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Fio de Prumo



Terça-feira, 25.02.14

Europa, para quê?

 

Os leitores mais jovens, quando se iniciou o processo de adesão à CEE, eram tão jovens que não têm consciência exacta dos motivos determinantes de tal acção. Alguns, mesmo, nem ainda tinham consciência de si! Agora é ver toda essa gente a defender com unhas e dentes a União Europeia e as “boas” razões de termos aderido!

 

Sou, sempre fui, um eurocéptico. Nunca acreditei que Portugal tivesse necessidade de se ligar à problemática da Europa central. Uma Europa onde nasceram os dois conflitos mundiais. Portugal é um país periférico geográfica, histórica e politicamente dessa parte do continente. As problemáticas de todo o tipo, desde o século XIV, quando se consolidavam algumas das fronteiras dos Estados da Europa, eram já outras para o nosso país. O mar e a península ibérica foram, desde sempre, os fundamentos da nossa política externa e, até, interna. Não foi sem razão que, depois da conquista de Ceuta, os soberanos portugueses tomaram para adorno da sua coroa o título de “Rei de Portugal e dos Algarves de aquém e além-mar em África”. Era uma geopolítica que se definia e que, no plano estratégico, orientava uma nova forma de estar na região e no continente, pois cortava pelos Pirenéus a ligação a Norte e condicionava a sobrevivência através do equilíbrio que fosse possível estabelecer com os Estados peninsulares, dois dos quais com uma política expansionista bem definida: Castela sobre o Sul e o que restava de poder da moirama no território – Granada, só foi conquistada em 1492, por conseguinte no final do século XV – e Aragão, que se afirmava uma potência marítima mediterrânea. A luta tinha de ser local e adjacente – local, na península, e adjacente, no mar e sobre os territórios a Sul, em África.

Desde 1415 até 1975 a sobrevivência de Portugal, como Estado independente e soberano, passou pela gestão deste equilíbrio, jogando sempre com o peso da sua “maritimidade” e com o bom entendimento com a potência que, já numa situação de “mare liberum”, dominava a navegação no Atlântico. Note-se a razão da importância desse bom entendimento: toda a navegação marítima de Norte para Sul e de Sul para Norte do Atlântico tem de passar ao longo da costa portuguesa, servindo-se dela para apoio de toda a natureza, e grande parte da que vem de Ocidente poderá ter de atravessar o Atlântico “português” para inflectir para Norte. O mar é, por conseguinte, determinante na política externa portuguesa: ou como elemento de passagem ou como factor de apoio à navegação.

Esta situação “periférica”, mas de extrema utilidade para a Europa e para os Estados do continente americano, não foi equacionada, depois de 1975. A única importância que se lhe deu resultou na Zona Económica Exclusiva (ZEE) que, na aparência, veio substituir, em dimensão, o “império colonial perdido”. Foi a anexação de uma potencialidade, mas não foi a afirmação de uma política e de uma estratégia.

 

Portugal entrou na CEE “despido” e “lavado” de uma geopolítica que lhe garantiu, pelo menos, cinco séculos de sobrevivência e desarmado de possibilidades e de potencialidades, tal como se tivesse nascido para o mundo e para a política exterior no instante da assinatura do tratado de adesão! Um erro crasso e cretino! Um erro cometido pela ignorância e pela cupidez de uma estabilidade política e riqueza para a qual não estava preparado. Se Salazar, com consciência da herança geopolítica portuguesa, em nome de uma estabilidade política interna, tudo fez, durante a Guerra Civil de Espanha, para que os nacionalistas ganhassem a partida sem que lhe fosse dada a oportunidade de se lançarem sobre Portugal como presa fácil, os europeístas, em nome de uma mesma estabilidade política interna, tudo fizeram para entrarem numa Europa distante da realidade peninsular e já com caminhos definidos no plano económico, que não ia alterar por causa do atraso de aquém Pirenéus.

 

Os europeístas portugueses e, quiçá, os espanhóis, sem consulta ao Povo soberano e sem esclarecimento nacional, sacrificaram, sem alternativa, a geopolítica nacional, que sempre nos condicionou o comportamento interno e externo, em nome de um e só um valor: a estabilidade política interna, visto que jamais seriam admitidas, por parte dos organismos da CEE e da sua sucessora, na península ibérica, alterações revolucionárias que buscassem soluções caseiras para problemas caseiros. A democracia, aquela que os europeístas entendem como boa, foi imposta aos Portugueses e aos Espanhóis, tal como lhes haviam sido impostas as ditaduras, que os tinham amordaçado.

 

Não. Não estou a fazer a apologia de “outras democracias”! Estou a pôr a nu a razão da sem razão dos políticos do “arco da governação” em Portugal. Políticos que atraiçoaram fundamentos históricos e geopolíticos para deitarem mão ao único instrumento que, na altura, tinham possibilidades de agarrar de modo a se garantirem uma ordem que, sabiam, o Povo não tinha preparação para viver: a democracia!

