território, mantinham uma economia saudável, principalmente estribada na indústria de armamento (é conveniente recordar que nesta indústria não basta fazer só carros de combate ou aviões ou submarinos, porque há todo um conjunto de artigos subsidiários que concorrem para pôr em funcionamento os artefactos bélicos e que são rentáveis e dão trabalho a muita gente). Por seu turno, a URSS tinha estendido a sua esfera de influência, na Europa, muito para além das fronteiras da imperial Rússia, facto que a colocava, no plano geoestratégico, em situação de poder ocupar os Estados capitalistas de modo a conseguir chegar aos portos do Atlântico, quiçá ao Canal da Mancha. Mas a URSS, tendo, tal como os EUA, um imenso parque industrial de fabrico de armamento, estava, tal como o resto da Europa, incapaz de produzir para satisfazer as necessidades da população dos Estados que a integravam.

Porque a Europa representava um grande vazio estratégico capaz de ser ocupado com relativa facilidade, os EUA temeram que a URSS pudesse ser tentada a prolongar o conflito militar e, como acção dissuasora, associando os Estados democráticos do Velho Continente — com exclusão de Portugal, que, era sabido, vivia em ditadura — formaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a qual funcionava como aliança defensiva contra qualquer ataque da URSS. Mas, o que é para uns defensivo é, para outros, ofensivo e foi assim que a URSS liderou a formação de uma aliança militar defensiva, designada Pacto de Varsóvia.

Criaram-se, sem maior fundamento do que a desconfiança mútua, duas máquinas de guerra preparadas para travar, no solo europeu, um conflito de dimensões infernais. Foi a este conflito latente, dissuasor para ambos os lados, que se deu o nome de Guerra-fria.

 

Até aqui ativemo-nos aos factos. Tentemos ir um pouco mais longe, de modo a compreendê-los.

Do ponto de vista económico a situação criada e vivida na Europa era de extrema conveniência para o EUA, porque, mantendo a indústria armamentista em funcionamento, mantinha altos níveis de emprego, de consumo e de bem-estar já que tudo isto se fundamentava nas capacidades das famílias comprarem o que o mercado lhes oferecia. E o mercado americano estava em alta na viragem dos anos quarenta para os anos cinquenta do século passado. De um modo geral, os cidadãos viviam bem e em prosperidade. A guerra da Coreia justificou a doutrina de prevenção e dissuasão pensada no Pentágono, na medida em que, sendo um prolongamento da 2.ª Guerra Mundial, continuava a manter de pé a economia dos EUA. O capitalismo florescia no seu máximo esplendor ao mesmo tempo que, com o Plano Marshall, se reabilitava a Europa para a produção e, acima de tudo para o consumo, pois é importante fixar que a economia dita de mercado se fundamenta e sustenta na e pela capacidade de consumo das famílias. Ainda havia espaço para se continuar com a expansão do capitalismo concorrencial.

 

E do lado da URSS? Aqui tínhamos iguais razões para manter a funcionar a indústria de armamento para garantir a tendência para o pleno emprego, mas, como a economia se pretendia planificada e, por conseguinte, satisfazendo as necessidades hierarquizadas das populações, havia que dosear cautelosamente o esforço entre o que se dedicava à segurança e o que se impunha produzir para manter as famílias e a sociedade em paz e de bem com o sistema político. Ou seja, enquanto no lado capitalista existia uma certa coerência entre política externa e interna — a indústria de guerra servia aos propósitos do bem-estar interno — na URSS a indústria de guerra configurava uma economia não planificada de matriz capitalista em claro detrimento do bem-estar que só se justificava na base da planificação económica para dar crédito aos princípios doutrinários e ideológicos do socialismo. Dito por outras palavras, na URSS tinham de coexistir, por força da existência de um mecanismo militar de dissuasão, uma só ideologia e dois sistemas: o capitalista, para possibilitar a continuidade da política externa, e o socialista, para a fundamentar a ordem interna.

