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Fio de Prumo



Quarta-feira, 11.03.09

Medina Carreira

 

 
Medina Carreira é um dos mais ferozes críticos do actual Governo. Com o seu jeito desabrido diz o que sente e lhe vai na mente sem utilizar — pelo menos aparentemente — filtros de conveniência. É um Homem que nada tem a perder! É como o condenado à morte que já está na última cela antes da injecção letal: pode dizer tudo, pode gritar que o rei vai nu, que os partidos políticos são uma corja de oportunistas — pelo menos alguns que ele não tem pejo em mencionar —, que «não há país, não há gente e não há esperança» em Portugal, que «este Governo vai ser julgado no pelourinho dentro de meia dúzia de anos».
Enfim, Medina Carreira não manda dizer, diz! É incómodo.
 
Medina Carreira faz a apologia de um presidencialismo sério — transitório, possivelmente —, mas capaz de “alavancar” os sectores que são fundamentais: a educação de rigor, a justiça célere, a honestidade na vida pública. Medina Carreira defende uma mudança de pessoas e de mentalidades no país. E defende estas ideias, muito provavelmente porque, para além de ser um homem sério e desiludido, é, de certeza, um homem que interiorizou o rigor desde criança. Estou perfeitamente à-vontade para dizer o que digo, porque eu e ele andámos, em tempos diferentes, mas na mesma época, na mesma Escola: o Instituto dos Pupilos do Exército.
 
Medina Carreira é antigo aluno de uma Casa que impunha, aos seus alunos, rigor, trabalho, disciplina, horários, sentido de hierarquia, valores morais e cívicos e, acima de tudo, vontade de vencer.
Medina Carreira começou por tirar um curso médio, por aprender que é preciso saber fazer para mandar fazer. O diploma de jurista e de Ciências da Educação — como, mais tarde a frequência do curso de economia — não lhe caíram nas mãos pelo simples facto de ter prosseguido estudos pagos pela família. Não. O diploma foi uma consequência de uma opção que fez, depois de já possuir meios para ganhar a vida, pois, antes do mais, ele foi agente técnico de engenharia mecânica. Medina Carreira “trepou” na Vida. Ele e muitos de nós que tivemos o mesmo berço educativo e formativo. O nosso espírito começou por ser moldado pelos parâmetros militares de educação — até porque, de um modo geral, todos éramos filhos de modestos militares — os quais são, quase sempre, exigentes e rigorosos. E os nossos foram-no. É esse o motivo por que não receamos sistemas políticos que imponham rigor; nem sistemas políticos, nem trabalhos, pois sabemos, desde os dez anos de idade, que nada conseguimos se não formos persistentes, teimosamente persistentes.
Porque vale a pena, sugiro aos meus leitores que gastem um pouco mais do seu tempo a ver a entrevista de Mário Crespo a Medina Carreira a que poderão ter acesso clicando na ligação que anteriormente deixo indicada. De certeza que, os mais informados, pacientes e exigentes vão gostar.

 

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por Luís Alves de Fraga às 11:03

Terça-feira, 10.03.09

Uma medida estúpida e ignorante

 