Ao invés de “desfascizarem” Portugal e, depois, o democratizarem, venderam-lhe uma ilusão para comprarem a única estabilidade que lhes era conveniente: a de se apoderarem do Poder, condicionando as escolhas dos Portugueses.

O resultado está à vista!

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por Luís Alves de Fraga às 19:43

Quarta-feira, 19.02.14

O mundo e nós ou nós e o mundo?

 

Pode parecer mera formalidade retórica a pergunta que escolhi para título, mas, na verdade, não é! E vejamos porquê.

 

Quando pensamos “o mundo e nós” estamos a dar claramente mais importância ao mundo do que a nós. Isto é, dissolvemo-nos no mundo, achamos que é este quem merece a nossa primeira atenção. Quase se poderia dizer que “vivemos” e “existimos” em função do mundo, que estamos subordinados à opinião do mundo sobre nós. É uma atitude de prevenção, de expectação, de receio, de quase incapacidade.

Duvidam os que me lêem? Pois tomem em consideração a forma como muita gente se comporta, na vida corriqueira e quotidiana. Reparem em frases que são ditas com naturalidade:

- Que vão pensar de mim? Não posso ir para a rua assim vestido! Eles sim! Eles são sábios e importantes! Repara em Fulano e em como ele se veste e se comporta!

 

Todo este conjunto de meros exemplos põe em evidência que quem faz tais afirmações coloca antes da sua importância a importância do “mundo”, dos outros; a sua vida está condicionada pela vida alheia e, acima de tudo, pelo julgamento dos outros. “O mundo e nós” é, afinal, uma forma de estar sem personalidade na vida. E a personalidade é individual, mas também é colectiva! Os povos, as nações, têm uma personalidade, uma forma de viver que lhes é característica e que resulta de factores de ordem cultural, ou, se se preferir, de ordem sociológica ou, ainda, de ordem hereditária – uma hereditariedade social.

 

Quando pensamos “nós e o mundo” todo o anterior panorama se inverte. Temos a segurança de arrostar com opiniões que não nos molestam, porque damos mais importância à nossa maneira de estar e de ser do que ao julgamento alheio. O “nós” prevalece sobre os outros e impõe-se aos outros. É uma forma de mostrar uma personalidade forte, inabalável e, até, inalterável; é a postura de quem sabe o que quer e para onde deseja ir. É a atitude dos poderosos, mesmo que não alardeiem o seu poder, pois ele reconhece-se no seu comportamento. É o “quero lá saber que pensam ou dizem de mim!”

 

Ora, se olharmos para nós, os Portugueses, onde nos encontramos nos limites definidos pela pergunta que dá título a este apontamento?

Têm dúvidas os meus leitores? Eu não as tenho!

Desde a preocupação com o que vestimos até ao automóvel que temos, passando pela habitação, colégio onde estudam os nossos filhos e outras tantas pequenas grandes coisas, nós vivemos para o mundo! São poucas as excepções!

E vivemos para o mundo, porque temos de nós mesmos uma fraca opinião disfarçada pelas “aparências” com que tapamos as nossas inseguranças. E isto somos nós Portugueses! Temos de ter sempre alguma coisa que é maior ou melhor do que os restantes Estados da Europa ou do mundo! Temos de ter a “capa” de brocado que esconde dos olhos alheios a miséria e a magreza que nos consome! E por isso, há, até no nosso ensino mais elementar, uma componente de versatilidade cognitiva que não é, de todo, apanágio de muitos povos e muitas nações. Quando aprendemos língua inglesa temos de a saber usar melhor do que os restantes; aprendemos história do mundo, geografia geral, capitais da Europa e rios dos diferentes continentes, sabemos muito de “cultura geral” e quase nada de nós mesmos! E os “broncos” são os Americanos, os Chineses, os Ingleses e tantos outros que “se conhecem” e desprezam o saber sobre os restantes, sobre a “nossa” “cultura geral”!

 

É esta dependência do julgamento alheio que nos tolhe a vida doméstica e a vida internacional! Chauvinismo, pensarão alguns dos meus leitores! Pois, talvez! Mas um chauvinismo que tem de começar por “dentro” para ser capaz de se afirmar para “fora”! Temos de depender menos da opinião dos outros, do “mundo”! Temos de ser capazes de nos afirmarmos individual e colectivamente sem receio das diferenças, sem receio dos julgamentos. Só assim seremos nós. Um nós do tamanho da nossa História! Mas para que saibamos ser nós, temos de começar por nos conhecermos nos nossos defeitos, nas nossas inseguranças, nas nossas falhas.

Seremos capazes?

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por Luís Alves de Fraga às 20:48


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