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Fio de Prumo



Segunda-feira, 15.04.13

"Comprar" políticos

 

As ideologias desapareceram, as doutrinas políticas passaram a ser histórias de outros tempos. Discutir política deixou de ser escolher um caminho que nos conduz a um fim de vida mais justo, mais tranquilo, mais repousante; discutir política deixou de ser uma forma de se pensar que vale a pena viver, que a vida faz sentido, que os homens estão empenhados em servir a sociedade para o bem dela. Discutir política foi deixar de optar por soluções racionais ditadas pelo bom senso de cada um.

 

Não se discutem mais, em Portugal, ideologias e doutrinas políticas; discutem-se políticos e, vagamente, programas de governo.

Os programas de governo deixaram de reflectir a ideologia política e a doutrina, porque passaram a ser meros enganos, meros slogans para colocar nas cadeiras do Poder este ou aquele político. Os programas de governo são mentiras que se apregoam para criar ilusões temporárias que se consomem durante a campanha eleitoral; são frases que não valem o seu sentido e não querem dizer nada.

O Omo lava mais branco, como branco lava o Ariel, e a pasta Colgate deixa os dentes a brilhar como a brilhar ficam se se usar Sensodine. Tudo isto é mentira; são frases que servem para gerar ilusões e levar o consumidor a comprar o último produto que viu anunciado ou que está melhor exposto nas prateleiras do supermercado. E o mesmo acontece com os partidos políticos, com os candidatos eleitorais. Eles são “produtos” anunciados segundo as mesmas regras que dão cobertura à venda do OLX como processo de obter dinheiro.

 

Os fabricantes não dizem qual é o agente activo que desenvolve os glutões do Presto, porque ele não existe ou é exactamente igual ao mesmo que dava qualidades ao Tide. Os “fabricantes” dos candidatos não nos dizem qual é diferença real, qual é a ideologia e a doutrina que suporta este político em detrimento daquele, porque, no mundo globalizado não há diferenças: há igualdades. “Compra-se” a cara deste político e não a daquele, porque experimentámos o segundo e verificámos que não “lava mais branco” como tinha sido anunciado! Talvez o outro “lave” melhor e deixe a sociedade mais branca.

 

E porque é assim, no fim das campanhas eleitorais, os políticos que perdem substituem-se por outros! Não se substitui a doutrina, a ideologia, nem mesmo o programa; substitui-se o político! Não tinha perfil ganhador, não foi “adquirido” pela percentagem de eleitores que fariam dele o novo “campeão das lavagens e da brancura”, que é exactamente igual à do outro que saiu vencedor.

 

Escapam, por uma unha negra, deste quadro os candidatos do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Escapam, mas, mesmo assim, têm de usar de uma linguagem próxima do “marketing”, caso contrário a sua percentagem de representação andaria muito por baixo. Também eles já deixaram de discutir a ideologia e a doutrina para passarem a discutir o programa, a “brancura” do “detergente” e a economia do Fairy.

 

É o sistema que está errado! E todos nós deixamos que o sistema de imposição de necessidades capitalistas se expanda até à política, obrigando ou condicionando as nossas escolhas! Condicionando-nos entre o Skip e o Omo, entre o Rexina e o Dove e assim por diante. E nós deixamos e não desmontamos este embuste. E não nos impomos aos órgãos de comunicação social que se tornam as caixas de ressonância desta propaganda que já não é, por ter passado a publicidade do tipo mais corriqueiro que pode haver. E nós deixamos, porque não impomos aos comentadores e opinadores políticos que vão ao fundo dos programas e descubram a ideologia e a doutrina política que está escondida, disfarçada por uma publicidade altamente enganosa.

Não nos queixemos! Façamos alguma coisa! Eu, agora, já fiz uma das minhas partes; convém que cada um faça a sua.

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por Luís Alves de Fraga às 11:16

Domingo, 14.04.13

Os nossos sonhos

 

Éramos umas centenas de capitães há trinta e nove anos. Alguns sabiam o que queriam para o futuro de Portugal, mas a grande maioria sabia o que não queria mais para o nosso país e para a sua gente. Tínhamos sonhos e faltavam-nos ideais e ideologias.

