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Fio de Prumo



Quarta-feira, 27.02.08

Da minha janela eu via o mundo

 
Eu tenho um outro blog — mais intimista e menos virado para as questões sociais — o qual, de quando em vez, me serve para por lá deixar lembranças e memórias. Foi no dia 14 de Outubro de 2005 que escrevi o texto seguinte. Ao relê-lo, agora, pareceu-me ter cabimento no «Fio de Prumo». Tem cabimento mais pelo que não diz, mas fica intuído, do que por aquilo que diz.
Pode parecer, ao leitor menos atento, uma página lamecha, talvez romanceada, mas creiam, tudo o que nela relato é perfeitamente verdade. E sentido!
Já passaram quase dois anos e meio sobre a data em que redigi o texto. Não vejo qualquer necessidade de acrescentar ou retirar nada ao que está dito.
Aqui fica.
 
 
Não sei qual o motivo, mas talvez por causa desta maldita constipação de nariz, na noite de hoje, dormi menos horas que nas anteriores.
Levantei-me um pouco antes das seis da manhã, depois de quatro de bom repouso.
Acordei sob o efeito de um sonho maravilhoso. Estava a passear na minha rua, a rua onde se situa o prédio onde nasci. Porque eu nasci em casa.
Recordo-a sempre como um rio que corre ao contrário, dos Anjos para a Graça, para o largo dos Sapadores, no começo da Penha de França. É a rua Angelina Vidal. Curioso que, entre nós, se cultiva o hábito, inculto, de não averiguar quem foi a personagem que dá nome à artéria onde vivemos. Coisa de gente sem prontidão para o trabalho de saber! Pois bem, Angelina Vidal foi poetisa, ficcionista, dramaturga e jornalista republicana nascida na segunda metade do século XIX e falecida, depois de anos de luta pelos direitos políticos e de cidadania da mulher, em 1917.
 
Hoje, a minha rua, é feia; encanada entre edifícios do começo do século xx, de um lado, e «modernos» apartamentos dos anos 50, do outro.
Quando era pequenito, onde agora estão as casas «modernas», havia duas moradias térreas, uma oficina de trabalho metalomecânico e uma quinta de pinheiros altos que descia em rápido declive para a rua Damasceno Monteiro. Depois, por cima desta paisagem próxima, estendia-se o olhar até quase alcançar o rio, abarcando-se mais de um terço da velha Lisboa. Lá longe, na linha do horizonte, ainda se vislumbrava a cúpula da basílica da Estrela, mais perto, a meia distância, o edifício do Instituto de Medicina Legal e uma parte do Hospital de S. José; um pouco para a direita, o casario da antiga Escola de Guerra e o hipódromo onde os cadetes, montando cavalos, saltavam obstáculos (como essa visão terá sido, também, determinante para o meu futuro!); tendo já de me debruçar da janela, viam-se as árvores do Parque Eduardo VII; ali, à mão de semear, o Martin Moniz, a avenida Almirante Reis, o começo da «Baixa», fervilhando de gente. Essa era a cidade que me habituei a ver, mas a vida e o mundo estavam mesmo debaixo dos meus olhos, na minha rua.
 
Logo em frente da porta do prédio onde pela primeira vez chorei trabalhava-se do nascer do dia quase ao anoitecer, ligando barras de ferro (como é bonita a chuva de efémeras estrelas que saltam da soldadura eléctrica! Morrem antes de chegar ao chão, sem deixarem rasto...), martelando, torcendo metais; os sons cadenciados chegavam ao segundo andar ainda palpitantes...
 
