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Fio de Prumo



Domingo, 20.04.08

O meu exercício da docência e o RDM

 
Sempre entendi o exercício da docência mais como uma actividade capaz de despertar vontades para a aprendizagem das matérias ensinadas do que uma pura e simples transmissão de conhecimentos. Ensinar é abrir a caixa do desejo onde se guarda o saber.
Naturalmente que a metodologia que se usa para conseguir a adesão dos alunos ao gosto pelo conhecer varia conforme as áreas que se leccionam. Eu, que me dedico a ensinar História, e especialmente História de Portugal, tenho de ter uma grande liberdade de recuo e avanço no tempo para estabelecer comparações que levem os alunos à compreensão plena do que explico. Com imensa frequência venho às realidades por eles conhecidas e vividas para as relacionar com outras do passado de modo a compreenderem as semelhanças ou as diferenças.
Os alunos, nesta troca de vivências, bastas vezes interrogam-me sobre o presente para poderem concluir sobre o passado que desejo sejam capazes de abarcar.
Nas minhas aulas não há tabus. Tudo se pode discutir, porque tudo se relaciona com a vida do Homem em sociedade.
 
Esta atitude aberta e franca só a pude ter depois de Abril de 1974. Antes, muito embora não me amedrontassem os bufos e a perseguição da PIDE/DGS, acautelei-me, porque de mim dependiam os meus filhos e deixá-los à míngua de pão pelo prazer de afrontar um Poder político despótico constituía uma aventura que só uma muito grande militância poderia e deveria aconselhar. Também, por esses tempos, eu leccionava em estabelecimentos do ensino secundário e a juventude dos alunos não constituía um acicate tão grande no desejo de saber como hoje na universidade. Contudo, sempre que me foi possível, deixei margem à curiosidade e às perguntas para, através dos esclarecimentos, conseguir despertar, aqui e além, desejos de se querer conhecer o que era a democracia e a liberdade. Ainda, por vezes, encontro antigos alunos que recordam essas minhas ousadias em terrenos julgados, então, difíceis.
 
Antes do dia redentor de 25 de Abril de 1974 também exerci uma outra espécie de docência: escrevia crónicas para jornais da província: para o «velhinho» Açoriano Oriental e para a Gazeta de Coimbra. Os meus artigos tinham, como todos os outros, de ir à comissão de censura, mas, com a «arte» que, então, desenvolvíamos para saber fazer passar mensagens, muitas vezes consegui ludibriar o censor e ver em letra de forma afirmações que serviam para alertar os leitores. Quem hoje se debruçar sobre o que nessa altura escrevi achará ingénuos os argumentos, contudo, dizê-lo era já muito importante.
Deixo aos meus leitores um pouco da minha prosa desses tempos, tirada ao acaso da Gazeta de Coimbra do dia 9 de Janeiro de 1971:
«(…) o progresso cultural só se fará quando se democratizar o ensino. (…) haveria que tornar a cultura acessível a toda a gente, sendo medida prioritária o aumento do tempo de frequência escolar elementar da juventude. (…). Neste particular, e abstraindo-nos da questão da filiação no partido, os países da Cortina de Ferro, vêm de há anos a esta parte, desenvolvendo um notório auxílio aos jovens comunistas que dão provas de capacidade intelectual. O vulgar sistema de bolsas de estudo, talvez não seja suficiente para resolver a questão, para além da aquisição de livros e da satisfação das necessidades primárias de vida do estudante, fica um mundo de coisas à espera de solução. Só quando o estudante puder ter todos os problemas resolvidos — desde o vestir e calçar, até à aquisição de livros passando pelo ambiente próprio ao estudo e à investigação — se tirará deste «trabalhador» — porque estudar é a forma mais proveitosa de trabalho! — o total rendimento» (os sublinhados foram feitos agora para chamar a atenção do que era, por regra, censurado).
 
Era assim que eu escrevia quando estava prestes a fazer 30 anos de idade; hoje, passados 37, não altero uma vírgula ao que disse!
A minha intervenção pública nesses anos recuados era já pedagógica, porque acredito que é pelo ensino que se dão as grandes mudanças na mentalidade dos grupos sociais humanos. Ora, para se ensinar tem de se gozar da mais ampla liberdade. Não se pode ensinar coisa que jeito tenha com peias e limitações no pensamento!
 
Lendo o anteprojecto do Regulamento de Disciplinar Militar pergunto-me se, na eventualidade mais do que improvável de ser transformado em Lei, eu poderia continuar a exercer a docência. Eu ou outro qualquer militar reformado que, para arredondar financeiramente o mês e a reforma por prazer e necessidade, leccionasse disciplinas universitárias do âmbito das Ciências Sociais e Humanas. Na verdade, em todos os momentos de uma boa lição sobre Portugal estaríamos a infringir o RDM ou, o que me parece profundamente caricato, teríamos de pedir autorização ao Chefe do Estado-Maior do Ramo para nos permitir dar aulas, quando, para haver justiça, ele nos deveria agradecer pelo facto de estarmos a contribuir com o nosso saber e a nossa experiência para a formação académica das gerações futuras.
 
Como facilmente se percebe, foi minha intenção, ao escrever este artigo, deixar aqui bem expressas várias mensagens: pode exercer-se a docência de várias maneiras e ao longo de vários momentos da vida, porque para se ser professor é fundamental ser-se pedagogo e a pedagogia do exercício da cidadania é a pedra por onde se começa a construir qualquer lição; a liberdade de expressar a opinião é fundamental a quem quer ensinar; aqueles que, com intenções ainda não plenamente esclarecidas, lançaram para o conhecimento público o anteprojecto de um novo RDM têm vistas tão limitadas que nem lhes passou pelo bestunto a hipótese de um militar reformado exercer a docência e, por isso, não poder nem dever estar limitado no seu direito de opinião; finalmente, pelo exemplo que dei do que e como escrevia há 37 anos, percebe-se como, afinal, o Governo democrático de hoje pretende ser bem mais repressivo do que o ditatorial de então.
 
Deixo no ar duas perguntas que cada qual responderá como melhor lhe aprouver: — Para onde estamos nós, Portugueses, a ir ou a ser levados? Saberemos reagir como é esperado e a tempo?

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por Luís Alves de Fraga às 10:04


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