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Fio de Prumo



Quinta-feira, 13.12.12

O vendedor

 

Vivo no último andar de um prédio alto com elevadores. Na escada, no patamar de entrada, encostado à parede, ao lado da porta, de modo a não incomodar ninguém, tenho por hábito colocar objectos velhos que ou se destinam a seguir para a arrecadação, na cave, ou para o lixo, na rua. Há dias, coloquei lá um tapete de média dimensão. Tem algumas nódoas, mas nada que, com jeito, não se tire. A minha mulher havia-se desgostado de o ver na divisão da casa para a qual foi comprado.

 

Ontem bateu à minha porta um daqueles vendedores que começam por fazer um pequeno inquérito para, depois, nos convencerem da possibilidade de adquirirmos os produtos que representam. No caso, eram livros. A minha mulher abriu e eu deixei-me ficar por trás da pesada porta, pois, nestes tempos conturbados, há quem tudo faça para assaltar uma residência. Ao ouvir o repetido e estafado discurso lembrei-me da minha infância, quando ganhar o magro pão de cada dia era obra para os mais persistentes, lembrei-me, dizia, dos vendedores de obras literárias então famosas – “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, por exemplo – sob a forma de folhetins semanais. À porta de casa dos meus pais batiam com muita frequência esses incansáveis lutadores. Ainda tenho, na biblioteca, um desses volumes, posteriormente mandado encadernar pelo meu Pai.

A minha mulher ouviu o vendedor, homem de mais de quarenta anos, com ar de quem já teve melhor emprego do que aquele, possuidor de uma mediana cultura literária, e, mais para o ajudar – pois ganham à percentagem sobre as vendas – do que por necessidade de comprar mais livros (não sei onde colocar os que já tenho!) fiz sinal à minha mulher para aceder a associar-se ao projecto que anunciava. Mais tarde ver-se-á o que poderemos ir comprando de acordo com o catálogo que nos vão enviar, em cada dois meses, durante um ano.

Fechámos a porta e, passados menos de três ou quatro minutos, eis que toca novamente a campainha; era, de novo, o vendedor! O que seria que ele se havia esquecido de dizer, pensei.

Não, não se esquecera de nada. Tinha estado a observar o tapete e perguntou à minha mulher, algo receoso: - Vai pôr no lixo?

Ela, como não havia ainda decidido o destino a dar-lhe, decidiu-se na ocasião: - Vou. É para pôr à porta!

E logo passou pelo olhar do vendedor um sorriso de esperança: - Não se importa que o leve?

Claro que não, respondeu, com voz tranquila e amigável. Então venho buscá-lo mais logo, perto das duas da tarde, retorquiu.

À hora combinada, bateu à porta para dar conhecimento que ia levar o tapete de média dimensão (enrolado tinha quase dois metros de altura). E levou. Levou, não sei se para decorar uma divisão da sua casa, se para o vender em qualquer lugar ou, talvez, para oferecer a um familiar. Sei que aproveitou o que a nós já não servia e isso basta-me para extrair a lição do acontecimento: já há em Lisboa quem, para ganhar a vida, vende oportunidades e recolhe para si o que outros não querem. Chama-se a isto pobreza envergonhada! E esta pobreza está a aumentar de dia para dia, porque houve tempos em que os ministros por nós escolhidos não souberam gerir a riqueza tornando-a socialmente útil e produtiva.

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por Luís Alves de Fraga às 10:59

Quinta-feira, 06.12.12

Economia de mercado

 

A economia de mercado caracteriza-se, em primeiro lugar, pela liberdade estabelecida e balizada pela lei da oferta e da procura e, em segundo lugar, pela rotatividade rápida da substituição dos produtos adquiridos, ou seja, pela acelerada obsolescência do artigo comprado em consequência de melhorias técnicas introduzidas, por desgaste rápido ou simplesmente por alteração da “moda”, tudo isto tendo por base uma insuflação de falsas necessidades geradas pela publicidade.

Este modelo económico está em vias de se esgotar, porque assenta em três premissas fundamentais: baixo custo das matérias-primas, baixo custo da mão-de-obra integrada nos produtos, elevado poder aquisitivo dos potenciais compradores. Ora, como sabemos, as matérias-primas estão a ficar mais caras, porque os Estados que as detêm já não se deixam explorar; a mão-de-obra encareceu nos mercados com capacidade aquisitiva, obrigando a deslocalização das empresas produtoras e à consequente perda de poder de compra nos mercados anteriores; e, finalmente, generalizada perda de poder de compra nos mercados principais por excesso de endividamento das famílias como resultado de um excesso de consumo. A Europa e os EUA são um exemplo do que acabo de referir. Só por ter uma mão-de-obra quase “escrava” a China pode manter-se dentro do modelo, mas teremos de nos interrogar sobre essa capacidade, pois, também internamente, existe a tendência para elevar os graus de consumo, logo, a necessidade de aumentar o poder de compra que vai aumentar o custo dos produtos, donde, rapidamente a sociedade chinesa tenderá para a crise e colapso.

Esgotado o modelo de economia de mercado parece só restar como solução o modelo de economia planificada… mas será planificada não na base da abundância, mas na base da penúria. Será este o modelo económico que desejamos para os nossos filhos e netos? Se não é, levanta-se uma questão importantíssima: falta a definição de uma ideologia política nova que, por conseguinte, não seja a revisitação de outras anteriores, e apresente uma nova resposta para a problemática económica que se está a definir com a derrocada da economia de mercado.

A segunda metade do século XIX foi o tempo de “incubação” de “novas” ideologias político-económicas que responderam ao modelo demoliberal definido pela Revolução Industrial – social-democracia, democracia cristã, comunismo, fascismo – dando ao Estado um papel de relevo na regulação da economia. Será que a primeira metade do século XXI consegue encontrar uma ou várias doutrinas político-económicas que resolvam o impasse a que chegou o modelo político e económico do presente? Está na altura de dizer: - Novos pensadores precisam-se para formular novas teorias e novas doutrinas.

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por Luís Alves de Fraga às 10:10


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