O problema mais agudo de todo este cenário é que, tanto o Ocidente capitalista como o Oriente socialista, se debatiam e confrontavam em teatros secundários de guerra, procurando ultrapassar-se de modo a impor a ideologia política dominante. A Terra passou a ser um grande tabuleiro de xadrez onde todas as jogadas visavam salvaguardar o rei e a rainha respectivos.

A lógica socialista, no plano externo, era, efectivamente, capitalista, porque procurou responder dialecticamente à progressão da sofisticação do armamento capitalista e, também, aos desafios geoestratégicos que os EUA iam lançando através do aumento da sua rede de influência na Terra.

Esta lógica da sofisticação armamentista, desenvolvida pelos EUA na sequência da efectiva lógica capitalista — aumento até ao infinito da capacidade produtiva através de um consumo cada vez maior, para garantir a subsistência do sistema e o lucro maximizado do investimento — conduziu a que existisse uma décalage entre os artefactos bélicos investigados e produzidos, de tal modo que a obsolescência fosse a resposta futura para garantir uma produção que se desejava constante. Dito de outro modo, a uma aeronave de combate de última geração correspondia a existência de planos e estudos que a tornavam velha mal houvesse uma resposta dialéctica do lado soviético, fazendo que, também esta, fosse obsoleta perante o novo modelo já colocado em linha de montagem. Realmente novo era o que ainda não se estava a produzir.

Perante um quadro desta natureza, a breve trecho — e tudo dependia da capacidade de negação dos princípios ideológicos — a URSS estava condenada a ruir, pois só a igualização de sistemas políticos poderia permitir uma concorrência mais prolongada. O anúncio da, então, designada Guerra das Estrelas foi o último passo a que Moscovo já não conseguiu dar resposta, porque, por causa da corrida armamentista de matriz capitalista, havia descurado o desenvolvimento do bem-estar e do consumo internos. A Perestroika, a queda do muro de Berlim e tudo o mais que se seguiu vieram confirmar a derrota da URSS por via da impossibilidade de coexistência de uma ideologia e dois sistemas. A Guerra-fria ia acabar para o mundo, mas iam começar a fazer sentir-se, noutros planos, as lições que dela se tiraram quanto à exacta condução do fenómeno económico.

 

Com efeito, estava a delinear-se a implosão da URSS e já, no Ocidente, começava a despontar a indústria electrónica ao serviço do pequeno consumidor. Foi o aparecimento dos Personal Computers (PC). Com eles, nos anos oitenta do século passado, e com todos os equipamentos que integraram o microchip, nasceu uma nova dialéctica de mercado: a da obsolescência antecipada. A mesma que havia sido usada com grande sucesso na Guerra-fria. E, tal como para o grande conflito militar que nunca houve, os efeitos foram multiplicadores, quando se transformaram os mecanismos da propaganda em mecanismos publicitários de alta eficiência. Tudo se foi buscar à Guerra-fria com as devidas adaptações: conceitos estratégicos, agora aplicados ao mercado, à concorrência, à gestão e aos consumidores; o marketing como expoente do conflito individual entre o desejo de comprar e a anulação da vontade de não entrar no jogo; e, acima de tudo, a obsolescência antecipada e programada. Os bens não são para se terem, mas serem consumidos. E, se tudo isto definiu um novo tipo de produção, definiu também, um novo tipo de consumidor: aquele que trabalha até à exaustão para poder usufruir de um bem que, por vontade do fabricante, o vai atraiçoar, porque, ou deixa de trabalhar ou se torna insuportável, pois está fora dos padrões do uso moderno.

A Guerra-fria fez de cada um de nós uma URSS minúscula sempre à beira do colapso financeiro para conseguir gerir o conflito dialéctico entre o consumo e a poupança.

 

P.S. – Para ter valia científica e não passar de uma mera opinião pessoal, estas páginas deveriam conter referências várias a vários autores e, no final, incluir uma mais ou menos significativa bibliografia, mas como são o fruto das minhas reflexões, das minhas análises da realidade que conheci, dispenso-me de toda essa parafernália, que aconselho aos meus alunos quando ainda são jovens e não possuem experiência nem de vida nem de investigação.

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por Luís Alves de Fraga às 13:47


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