 
A crise financeira e económica está mais do que declarada na Europa e nos EUA. Tal como vários comentaristas nos dizem, ela vinha sendo anunciada há, pelo menos, dois anos, embora os sinais da sua existência se tenham manifestado muito antes.
Ainda ontem, no programa televisivo «Prós e Contras», foi referido que, independentemente da crise global da economia, o nosso país vive em crise desde há sete anos, o que é um facto perceptível por qualquer comum mortal minimamente informado.
O Governo socialista, do qual é primeiro-ministro José Sócrates — cidadão sobre o quem impendem dúvidas muito sérias a respeito de vários assuntos e que a tudo responde afirmando que o mundo está contra ele — começou a sua actuação, vai para quatro anos, obedecendo aos ditames de Bruxelas, impondo a redução do deficit para menos de 3% do PIB. Nesta obcecação pelo deficit ele e António de Oliveira Salazar deram as mãos e até parecem contemporâneos. Só que o velho professor de Coimbra — que foi mais tempo ditador do que mestre! — acabou com os orçamentos deficitários em nome do equilíbrio financeiro português e José Sócrates tentou fazê-lo, porque lhe foi determinado pelo estrangeiro. Ambos não levaram em conta a solução da economia nacional, porque afinal — a crise vem demonstrá-lo — os deficits até podem existir e serem muito grandes se eles estiverem ao serviço da saúde económica. Hoje o Estado injecta dinheiro onde for preciso para — mesmo em casos de gestão danosa — garantir a sobrevivência do poder aquisitivo dos cidadãos, isto é, a capacidade de compra de cada um de nós, pois só deste modo podemos sair da crise. É necessário que o cidadão comum tenha dinheiro na carteira para comprar produtos que garantam que as fábricas continuam a laborar e, assim, garantam, também, que os despedimentos são mínimos e o desemprego estanca ou se reduz.
Ora, o que José Sócrates, através de Luís Amado, mandou fazer aos militares e suas famílias, há três anos, foi exactamente o contrário quando lhes modificou o sistema de assistência na doença. Na verdade, em nome de uma poupança para o Estado, determinou que os militares pagassem mais pela sua assistência sanitária e ficassem mais empobrecidos para o consumo geral. Na altura, fui um dos primeiros oficiais a reagir, enviando a José Sócrates uma carta aberta (pode ser lida, seguindo a ligação). Mandei, também outra a Luís Amado.
 
Modificou-se o sistema de assistência na doença que cada Ramo das Forças Armadas possuía e estabeleceu-se outro que funciona mal e que reduziu o poder de compra dos militares e, muito especialmente, o dos militares reformados. Em face da crise que já então se vivia a medida foi descabida, mas perante a crise actual ela é declaradamente estúpida e demonstrativa de uma clara ignorância do panorama económico mundial e nacional e das evoluções possíveis que se desenhavam no horizonte internacional.
Se o voto é uma medida punitiva, os militares e as suas famílias têm o dever moral de punir severamente o Partido Socialista que foi capaz de gerar estas monstruosidades governativas.

 

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por Luís Alves de Fraga às 19:38

Sexta-feira, 06.03.09

A Associação de Praças da Armada e eu

 

 
No dia 16 de Fevereiro recebi, por e-mail, um simpático convite do Presidente da Associação de Praças da Armada (APA) para estar presente no jantar comemorativo do 9.º aniversário daquela Associação Profissional Militar. Não me dei conta de que essa mensagem continha um anexo. Por isso, não o li.
 
No dia 4 de Março, anteontem, lá me apresentei, pouco passava das vinte horas, no restaurante indicado para o convívio. Eram muitos os presentes e vivia-se um ambiente de saudável camaradagem, de ânimo, de alegria e confiança.
Quando foi dado início ao repasto, indicaram-me o lugar na mesa de honra, junto dos representantes de outras Associações Profissionais Militares (APM), do oficial em representação do CEMA, dos representantes dos partidos políticos com assento na comissão parlamentar de Defesa (os quais, por acaso ou desleixo, faltaram, só estando presente o do PCP) e de outras entidades oficiais.
A conversa decorreu animada, centrando-se, como seria evidente, nos problemas que afectam todos os militares, desde a reorganização superior das Forças Armadas até à aprovação do novo RDM o qual mereceu censura unânime dos comensais (o oficial representante do CEMA guardou, como era de esperar, reserva sobre o assunto, facto que, tenho a certeza, foi por todos compreendido).
 
Para que se possa entender o que são as praças da Marinha de Guerra é necessário recordar que este ramo das Forças Armadas foi o primeiro, há muitas dezenas de anos, a ter profissionalizados os mais baixos escalões da sua hierarquia. Era eu uma criança e recordo-me que o recrutamento para a Armada se fazia por voluntariado, entre os mancebos conscritos ou mesmo antes, quando já tinham idade para servir nas fileiras. Depois, sempre houve na Marinha, o regime de contrato que levava à existência de cabos com quarenta e mais anos de idade.
Foram, por conseguinte, condicionalismos específicos dos marinheiros que determinaram a criação da Associação das Praças da Armada.
 
