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Fio de Prumo



Sábado, 21.09.13

Protestar ou não

 

No quotidiano corriqueiro de todos nós já tivemos oportunidade de tomar consciência do ciclo da vida face a uma grande desgraça do foro clínico. Ora vejamos se não estou enganado na minha análise.

A um indivíduo absolutamente normal do ponto de vista sanitário é-lhe diagnosticada uma doença incapacitante e inevitavelmente mortal. A sua primeira reacção é de revolta; revolta contra a “sorte”, revolta contra a doença, revolta contra os médicos. Numa segunda fase, o paciente, ainda revoltado, opta por tomar a medicação e sujeitar-se ao tratamento drástico que lhe é preconizado, muito embora procure encontrar soluções diferentes daquelas que constituem a terapêutica indicada. Finalmente, perdidas as esperanças de caminhos alternativos, o enfermo sujeita-se, deixa-se tratar e procura minimizar os efeitos da doença de modo a, dentro de todas as limitações, fazer uma vida “normal”, que será sempre uma pálida amostra da normalidade anterior ao diagnóstico fatal. Esta atitude leva-o resignadamente até ao derradeiro momento, até ao instante em que já não há esperanças e o sopro da vida perde toda a força e se extingue.

Quantos de nós já assistimos a esta “agonia” lenta, a este “apagar” da existência entre membros das nossas famílias?

 

Pois bem, os teóricos da Ciência Política podem chamar-me organiscista, mas olhando para a sociedade portuguesa estou em dizer que entrou na fase da conformação fatalista da “doença” que a acometeu há dois anos e meio. Mais uma vez, vejamos.

Há três anos e tal, o simples anúncio das avaliações dos professores e da alteração das regras da sua promoção na carreira trouxe para a rua uma das maiores manifestações laborais jamais vista entre nós: duzentas mil pessoas a protestarem contra o Governo José Sócrates; há um ano, o simples anúncio da alteração das regras da TSU levou a efectuarem-se as maiores manifestações inorgânicas jamais vistas em Portugal; há relativamente poucos meses atrás, o anúncio de medidas de austeridade graves fez estalar nas televisões, nas rádios, nas ruas, nas casas, protestos contra o ministro das Finanças Vítor Gaspar; no momento presente, em pleno período eleitoral, começamos todos a assistir a uma espécie de apatia social, a uma inércia absoluta, a uma letargia que só pode anunciar uma coisa: conformismo com a fatalidade da situação política nacional. As eleições vão ter um elevado número de abstencionismo – votar para quê? Perguntar-se-ão os cidadãos – e vão gerar uma indiferença que configura a aceitação de todos os males como inevitáveis.

O Povo, meus Amigos, queiramos ou não, está moribundo! Respira já com dificuldade! Não faz um esforço verdadeiro para “articular” movimentos com os braços e as pernas, os pés. Está caído, prostrado, exangue.

É nesta fase que está pronto para a solução taumatúrgica, para o “milagre”, para a aceitação do “salvador da pátria”, para a vinda do “messias”, para o “remédio” sebastianista. Agora, só “água benta” e a Senhora de Fátima!

 

Qualquer outro Povo, que não o nosso, estaria nesta altura a entrar em revolta, a mobilizar-se para uma votação massiva em partidos e personalidades que lhes trouxessem de novo o alento e a esperança; estaria de mangas arregaçadas a lutar pelo seu futuro, pela reconstrução dos seus ideais, dos seus sonhos, do seu passado bem-estar. Estaria a lutar com a certeza de que todas as dificuldades são ultrapassáveis quando se quer realmente. Mas nós não somos assim! O fatalismo é-nos próprio e, por isso, gostamos do fado, temos saudades e acreditamos em soluções caídas do céu!

 

Se eu quisesse explicar este comportamento teria de recuar quinhentos anos ou um pouco mais, ao tempo em que a parte válida e lutadora da pátria portuguesa se lançou pelo mundo fora em busca de fortuna e aventura, ao tempo em que não havia um só Fernão Mendes Pinto, mas centenas, milhares, que ousadamente iam em busca do desconhecido para vencer a fome, a pobreza, a apatia, a rotina, a adversidade de ter nascido sem pão nem terra. Iam e, o mais importante não foi terem ido, deixaram para trás os velhos, as crianças sem pai, os desvalidos, as mulheres encolhidas na sua condição de seres de segunda ordem. E é destes últimos que nós descendemos, não dos primeiros e do seu atrevimento; nós somos o fruto de todos os que ficaram, os que se conformaram, os que tiveram como educadores velhos saudosos de aventura, mas inválidos para ir mais além, de mulheres chorosas dos seus homens e socialmente peadas, esmagadas ao peso de uma esperança que nunca se realizava e crentes, como única tábua de salvação, no milagre, na volta do marido, do irmão, do filho enriquecido e salvador da miséria que por cá ficou. Nós não temos no sangue o sangue que se escoou em zonas remotas deste planeta! Nós temos no sangue o sangue do conformismo, do saudosismo, do luto e da pobreza crente na divindade todo-poderosa!

É esta a herança que nos ficou: a glorificação da grandeza dos que se foram heroicamente por esse mundo fora; o relato dos seus feitos; e, na verdade e no fundo, a nossa incapacidade!

 

Se por cá tivessem ficado os combatentes da Índia e do Oriente, os colonizadores do Brasil, os combatentes de Ceuta e de todo o Norte de África, os comerciantes, os aventureiros e os missionários que se lançaram por esse mundo fora e nele deixaram o esperma da audácia, não estaria sentada nas cadeiras do Poder esta súcia que nos governa, nem teríamos vivido quarenta e oito anos de ignominiosa ditadura, nem teríamos suportado uma Inquisição castradora, nem seríamos miseráveis e desprezados por gente dessa Europa que primeiro semeou em casa e só depois foi espremer o suor alheio nas terras onde os nossos alimentaram com o seu sangue os rios de água doce.

Que os historiadores me chamem o que quiserem, que os sociólogos me dêem epítetos científicos, que os antropólogos me encontrem lugares deslocados nas suas classificações rígidas, que os politólogos digam que sou visionário, mas eu creio firmemente nas conclusões que o meu estudo e instinto me ditam.

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por Luís Alves de Fraga às 11:03


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