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Fio de Prumo



Terça-feira, 31.01.12

Do aperto até à Europa e à elite que nos governa

 

Em Portugal o aperto está a ficar insuportável: aumentam os impostos, cresce o custo de vida, aumentam os transportes urbanos e não só, ficam mais caros os combustíveis, as taxas moderadoras nos hospitais estão pela hora da morte, as facturas da água, da electricidade e do gás são de valor mais alto para os mesmos consumos, os salários e pensões descem.

Dizem que estamos em regime de “emagrecimento”, mas há uns “gulosos” que continuam a mamar na teta enquanto nós chupamos no dedo!

 

Já passei por duas intervenções do FMI em Portugal e não me lembra que tenham assumido os contornos desta. Só faltam as senhas de racionamento e as filas para a aquisição de géneros para o estado actual me recordar os tempos da minha mais recuada meninice, no final da 2.ª Guerra Mundial. Quando passamos a usar os automóveis alimentados a gasogénio? Ainda me lembro de os ver na cidade de Lisboa!

 

Não quero acreditar que a Alemanha tenha chegado a propor a perda de soberania orçamental da Grécia, transferindo-a para um comissário da União Europeia!

Era esta a Europa de Jean Monnet?

 

Esta é a Europa de uma elite de políticos que está – toda ou a grande maioria – desligada dos seus povos, que não se representa mais do que a ela mesma. Uma elite que, no caso nacional, é medíocre, impreparada e quase inculta, porque desconhece os grandes valores da Cultura Portuguesa. Fala inglês, discorre, às vezes mal, sobre notícias do dia-a-dia, leu uns quantos livros técnicos das suas áreas de formação, mas está desligada e desconhece as grandes linhas enformadoras do carácter português, da orientação política secular que possibilitou chegarmos aqui soberanos e independentes. É esta ignorância que aflige, que se torna imperdoável, especialmente face à arrogância comportamental destes “senhores do Poder”.

 

No ano passado, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal – Luís Amado – em mesa-redonda pública defendia, como “grande descoberta”, a viragem de Portugal para o Atlântico, para África e o Brasil, esquecendo, ou desconhecendo, que essa foi, desde o início do século XV, a estratégia adoptada pelos Portugueses para garantirem o seu lugar na Península e na Europa.

O que aflige nesta elite que nos governa é a ignorância do passado! Se fossem conhecidas dos governantes a História e a Geopolítica nacionais talvez, aquando da adesão à CEE as condições políticas negociadas tivessem sido outras.

Mário Soares e os seus companheiros de viagem, na ânsia de negarem o fascismo português, negaram também os grandes vectores condicionantes da nossa vivência quase milenar. E o perdão dessa geração de políticos é mais difícil de conceder, porque faziam parte de uma faixa etária que tinha por obrigação saber, pois recolheram da 1.ª República os ecos que ainda pairavam no ar quando eram jovens. Cegaram politicamente e lançaram-se nos braços da Europa como virgens inocentes nos braços do amante experiente. Aceitaram tudo o que lhes foi pedido como coisa natural, como pagamento de uma aproximação que, julgaram, era um favor que lhes estava a ser concedido. E o “tecnocrata” Cavaco Silva, doutorado na Grã-Bretanha, ignorante do saber centenário dos Portugueses e da sua História, desconhecedor das interpretações mais elementares dos vectores que conduziram ao longo de séculos a pátria portuguesa – sabedor do deve e haver contabilístico e de mais umas quantas teorias económicas que repudiavam como monstruosas as marxistas – para além de deixar destruir o tecido industrial português, foi incapaz de mandar estudar e traçar uma política de desenvolvimento que aproveitasse, no mínimo, o máximo de capitais que a Europa, interesseiramente, despejava a jorros sobre Portugal. Mas Cavaco Silva foi mais longe do que os seus antecessores: impôs, nacionalmente, um novo paradigma de aceitação de condução política: o personalismo, o líder. Foi ele quem fez a transmutação do modelo de discussão das ideias e ideologias políticas para a discussão e aceitação do líder partidário. “Ou me aceitam a mim e à minha condução política ou me rejeitam e demito-me da liderança partidária”. A política passou a ser um homem e um programa de governo que ninguém, ou quase ninguém, lê. A política passou a ter um nome e um rosto! Deixou-se de discutir a ideologia que dava forma ao programa! Era assim conveniente em nome da menoridade mental dos líderes e da “tecnocracia” que substituiu a política. E Portugal e os Portugueses deixaram de ter oportunidade de discutir linhas de força, ideias, vantagens; passaram a discutir política como quem discute treinadores de futebol.