 

Fizemos o 25 de Abril de 1974, cada qual na sua “trincheira”: uns, em Lisboa, outros, na Guarda, outros, no Alentejo, muitos na Guiné, bastantes em Angola e um bom punhado em Moçambique. Todos espalhados pelo território de então, vimos nascer o Movimento das Forças Armadas nas primeiras horas da Liberdade.

Lá na Beira, em Moçambique, percebi de imediato que o ciclo do “império” tinha chegado ao fim. Moçambique ia ser dos moçambicanos – fosse isso o que fosse! Meu não era, porque àquela terra só me prendiam recordações e uma filha que lá me nascera na primeira comissão. As minhas, as nossas, raízes estavam em Portugal para onde voltaria depois de ter levado até ao fim a comissão de serviço que me havia sido imposta. Mas sonhava com o futuro da minha gente cá na Europa, cá na Península.

 

No dia 25 de Abril de 1975 votei, votei na cidade da Beira, lá na costa oriental de África, votei para a eleição da Assembleia Constituinte. Já sabia que queria uma sociedade socialista e livre para Portugal e para a minha gente. Uma sociedade justa onde pudéssemos prosperar à sombra de um bom relacionamento com todos os povos. Sonhei uma sociedade mais culta – depois da guerra das armas tinha de começar a guerra da educação; uma guerra que arrancasse ao analfabetismo uns milhares de portugueses e desse a todos oportunidade de chegarem tão longe quanto as suas capacidades intelectuais permitissem.

Em 1975, depois de já ter cumprido o meu “dever” de deixar Moçambique para os Moçambicanos, depois de ter concluído o sonho do Infante D. Henrique, o Navegador”, de ter dado “novos mundo ao mundo”, dando novos Estados à comunidade de Estados nacionais, em Portugal, percebi que os sonhos se desfaziam – os meus e os de muita gente – porque a maré alta de fantasia assolava o pouco “espaço” que aqui havia para tanto ideal onírico. Em Portugal a maioria sonhava com uma sociedade livre e justa – até Freitas do Amaral, então líder do partido mais de direita que não votou a Constituição em 1976, afirmava que queria o socialismo! – mas não sabia o “caminho” e quem lho indicava fazia-o para servir a sua própria perspectiva.

 

Vieram os Governos constitucionais e com eles o desejo de unir o destino político do país ao da Comunidade Económica Europeia. Parecia que não sobreviveríamos isolados num continente que era ainda e só um pequeno conjunto de Estados. Não procurámos caminhos alternativos. Perdemos o sentido da originalidade, desprezámos o passado e o sentido da História, porque julgávamos que esta se havia fechado ao arriar a bandeira republicana e portuguesa nos territórios de além-mar. Esquecemos os oceanos e as caravelas, esquecemos a situação geográfica do país e da costa nacional, esquecemos que somos um povo de “transição”, um entreposto comercial… sempre o fomos, sempre o havemos de ser. A maldição da ditadura continuava a pairar sobre os Portugueses: apagou-lhes a lucidez e a visão dos largos horizontes, varreu-lhe o desafio do único “deserto” que a nossa genética berbere nos aponta como caminho a ser explorado: o mar. Prevaleceu o pensamento estrangeirado de todos os políticos criados à sombra das ideias que pairavam lá para além das nossas fronteiras. Prevaleceu a fantasia que uma nova gente havia nascido na madrugada de 25 de Abril de 1974, esquecendo que há um inconsciente colectivo que não vem no sangue, mas na cultura, nas histórias que são contadas, nas lendas que se recordam – quem as recorda e sabe! – nos cantares, na sonoridade das palavras, nos risos e sorrisos, nas danças, nos amores que se cruzam nos olhares das moçoilas e dos mancebos das aldeias, no embalo dos recém-nascidos, no sol do Verão e no vento agreste do Inverno das serranias, nas conversas dos velhos e na curiosidade dos jovens. Tudo se esqueceu, porque se queria esquecer a ditadura; julgava-se que ela era responsável pelo saber de séculos, quando, afinal, era responsável por ter calado o que a modernidade calou: a História. E nisso, democratas e fascistas igualaram-se: não quiseram saber da alma popular, da parte transcendental do ser Português. Daquele que foi ao Japão no século XVI e daquele que, pendurado no espaço como se no cesto da gávea estivesse, pintou a torre Eiffel no século XX. Esqueceram o “destino” que desenhou, a ferro e fogo, a Estratégia Nacional, mesmo quando ainda não se sabia o que era estratégia e não tinha entrado no vocabulário corrente a palavra nacional. Esqueceram o rumo, o “nosso norte”, o ponto marcado pelo astrolábio de uma vontade pachorrenta, mas, por isso mesmo, timbre de um Povo.

