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Fio de Prumo



Domingo, 13.10.13

O Chico

 

Na rua onde nasci – “a minha rua” – havia, um pouco antes da esquina, do lado esquerdo de quem a subia, um “restaurante” tipo taberna que pertencia a um homem, o Chico, que havia sido marinheiro da nossa Armada e, à força de muitos sacrifícios, tinha conseguido o dinheiro suficiente para tomar de trespasse a “casa”. Quando a freguesia era pouca – o que acontecia com muita frequência – lá vinha ele para a porta do estabelecimento dar conta do movimento e dois dedos de conversa a quem passava.

 

Vindo de cima, obrigatoriamente, tinha de passar à porta da taberna para chegar a casa. Habituei-me a cumprimentá-lo, não por o conhecer com intimidade, mas porque o meu Pai o fazia sempre, exclamando a meia voz: “Olá, Chiico. Como vai isso?”

Estão, por esta altura, a fazer cinquenta e dois anos, quando entrei para a Academia Militar, que ocorreu um episódio marcante e inesquecível. E é esse que vos vou contar.

 

Vencer barreiras na vida, superar obstáculos, alcançar sonhos, quando se tem vinte anos de idade, traz-nos um sabor muito bom e pode provocar alterações profundas no nosso comportamento se não tivermos quem corrija rumos com mão rija e segura.

Ser cadete e estar a preparar-me para, finalmente, conseguir o direito a usar os galões de oficial encheu-me o peito de uma vaidade que me tornou um sujeito ufano! Ufano de coisa nenhuma, pois cadete era ainda o caminho que tinha de percorrer para me profissionalizar militarmente. Mas aos vinte anos quem pensava nisso há pouco mais de meio século?

 

Ora, aos domingos, depois do “santo sacrifício da saída da missa” onde me ia expor para exibir a farda e tentar a “conquista” de algum coração feminino que andasse livre e gostasse de uniformes militares, descia eu a minha rua em direcção a casa dos meus pais e lá estava à porta do seu “restaurante/taberna”, vazio de clientes para almoçar, o Chico, antigo marujo da nossa Armada.

Bolas! Eu vinha fardado de cadete, garboso nas minhas botas altas de montar, hirto como convinha, mirar a direito, e, em vez de olhar para o antigo marinheiro, marcava um ponto distante lá no fundo da rua, e passava sem dizer palavra.

Um domingo, já o ano lectivo ia avançado, o meu Pai, primeiro-sargento enfermeiro da Armada, já na situação de reserva, à mesa do almoço, com a frontalidade que o caracterizava, disse-me, colhendo-me de surpresa: “Oh, menino! O Chico da taberna disse-me que já várias vezes passaste por ele e desvias o olhar para não teres de cumprimentar. O que é que se passa contigo?”

 

Sabem quando de repente se nos abre um buraco sob os pés e desconhecemos em absoluto como nos salvarmos de uma situação? Pois foi isso mesmo que eu senti naquele momento! A comida não ia para baixo no esófago nem as palavras convenientes me saíam pela boca fora! Depois, depois, cobardemente, menti: “Nunca reparei no Chico, Papá!”

Fez-se o silêncio com que o meu Pai gostava de castigar-me e, com voz calma, disse-me: “Pois então passa a reparar! Os galões que ainda não tens não te caem na lama se o fizeres! E, quando os tiveres – se algum dia o conseguires – eles ganham brilho e deixam de ser símbolo da miséria dourada em que vivemos, se souberes cumprimentar todos, em especial os cidadãos honrados e que ganham a vida com o suor do seu rosto!”

 

Já não me lembro, mas acho que o almoço me caiu muito mal no estômago, porque a frase do meu Pai me caiu bem demais na consciência!

Passei a cumprimentar o Chico do “restaurante/taberna” da minha rua e todos os Chicos que ao longo da minha vida fui encontrando nas ruas que cruzo, agora já sem a altivez balofa dos vinte anos, mas com a certeza de ser dono de todas as incertezas que a idade nos vai dando.

Não sou eu que sou assim! O meu Pai é que era assim!

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por Luís Alves de Fraga às 21:38

Sexta-feira, 11.10.13

Tinham um sonho...