 

Por causa de tudo isto, chegámos à hora do aperto insuportável. Claro que, enquanto colectivo, temos culpas nas escolhas de liderança que fizemos. Esquecemo-nos que somos júris de um “concurso” no qual os candidatos são os políticos e nós as autoridades que lhes damos posse. São eles os devedores e nós os credores. São eles o elo mais fraco e nós o mais forte. Eles governam porque nós lhes damos a governação.

Quando será que nós, enquanto Povo, nos capacitamos do imenso poder que temos e do formidável respeito que nos é devido? A ditadura roubou-nos essa visão de autoridade que em nós reside! Os servidores são eles e nós somos os patrões. A ditadura, por o ser, inverteu esta ordem e nós todos deixámo-nos convencer. Acordemos desse sonho mau! Somos nós quem manda! Os governantes são nossos mandatários. Somos mandantes não somos mandados!

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por Luís Alves de Fraga às 15:12

Quinta-feira, 26.01.12

Compreender o futuro, depois de olhar o passado

 

Soube-se há poucos dias que mais de dois mil alunos do ensino superior público abandonaram os estudos por não terem possibilidades de pagar as propinas. É mais um dos resultados da crise! Mas este tem contornos diferentes de todos os restantes, porque configura a antevisão da modificação que se vai operar na sociedade portuguesa. Para o percebermos temos de voltar atrás várias décadas e fazer uma análise de toda a situação social.

 

O Estado Novo teve, durante a maior parte da sua existência, pelo menos três pilares de apoio: as Forças Armadas, a alta finança nacional e a média burguesia. Esta última, consubstanciada numa ampla classe média, foi aquela que garantiu a tranquilidade do regime e para quem o regime, de facto, governou, distribuindo favores fáceis de fazer. Foi uma classe média que se auto-reproduziu e se foi ampliando em consequência de uma fraca mobilidade social proveniente da ascensão de elementos dos estratos mais baixos da sociedade nacional.

Quem era, afinal, esta classe média?

Pode dizer-se que ela começava nos escalões intermédios do funcionalismo público ou equivalente e acabava nos patamares mais elevados e financeiramente mais desafogados da média burguesia. Exemplificando, teríamos os sargentos das Forças Armadas, os professores primários, os escriturários das repartições públicas, os pequenos comerciantes de bairro, passando, depois, aos professores do ensino secundário, aos oficiais das Forças Armadas, aos pequenos e médios proprietários agrícolas, aos chefes de repartição, aos jornalistas, aos directores de serviços, aos médios empresários, para acabar nos juízes, nos professores do ensino superior, nos médicos, nos advogados de nomeada, nos directores de grandes empresas, nos diplomatas em fim da carreira, nos oficiais generais das Forças Armadas e em outros tantos que se lhes equivalessem em rendimentos e estatuto. Como se vê, era um amplo leque sócio-cultural e financeiro. Daqui saíam os quadros que alimentavam o funcionamento económico e administrativo do país; uns ficavam-se pelos cursos técnicos, outros pelo curso do liceu (secundário) e os mais felizes lá conseguiam frequentar as poucas universidades que então existiam. Dar um curso superior a um filho era o sonho dos estratos mais baixos desta média burguesia. Para o conseguir tornava-se necessário o somatório de vários esforços: a) de carácter financeiro, para aguentar os, então, sete anos de ensino secundário e, depois, os cinco — no mínimo — do curso superior; b) de carácter intelectual, para o descendente corresponder aos sacrifícios da família pois, para além das despesas inerentes à escolaridade, para muitos, acresciam as de instalação na cidade mais próxima ou na da sede da universidade. Para quase todos não havia oportunidade para reprovações sucessivas e sucessivas tentativas de êxito; quem não sabia ou não conseguia aproveitar tinha um destino marcado: o trabalho compatível com o grau de estudos alcançado. Destes se alimentavam os escritórios das pequenas, médias e grandes empresas e ou outras profissões afins.

