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Fio de Prumo



Segunda-feira, 20.06.11

Ética e Tempo

 

Não, não é da idade!

Às vezes penso que é uma consequência da idade, mas, depois, faço reflexões mais profundas e concluo que o meu estado de espírito nada tem a ver com o facto de não ser jovem. Também não resulta dos diferentes contextos em que me assaltam estas lucubrações… são tão diferentes e variados!

 

Vem esta introdução a propósito da falta de Ética que, a cada passo, topo no meu dia-a-dia, nas mais díspares situações. Falta de Ética nos comportamentos mais insignificantes. E falo de Ética como princípios morais que regem as pessoas tanto na sua vida pessoal como profissional. Ética, a capacidade de perceber o Bem e o Mal e a diferença entre eles! Ética que leva a escolher fazer o correcto e a rejeitar o incorrecto. Ética como a alternativa ao procedimento que a moral cívica condena. Ética como o caminho profissional que se trilha para se poder andar de cabeça levantada e sem pesos na consciência quando se está entre pares do mesmo ofício. Ética, enfim, como a forma justa e perfeita de agir mesmo que não haja testemunha do nosso modo de proceder.

 

Eu, tal como tantos outros cidadãos da minha idade ou da minha geração, sou fruto de uma época, de uma educação familiar, de uma instrução para a Vida, de uma Moral Cívica colhida aqui e ali, mas sempre resultado de exemplos. Sou fruto de uma socialização num determinado tempo. E esse tempo foi o da ditadura, o da ausência de liberdade de expressão, de reunião, de protesto. Foi um tempo que passei a abominar quando tomei consciência política de que havia alternativas ao monolitismo político de então. Era muito jovem quando isso aconteceu, pois não nasci para a Democracia no dia 26 de Abril de 1974.

Passados quase quarenta anos sobre a alvorada democrática, numa análise retrospectiva, dou comigo a pensar que a ditadura do Estado Novo, sendo estruturalmente corrupta, imoral e amoral nos seus alicerces, fazia, contudo, passar para a educação e para a sociedade uma imagem de Ética, de correcção de princípios que, embora sendo um manto pouco diáfano, tentava cobrir os defeitos de base sobre os quais se havia construído. Era um jogo! Nós, os mais atentos, percebíamo-lo, mas à grande maioria dos cidadãos escapava essa maléfica artimanha entre o ser e o parecer, levando os incautos políticos – e eram quase todos – a acreditar em princípios que tinham a sua concretização em slogans simples para serem compreendidos por gente simples: Deus, Pátria e Família e Tudo pela Nação, nada contra a Nação.

Deus, um valor ético que cabia na dimensão das diferentes crenças religiosas de cada qual, mas que se impunha pela acção da constante presença do clero católico, do crucifixo, das imagens de santos, das romarias e das procissões. Pátria, um valor ético que tinha como esteio principal os livros escolares únicos, uniformizadores de princípios e de comportamentos, o mestre escola, os hinos patrióticos aprendidos e cantados no âmbito da Mocidade Portuguesa e todo um conjunto de actividades para-militares que exaltavam a heroicidade da gesta portuguesa a partir de um nacionalismo exacerbado. Família, um valor ético que não precisava de explicação, pois era no seio dela que se dava o crescimento e se aprendiam os rudimentos da moral cívica que cada uma conseguia fazer aceitar pelos descendentes. Tudo pela Nação e nada contra a Nação, constituía o pilar do desenvolvimento de um nacionalismo que já se havia ancorado no estudo e na mentalização de um Portugal grande, eterno e heróico.

Repare-se como o Estado Novo se preocupou em moldar as mentes para ser aceite na base de uma Ética que deveria silenciar consciências da mesma forma que a censura prévia calava os desvios comportamentais, as corrupções, e os maus exemplos.

Condenável, é certo, a ditadura fez tudo o que estava ao seu alcance para gerar uma Ética, uma Moral, que a servia, mas que era exigente, no mínimo, nas aparências – e é fruto dessas aparências que ainda agora há quem enalteça os valores do Estado Novo e de Salazar – de modo a ser uma ditadura moralizadora.

 

E a Democracia que valores éticos procurou inculcar nos cidadãos? Que mecanismos pôs ao serviço da comunidade para gerar uma Ética cívica e profissional? Que eu saiba, nada se fez… Deu-se Liberdade e a cada um liberdade para a governar como entender, desde que não fira a Lei. Mas ao dar a Liberdade – bem inestimável – facultou a possibilidade, como era desejável, de se poder conhecer o comportamento dos homens públicos deste país. E que exemplo dão eles? Não vou agora desfiar o rosário que todos nós conhecemos!

 

E a conclusão é inevitável: a Democracia não soube, não quis ou não conseguiu criar, alimentar e fazer crescer uma Ética, uma Moral Cívica que faça dos cidadãos melhores cidadãos e profissionais mais conscientes e mais correctos.

Como se vê, a minha crítica não resulta da idade e de todas as tendências caturras que ela traz.

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por Luís Alves de Fraga às 11:14


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