No final do jantar, depois do brilhante discurso do cabo Luís Reis, Presidente da APA — discurso que me fez pensar no quanto ganhariam os Chefes de Estados-Maiores se tomassem em muita consideração as opiniões das APM, vendo nelas excelentes colaboradores da sua acção de comando e, até, permitindo-lhes a reivindicação que as suas condições de comandantes não lhes aconselha a efectivar — passou-se à fase da entrega de prémios instituídos pela Associação de Praças da Armada.
Não vou contar pormenores, mas confesso, fiquei surpreso quando, em primeiro lugar, pediram ao oficial representante do CEMA para proceder à entrega do galardão que premeia o Associativismo. Naquele instante perpassou-me pela mente a ideia de que o prémio deveria ser dado a um marinheiro que pelas suas qualidades se tivesse distinguido no seio da Briosa por acções notáveis em prol da defesa do espírito que junta as praças da Armada à volta da mesma associação. Foi com espanto e mais do que surpresa que ouvi chamarem por mim! Eu não acreditei. Por quê eu?
Tive a sensação de ter decorrido um largo tempo entre ouvir o meu nome e levantar-me.
Lá fui receber o galardão e o diploma que o acompanha.
Depois dos cumprimentos da praxe, dos abraços que se impõem, senti-me isolado do mundo que me rodeava e procurei perceber os fundamentos que justificam a atitude da Direcção da APA. Não atinei com nada que jeito tivesse. Em fracções de segundo passaram pela minha memória lembranças velhas do meu tempo de garoto: o meu Pai saindo de casa fardado de 1.º sargento da Armada, a tertúlia que ele mantinha todos os fins de tarde com velhos camaradas: o 1.º tenente José Marques (antigo sargento condutor de máquinas), o comandante Manuel Gonçalves (mais conhecido como o Manel Marau, antigo sargento de manobra), o 1.º sargento artilheiro Luís Viegas, o comandante José Neto (antigo sargento artífice), o comandante Branco (antigo sargento enfermeiro), os primeiros sargentos Roxo e Ferreira de Sousa, enfermeiros como o meu Pai, o sargento-ajudante Diamantino de Jesus (algarvio por adopção e condutor de máquinas) e muitos outros que em diferentes cafés da baixa lisboeta se encontravam para ouvir o meu progenitor falar sobre política internacional e, às vezes, com as devidas cautelas, da política portuguesa.
Esses Homens foram-me vendo crescer enquanto lhes escutava estórias da Briosa.
Da mais tenra infância recordo marinheiros, o bairro do Alfeite, as descrições das viagens da velhinha Limpopo, nas costas algarvias, do petroleiro S. Brás, a caminho da América Central durante a 2.ª Guerra Mundial e da velha Sagres (que conheci por dentro e da qual guardo lembrança viva).
Nesse instante de abstracção do mundo que me rodeava, depois da singela homenagem que a APA me quis fazer, diante dos olhos da minha lembrança, os rostos desses Marinheiros, com o do meu saudoso Pai à frente, desfilaram sorridentes; a corporação a que haviam pertencido tinha premiado a minha postura em defesa dos direitos da Família Militar. O prémio, afinal, sinto-o, foi para Eles, pois com o seu exemplo, ensinaram-me a ser tal como sou.
 
Já caminhei muito na Vida, já me superei muitas vezes, já dei de mim muito esforço. Aqui e ali tem-me sido feita justiça, tenho sido reconhecido, mas nenhuma honraria me faz esquecer que nasci num lar humilde, honesto e laborioso de um sargento enfermeiro da Armada. O meu Pai foi, naturalmente, importante para mim, mas ele era já de si um Homem diferente (veja-se o meu outro blog «Desblogueando» onde, em cinco artigos, lhe traço parte da biografia) e hoje, com a consciência que a idade me vai dando, sei que não existem acasos, nem sorte; existe algo que não sabemos explicar e nos vai abrindo portas na Vida e para a Vida. O jantar da APA e o prémio Associativismo que me atribuíram não foi um acaso, mas o fruto de alguma coisa que ainda não sei explicar com rigor e precisão.
 
Para honrar os Marinheiros da minha infância, da minha juventude e, agora, os da minha velhice, o «Fio de Prumo» vai continuar a ser uma pequena luz na tempestade das desventuras em que a Família Militar navega. Assim eu tenha forças para manter erguido esse luzeiro sobre as vagas que o querem apagar.
 
Obrigado à Associação de Praças da Armada.

 

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por Luís Alves de Fraga às 15:45


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