Do exposto, pode concluir-se que a mobilidade de estrato social passava, quase sempre, pela escolaridade ou por formas paralelas que catapultavam os jovens do campo para a cidade: empregada de servir (que, em casos muito raros de força de vontade, estudava ou conseguia transitar para os balcões das lojas comerciais), serviço militar que, ou abria a porta a uma carreira nas fileiras das Forças Armadas, ou criava a oportunidade de um emprego na base do estrato social da classe média (empregado de mesa, caixeiro, contínuo, etc.).

Do modo descrito se mantiveram as diferenças sociais e económicas herdadas da 1.ª República, estabilizadas numa tranquilidade social baseada na censura, no medo da polícia política na incapacidade de usar de qualquer tipo de liberdade. Era um país tranquilo, aparentemente conformado com a sua sorte, mas à espera da oportunidade de mudar para um sistema democrático. Foi a guerra colonial e a sua longa duração o factor desestabilizante deste equilíbrio bovinamente pachorrento; ela ocasionou a emigração clandestina para fugir às obrigações militares — não só dos filhos bem pensantes das famílias burguesas, mas, também, dos camponeses que optavam pelo trabalho duro na estranja a ter de arriscar a vida num conflito que nada lhes dizia — e determinou também a inquietação ideológica entre os estudantes no seio dos quais passou a ser possível plantar a ideia revolucionária ou, no mínimo, contestatária.

 

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, e dando continuidade a um princípio constitucional, o ensino ampliou-se, generalizou-se, popularizou-se. O conhecimento estava agora ao alcance de quase todas as bolsas. Ampliou-se o número de escolas básicas e secundárias e cresceu exponencialmente a quantidade de universidades públicas e privadas a par dos institutos politécnicos. Portugal tinha a possibilidade de aumentar o número de quadros bem formados.

Com a adesão à CEE/União Europeia alteraram-se por completo as condições produtivas no país: a agricultura e as pescas ficaram reduzidas a expressões quase ridículas; as populações do interior deslocaram-se para o litoral na busca de outras formas de ganhar o sustento; o dinheiro e o crédito tornaram-se abundantes; as condições de existência modificaram-se nas vilas e cidades; de repente a mobilidade social parecia estar ao alcance de todos e, por isso, todos quiseram colocar-se na vida da maneira que mais conveniente lhes parecia. O aconselhamento de carreira foi coisa que se desprezou; chegava-se onde se julgava poder chegar. Socorrendo-me da imagem financeira, houve uma bolha educacional que não teve contrapartida nas apropriadas possibilidades de emprego por falta de planificação dos Governos. O “mercado” educacional desregulou-se e o Estado, sempre presente em quase toda a vida do cidadão, absteve-se de desenvolver aqui a sua acção pedagógica, aconselhando as melhores saídas profissionais e consequentes cursos e formações apropriados para satisfazer as necessidades do desenvolvimento nacional. Foi a vontade individual que imperou durante os últimos trinta anos e, muito especialmente, nos últimos vinte. Desta criminosa abstenção do Estado resultou um subaproveitamento das capacidades e possibilidades das sucessivas gerações de estudantes. Começou a verificar-se uma inversão da mobilidade social, ou seja, um licenciado a ocupar funções que há cinquenta ou sessenta anos eram desempenhadas por indivíduos com baixas habilitações literárias.

É mau? É bom? Julgo que não me cabe avaliar, para além de evidenciar que é sempre bom o crescimento do nível educativo e cultural das populações. Mas será bom e conveniente a existência de um desajuste que leva possíveis quadros superiores ao desempenho de funções subalternas? Que insatisfações sociais se geram? Que tipo de pressões políticas se passa a verificar?

As interrogações que deixo evidenciam o que foi a ausência de uma visão estratégica para a articulação entre o ensino, a economia e os assuntos sociais. Nada foi equacionado com um mínimo de raciocínio científico! Descuidadamente, semeou-se o caos por não haver sentido de Estado nem estadistas. Por não haver a percepção de mudança nem das suas consequências.