Sucederam-se os Mários Soares, os Cavacos Silvas, até chegarmos aos analfabetos Passos Coelhos, aos Gaspares, a toda a corja de ignorantes que incensamos como quem odoriza novos templos que de sagrado só têm a aparência.

 

Há trinta e nove anos, éramos capitães, inocentes, mas sonhadores, porque sabíamos que guardávamos em nós as raízes da História, da Estratégia Nacional, da Cultura Portuguesa, da sagrada Portugalidade! Estamos velhos e muitos, talvez os melhores de nós, já partiram para o Oriente Eterno, o Oriente dos nossos sonhos, e já não conseguimos mais do que contar histórias que vão ser lendas na época de barbárie que se avizinha.

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por Luís Alves de Fraga às 15:26

Sábado, 13.04.13

Na morte de uma mulher

 

Silenciei-me propositadamente aquando da notícia da morte de Margaret Thatcher, porque sou daqueles que, no momento do último suspiro de um adversário, não gosto de me regozijar. A morte é uma inevitabilidade e perante um poder superior ao dos homens resta vergarmo-nos e, se nada achamos para elogiar, pelo menos, devemos conter manifestações de alegria que ferem quem sofre uma perda física. Que descanse em paz quem tanto fez sofrer tantos.

 

A “Dama de Ferro” foi a grande introdutora, na Europa, do conceito neo-liberal de uma economia onde o Estado perdia a preponderância e dominância como força reguladora das injustiças da economia de livre concorrência. Foi ela quem começou por pôr em execução as primeiras medidas contra a acção do Estado-social. A política de privatizações encontra em Margaret Thatcher uma extraordinária defensora. Para ela, o mercado resolvia por si só os desequilíbrios que gerava a concorrência sem limites. No seu tempo, o desemprego e os baixos salários cresceram desmesuradamente na Grã-Bretanha. Foi ela quem, como Primeiro-Ministro, decretou o fim do salário mínimo nos territórios do reino de Sua Majestade Britânica. Foi ela quem suportou um braço-de-ferro com os mineiros que se declararam em greve por tempo indeterminado. Foi ela quem advogou a ideia, em tempos também aceite por Cavaco Silva, de menor Estado, melhor Estado. E arruinou a economia britânica em nome de lutar contra a inflação.

 

Teve méritos? Tê-los-á tido, mas deixou atrás de si uma imensa mancha negra de tristeza e miséria, de ódios e de raivas mal contidos. Desorganizou o melhor e mais exemplar serviço nacional de saúde do mundo construído logo após o descalabro da 2.ª Guerra Mundial quando a economia britânica vivia o seu pior momento.

Margaret foi a grande aliada do capital, ao mesmo tempo que acicatava a fúria popular contra a URSS já então a viver o começo do estertor final de um regime que havia sonhado ser a solução da exploração capitalista do Homem. Ela aceitou que a austeridade não era em si mesma um mal, porque induzia a prosperidade. Estava errada e mantém errado um conjunto de economistas que, como se vê entre nós, prossegue “receitas” que já foram aplicadas por ela, e Portugal está longe de ter a capacidade de reacção da Grã-Bretanha.

 

Politicamente, Margaret Thatcher abriu uma era económica que fez escola na Europa e no mundo e que não provou nem vai provar ser a melhor e a mais apropriada para a solução dos grandes problemas das desregulações periódicas do capitalismo.

Portugal e os Portugueses, agora e mais do que nunca, nada têm para lhe agradecer.

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por Luís Alves de Fraga às 11:18


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