O trânsito era pouco; a rua vivia os sons de dentro não se deixando encantar com os que velozmente por ela deslizavam. De manhã, por esta hora a que escrevo, ouvia-se a voz sonora da mulher da fava-rica. Depois, mais tarde, era todo o desfilar de pregões das vendedeiras de fruta (de, no seu tempo, os «figos de capa rota»), de hortaliça (alface fresquinha), do peixe «do alto» (a pescada e o carapau). À tarde eram só frequentes as peixeiras com as canastras à cabeça, batendo o salto da chinela no empedrado da rua, quando bamboleavam os quadris em jeito de onda sensual; os longos peixes-espada cinzentos dependurados a enfeitar-lhes as canastras enquanto, ao meio, sobressaíam os cachuchos rosados de mistura com amêijoas, berbigões, sardinhas, chicharros e besugos já moles de muito mexidos. Às vezes, anunciando a chuva para o dia seguinte, lá vinha o amolador, soprando de modo especial uma gaita que soltava sons de paradoxal melodia e estridência. Sem dias nem horas certas, passava o ferro-velho, enquanto o limpa-chaminés, enfarruscado, vasculho na mão e cordas ao ombro, oferecia os seus serviços de manhã. O fim da tarde era o tempo da camioneta que fazia a distribuição dos cântaros de água de Caneças tapados com uma rolha de cortiça embrulhada num papel verde-alface. De tempos a tempos, ronceiro na ascensão e veloz na descida, vinha o carro «eléctrico» que, ao subir, tinha paragem mesmo em frente da porta do prédio donde observava o mundo. Saía gente e raramente alguém entrava (não valia a pena pagar bilhete para chegar ao largo da Graça! Tempos difíceis!).
 
Um pouco mais a baixo e um pouco mais acima da oficina, as duas vivendas eram habitadas por oficiais do Exército e suas famílias (mais outro apelo a seguir a carreira castrense): o Sr. Engenheiro (coronel daquela Arma) e o Sr. Major. Lá no prédio já sobranceiro às escadinhas, na curva, vivia um outro... Chegou a general e malogradamente morreu em Angola num acidente de aviação que ceifou todos quantos o acompanhavam: chamava-se Silva Freire (dou comigo a pensar neste momento: — Com tantos oficiais na minha «frente», será que funcionaram como uma espécie de espelho para o meu futuro? Ter-me-ei deixado impressionar com o aparato das fardas ou prevaleceram a educação nos Pupilos do Exército e a influência familiar?).
 
Ao ver todos quantos calcorreavam a minha rua, sem infantário para onde ir, foi, olhando-os, com a testa encostada à vidraça, que aprendi, pela mera observação, a crueldade das diferenças sociais, a brutalidade dos sistemas repressivos. Na maior parte das vezes, a aprendizagem era lenta e inconsciente, mas, momentos houve, em que a marca se fez como quem, pelo ferro em brasa, garante a posse do animal.
 
Hoje, a grande janela dos meninos para o mundo tem um nome novo! Chama-se televisão. Deixa-os ver o que outros programam. O sonho e a fantasia, a realidade, a alegria e a tristeza são fornecidos a conta-gotas como quem dá remédios ou venenos. Mas a vidraça é tão grossa que o real ganha tons de brincadeira, por isso a violência pode ser disponibilizada sob todas as formas e em todos os momentos. Comigo foi doutro modo. Eu conto.
 
Comecei por me aperceber do trabalho, fosse mecânico, braçal, intelectual, comercial ou de qualquer outro tipo. Na minha televisão os actores eram reais. Se para eles fazia sol e calor, para mim também; o frio chegava ao mesmo tempo à rua e à minha janela, tal como a chuva e o vento. Estávamos todos de pé; eles, porque na rua, eu, porque no banquito que me dava tamanho para alcançar o parapeito.
 
A primeira experiência com a mão pesada da repressão foi vivida à minha janela. Caso curioso, sobre quem queria ganhar a vida fugindo aos impostos!
Realmente, mais ao fim da tarde que de manhã, lá vinham, quase todos os dias, do lado de Sapadores os polícias cívicos perseguir as vendedeiras as quais, não olhando a prejuízos, fugiam rua abaixo, deixando cair o que das cestas ou canastras estava mal seguro; por vezes, até um chinelo ficava para trás. De todos os «cívicos» um, à paisana, aterrorizava-as mais do que qualquer outro: o «seis dedos»! Era expressão que soava com a rapidez do relâmpago: — Vem aí o «seis dedos». Antes perder parte da mercadoria que ir para a esquadra do «seis dedos»! Era uma repressão que me incomodava. Não compreendia como tão poucos podiam assustar tantos!
 
