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Fio de Prumo



Domingo, 04.07.10

Hospitais e saúde militar

 

Propositadamente tenho mantido silêncio sobre a magna questão da saúde militar e da criação de um hospital das Forças Armadas.

O meu silêncio justifica-se, porque, mais uma vez, o Poder político nacional vem dar provas da sua arrogância, da sua teimosia e, acima de tudo, dos seus preconceitos relativamente às Forças Armadas. Este Poder é irredutível e comporta-se ditatorialmente na relação com os militares. Peca pelo cometimento de várias más acções, mas aquela que mais afronta é a da ausência de subtileza, de mestria, de diplomacia na lidação com as Forças Armadas. Nem o ditador Salazar assim procedeu! O Poder político no Portugal democrático desbaratou as Forças Armadas como o faria, sobre os pobres transeuntes, qualquer touro bem bravio largado na avenida da Liberdade na hora de maior movimento! Só se lhe distingue no olhar a fúria da destruição, nada mais. E isso começou a acontecer nos já longínquos Governos de Cavaco Silva, através de um tal ministro — que desapareceu de cena — que dava pelo nome de Fernando Nogueira. Daí para a frente foi um fartar vilanagem! Já lá vão cerca de vinte anos.

 

Chegou agora a vez de acabar com os hospitais militares pertença de cada Ramo das Forças Armadas. Alega-se — se é que se alega alguma coisa! — necessidade de rentabilizar e economizar esforços financeiros, materiais e pessoais. Mas este argumento é tão precário, tão descabido, tão néscio que dá vontade de perguntar: — Desde quando é que à boa utilização das Forças Armadas se aplicam as regras invisuais da Economia? As Forças Armadas, senhores governantes, podem ser eficientes, mas têm de ser sempre eficazes (saberão, vossas excelências, a diferença entre uma coisa e outra?)! Se a tradição estabeleceu três hospitais para as Forças Armadas não o fez por luxo, por desperdício ou por vaidade. É preciso não perceber nada da superior finalidade das Forças Armadas e da importância de cada Ramo para acabar com três hospitais — que, naturalmente, obedeciam a idiossincrasias específicas (sabem, vossas excelências, do que estou a falar?) — reunindo num só todas as valências até então dispersas. É preciso não saber o que é um estado de conflito militar, de guerra, para tentar fundir num só pelouro a medicina castrense! É preciso nunca se ter estudado e meditado sobre o que foram os serviços de saúde durante os dois últimos conflitos militares em que as Forças Armadas estiveram envolvidas — refiro-me à Grande Guerra e à Guerra Colonial — para os resolver fundir sob a capa de um só hospital! Mas, desta falta de meditação e de estudo, também são responsáveis os decisores militares, a grande esmagadora maioria feita e desenvolvida na paz podre que se seguiu ao 25 de Abril de 1974. Julgam, governantes e decisores castrenses, que se improvisa ou se reformula de um momento para o outro um serviço de saúde militar! Atrevida ignorância! É atrevida, porque se têm dado machadadas na estrutura castrense, julgando e baseando essa mesma estrutura no quadro estratégico de conflitos que nos passam à margem, lá em terras distantes. É atrevida, porque se tem olhado para as Forças Armadas unicamente como instrumento do desenvolvimento de uma política diplomática e de uma política externa integrada em cooperações internacionais. Ora, a missão fundamental e primária das Forças Armadas é a de garante da soberania nacional! Representa uma grande ingenuidade, um tremendo descuido, ou, em última instância, uma imperdoável ignorância acreditar que a defesa da nossa soberania pode estar entregue nas mãos de um qualquer aliado do momento! Ninguém nos vem acudir se o interesse nacional do auxiliador não passar pelo lucro alcançado com o auxílio. Quer dizer, estamos dispostos a alienar o direito indeclinável de defesa nacional, entregando-o de mão beijada a qualquer força que dele possa tirar vantagem.

 

A implosão do sistema de saúde militar tal como tem funcionado, secularmente, é um crime de lesa pátria, porque atenta contra a capacidade de mobilização, de actuação e de resposta do pequeno, mas ainda minimamente credível, aparelho militar português. O nome do ministro Santos Silva vai ficar ligado a um aborto conscientemente feito, conscientemente assumido e executado com rapidez para poder ser esquecido, se as mós da História não moessem devagar.

O crime não se fica só por estas linhas. Há mais, mas guardar-me-ei para próximo artigo.

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por Luís Alves de Fraga às 18:58


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