 

E o que se apresenta como futuro? Olhando para a política de alteração que o actual Governo está a fazer, particularmente ao nível do trabalho e da economia tudo aponta a que se irão, por via indirecta, modificar as condições de acesso ao ensino superior, dificultando-o e disponibilizando-o exclusivamente a uma elite económica capaz de fazer face às despesas de formação. Vamos, politicamente, regredir até às condições dos anos setenta do século passado e redefinir os processos de mobilidade social segundo padrões bem diferentes dos que ainda vigoram e que as famílias integraram como válidos.

Temos e devemos “agradecer” a situação não só à crise, mas, muito especialmente, à incapacidade de planeamento estratégico dos Governos e dos governantes de há trinta anos a esta parte.

Para os meus netos Portugal vai ser um país muito diferente daquele que foi para os meus filhos. Em certos aspectos vai assemelhar-se aos tempos do Estado Novo. Valha-lhes Deus.

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por Luís Alves de Fraga às 22:52

Segunda-feira, 16.01.12

O ensino em Portugal

 

A maioria dos estudantes, em Portugal, não sabe qual o motivo por que estuda e, não o sabendo, surge na vida laboral, sem uma noção clara da própria vida e do que se pode esperar de cada um. Ou seja, elevado número de Portugueses começa a sua vida profissional mal colocado, sem opiniões precisas e sem a noção dos seus limites.

Os alunos do ensino secundário não sabem nem percebem — também ninguém lhes explica — que o andar na escola tem por finalidade aprender matérias, dominar técnicas adquirir capacidades. O ensino secundário é basilar para o conhecimento pois é nesta fase da vida que se abandona a ignorância e se passa ao nível intermédio da cognição. Antes, no ensino básico, adquirem-se os instrumentos primários que possibilitam descodificar o conhecimento e a aprendizagem: saber ler, escrever e contar. É o mínimo para se estar integrado na sociedade com amplas restrições, mas, mesmo assim, poder participar na vida conjunta com direito a formular opiniões, se calhar, pouco seguras e mal fundamentadas.

Nos últimos anos do ensino secundário, abrem-se as portas aos primeiros passos do desenvolvimento interpretativo do conhecimento, seja através de matérias como a Filosofia, seja pela especulação matemática. Exige-se que o aluno se torne capaz de deduzir por si próprio alguns conjuntos de saberes ou, no mínimo, dominar técnicas que lhe moldem o raciocínio, preparando-o para a entrada no ensino superior. Neste último nível, duas opções se podem verificar: a politécnica e a universitária. No primeiro caso, o aluno deve ser encaminhado de modo a “saber fazer” com fundamento científico. Ou seja, ele “faz” porque sabe que há uma explicação científica para o que executa e, até, pode enunciar esses fundamentos. No segundo caso — na Universidade — o aluno vai aprender a resolver problemas complexos na área do conhecimento que escolheu. Quer dizer, mais do que saber fazer, ele deve saber interrogar-se sobre os conhecimentos que lhe são sugeridos como fundamentais na área de trabalho para a qual vai estar preparado após a conclusão do curso. A Universidade, em última análise e levando ao extremo as minhas palavras, não é só um local de aprendizagem de técnicas de elaboração mental— diria mesmo que não é um local de aprendizagem de conhecimentos —, mas é um local de interrogação sobre conhecimentos e técnicas de solução de abstracções mentais. Na Universidade o aluno deve aprender a interrogar o conhecimento que lhe é sugerido. Já não é um agente passivo! É, tem de ser, acima de tudo, um agente activo que se não contenta com o conhecimento ensinado, mas busca novas formas de raciocínio para encontrar novas respostas para as suas dúvidas. Dúvidas sugeridas por um tipo de ensino que não pode ser definitivo; tem de ser um ensino que, levantando incertezas, fornece instrumentos de análise e de investigação para o discente reflectir e descobrir por si mesmo.

 

Será que, em Portugal, o ensino em geral e o universitário em particular, obedece a estes parâmetros? Estarão os professores preparados para a função que exercem nas diferentes etapas da pirâmide cognitiva nacional? Muito do descalabro sócio-profissional que nos rodeia não será fruto da ausência de uma boa prática lectiva?