 

Há vinte e cinco anos – em Setembro de 1988 – tinham um sonho: serem pilotos-aviadores da Força Aérea! No rosto traziam estampada a esperança, a vontade e o ânimo de vencer obstáculos e chegarem a ganhar o distintivo que lhes daria o direito a voar.

Foi assim, oriundos de diferentes paragens deste Portugal, com um olhar vivo e, ao mesmo tempo, desconfiado, que cruzaram os portões da Academia da Força Aérea há um quarto de século. A grande novidade é que, para além de trinta e um rapazes, no grupo, vinham, pela primeira vez, duas meninas – as pioneiras na pilotagem aeronáutica militar em Portugal. Nem todos, por razões várias, conseguiram concretizar o sonho, mas em todos ficou a marca de terem vestido a farda de cadetes da Academia da Força Aérea. E guardaram valores que lhes foram transmitidos! E guardaram recordações que os distinguiram para sempre! Boas recordações, muitas, e algumas mágoas que os anos não apagaram.

 

Hoje, foram em romagem de saudade e gratidão visitar a “alma mater” e tiveram a gentileza de convidar professores e oficiais instrutores – alguns, nem todos – para além de uma funcionária civil que galhardamente continua ao serviço daquele Estabelecimento. Recordaram-se de mim e lá fui, respondendo à chamada.

Sabia que ia encontrar diferenças, muitas! Tantas diferenças como as que tenho quando me olho ao espelho e tento recordar-me de mim depois de vinte e tal anos volvidos.

Eram os mesmos rostos – faltaram alguns que por razões diversas não puderam comparecer – mas em muitos os cabelos já começaram a embranquecer e noutros a rarear. No coração traziam a saudade.

Sentados nas cadeiras da mesma sala de aula onde receberam lições falaram, em poucas palavras, do seu percurso de vida neste tempo que passou. Um a um, escondeu ou mostrou alegrias e algumas frustrações – um velho professor descobre-lhes as dores, as lágrimas não choradas, os “nós” que a Vida dá na vida de cada um – e, acima de tudo, viveu, por instantes, um recuo à idade dos sonhos e das ilusões que nos alimentam e mantêm de pé. Eu, sentado na primeira cadeira e secretária dessa sala que tão bem conheço como eles, embora olhada de um outra perspectiva, recordei para mim próprio que a muitos ensinei História de Portugal Contemporâneo – a História das glórias e a História das misérias, porque o conhecimento tem de ser completo para ser formativo – para lhes colmatar deficiências do ensino padronizado e, mais do que isso, para lhes transmitir o amor à Terra e ao Passado feito por gente, às vezes rude e quase sempre generosa, que se constituiu numa Nação por quem vale a pena morrer se a tanto nos obrigar o Dever. Recordei para mim que a muitos ensinei Sociologia Militar – então ainda novidade entre nós – para os ajudar a perceber a essência primeira da vida castrense, as motivações mais profundas desta micro sociedade onde iriam passar a viver e a recriar maneiras de estar, mantendo elos, tradições e valores que nos diferenciam, sem nos superiorizar nem inferiorizar, dos restantes grupos sociais. Recordei-lhes os rostos jovens e os olhares quase sempre aparentemente atentos com que ouviam as minhas palavras. E, enquanto cada um falava, agora, de si, eu senti que valeu a pena o meu e o esforço de todos quantos contribuímos para a formação militar de todos e de cada um. Os cabelos brancos, que começam a, teimosamente, impor-se-lhes, dão-lhes hoje o discernimento para perceberem as nossas razões passadas.

 

Obrigado meus Caros Camaradas, meus Caros Alunos, meus Caros Amigos, pelo vosso convite e pelo saudável convívio que se estabeleceu entre nós. Na vossa despedida, ao desejarem a presença de todos nós daqui a mais vinte e cinco anos, ficou-me a certeza de que, se houver Academia da Força Aérea e nela continuar a existir o pequeno relvado que rodeia o monumento à memória dos mortos que a Serviram, a recordação das minhas cinzas estará convosco, pois é nesse solo que quero repousar, por sentir que foi ali que melhor me realizei como Homem e Oficial. Foi ali que melhor Servi, ajudando a fazer então os Chefes do futuro.

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por Luís Alves de Fraga às 19:23


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