Não se pode simplesmente desejar satisfazer estatísticas; é necessário que, acima de tudo, para além dos números, nos preocupemos com a qualidade. E se, na 1.ª República, a instrução primária foi a inquietação dos governantes e, no pós-Estado Novo, se deu a prioridade ao ensino, é tempo, agora, de começar a olhar para as propriedades pedagógicas da nossa Escola. O futuro está já ao virar da primeira esquina e não se compadece com desculpas esfarrapadas, para além de que, ensinar bem, não fica mais caro do que ensinar mal.

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por Luís Alves de Fraga às 13:39

Terça-feira, 10.01.12

Tudo em família

 

Hoje, desculpar-me-ão, resolvi contar-vos uma história. Uma história que pode estar a passar-se neste momento ou ter ocorrido há muitos anos. Não é importante o tempo em que foi vivida.

 

Havia um pai de família, com sete filhos maiores e empregados, que estava completamente endividado, insolvente. Conseguiu um acordo com os credores que lhe impuseram regras de vida de modo a não aumentar a sua dívida. Uma delas era que, anualmente, o saldo negativo dos seus negócios não ultrapassasse a margem de 3% da sua facturação.

Esse pai de família, quando negociou o pacto com os credores foi-lhes escondendo — por manha ou por descontrolo — a verdadeira dimensão do descalabro financeiro e, por conseguinte, das suas dívidas. Estas foram surgindo, mês após mês, já depois de estabelecido o acordo.

Em Dezembro do ano em que o pai de família fez a combinação com os credores, para poder cumprir o que estava estabelecido, depois da gestão “normal” dos negócios, o saldo negativo ainda era superior aos 3% da facturação. Impunha-se alcançar a meta planeada. Ora, um dos processos para satisfazer o objectivo, já que não havia reduzido suficientemente as despesas ou não tinha aumentado as vendas, consistiu em pedir a cada um dos filhos que lhe emprestasse as suas economias, pois, se comprometeu, também com eles, a pagar mensalmente uma percentagem da nova dívida, ajudando-os, deste modo a sobreviverem.

No final do ano seguinte, uma vez mais, apesar de ter encolhido as despesas da governação da casa e do negócio e de ter tentado, por todos os meios, ampliar a facturação, tornou a confrontar-se com um saldo superior aos tais 3%, e tudo porque, cada vez mais, a sua fabriqueta, por falta do devido investimento, produziu cada vez menos. Acresce que, por força desta circunstância, os filhos começaram a entrar, também eles, em incumprimento das suas obrigações, pois o pai não lhes havia saldado a comissão previamente combinada. A insolvência já não pesava só sobre a cabeça do pai, mas também sobre a dos filhos. Foi a ruína de toda a família!

Os credores juntaram-se em magna assembleia e perguntaram-se: — Qual o motivo da situação caótica do nosso devedor? Um, de entre todos, levantou-se e disse: — É simples! O nosso devedor nunca teve uma boa contabilidade, nem um bom controlo dos dinheiros e da produção. E mais, não soube negociar connosco! Exigimos tudo o que quisemos e ele a tudo cedeu. Tem, em minha opinião, o que merece! Fiquemos-lhe com a casa, os bens que ainda lhe restam e o negócio. Reduzamos todos os membros da família a meros empregados nossos até que nos hajam pago tudo o que nos devem! Em coro, os restantes credores gritaram: Apoiado, apoiado. Escravizemo-los, que mais não merecem! Nomeemos um feroz capataz para os governar durante o tempo que for necessário. Retiremos-lhes o direito de reivindicação, a liberdade de expressão e de reunião. Não merecem!

E foi assim que uma velha família daquela aldeia antiga e velha ficou a viver a mais negra e atroz escravidão.

 

Quereis saber, estimados leitores e Amigos, o nome deste chefe de família? Pois aí vai para satisfação da vossa curiosidade: Governos, o de baptismo, e, Portugal, o de família. Os filhos davam pela alcunha de Fundos de Pensões.

Bom, para completar a história, falta saber como se chamavam os credores, mas eram tantos que resolvi designá-los por uma expressão simples: Alta Finança.

Claro que o capataz também tinha nome, mas, o dele, deixo à vossa imaginação… É que gosto de histórias interactivas…

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por Luís Alves de Fraga às 13:17


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