O mais brutal encontro com a repressão, com a violência gratuita, injustificada foi no fim de tarde de 8 de Maio de 1945 (a data soube-a mais tarde, como é evidente!).
Espontaneamente, vinda não sei de onde, começaram a descer a minha rua duas ou três dezenas de pessoas, talvez mais. À frente, um homem com uma bandeira de Portugal presa num pau. Pareceu-me grande a bandeira, muito grande. Lá em cima, na curva, junto às escadinhas, estava parada uma camioneta da PSP. Daquelas que não tinham portas, de bancos corridos como certos carros «eléctricos». De lá saltaram os «cívicos» de cassetete em punho e vá de dispersar, à pancada, todos quantos davam largas à satisfação de a Alemanha se ter rendido. Quem mais apanhou foi o homem da bandeira. Eu já sabia (fora o meu Avô quem me ensinara) que aquele pano verde e vermelho com umas coisas no meio era a bandeira de Portugal (os homens paravam, punham-se direitos, tiravam o chapéu quando a tropa passava com a bandeira à frente ou, quando ao pôr-do-sol, à porta dos quartéis, ela descia do mastro grande ao som de cornetas). A bandeira era Portugal; a República Portuguesa.
 
Nessa tarde de Maio, na insegurança dos meus quatro anos ainda há pouco completados, rebentava-me no peito a fúria da injustiça a que assistia da janela da casa que me viu nascer. Segurava-me a minha Mãe, não fosse baldar do banquito de onde via o mundo.
Como poderia a polícia bater em quem levantava tão alto a bandeira tão grande de Portugal? Ele, esse herói desconhecido da minha meninice, quanto mais era sovado mais erguia a mão onde segurava o símbolo que muitos respeitavam. Caiu no empedrado do passeio, junto à porta da oficina de metalomecânica, mesmo em frente da minha janela, quando, cercado de «cívicos», lhe batiam na cabeça, no tronco e lhe davam pontapés. Inconsciente, arrastaram-no para a camioneta sinistramente parada lá em cima na curva, junto às escadinhas. A bandeira, essa ficou no chão, espezinhada e rasgada.
 
Ainda hoje sinto a revolta daquele momento, a onda que me sufoca, a raiva que me dói. Afinal, a bandeira, a grande bandeira que um herói desconhecido levantava bem alto em sinal de alegria por se terem rendido os tiranos, continua rasgada, mais espezinhada, quase esfarrapada, caída no passeio em frente da minha janela, onde já não há oficina de metalomecânica, mas uma loja de ocasião num prédio «moderno», dos anos 50 do século passado. Uma só vez, depois do fim de tarde desse longínquo Maio, ela se ergueu, restaurada, remoçada, drapejando alegremente ao sol de uma nova aurora. Uma só vez! Faltava pouco para fazer vinte e nove anos que ali estava, aos olhos de todos sem que ninguém a visse... Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974. Eu já era oficial. Fardava como os outros da minha infância, mas sonhava um Portugal onde jamais alguém batesse no Homem da bandeira! Um Portugal justo, alegre, feliz, sem miséria e com trabalho para todos.
 
Quem foi que de novo derrubou, no empedrado do passeio, em frente da minha janela, a bandeira, a grande bandeira de Portugal? Quem matou, nos matou a esperança daquela madrugada? De que curva das ruas da vida e do mundo saíram estes cívicos que destroçaram os nossos sonhos? Que nos estão arrastando exangues, quase inconscientes, para um qualquer calabouço?
Desliguem as televisões, silenciem os rádios, tirem as letras aos jornais, mas deixem-nos sonhar com a Liberdade. Deixem as crianças do meu país crescer na esperança desintoxicada de terem uma janela para verem o mundo ser feliz.
Deixem…

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por Luís Alves de Fraga às 11:15

Domingo, 17.02.08

Parlamentares e militares

 
Há poucos dias saiu no Jornal de Notícias um excelente trabalho sobre os deputados da Nação. Aconselho vivamente os meus leitores a seguirem o link anterior e a lerem essa matéria. Depois, voltem aqui para uma pequena comparação.
Contudo, para aqueles que não quiserem dar-se ao trabalho de ler o artigo, fiz um pequeno resumo que se traduz no seguinte:
No ano de 2008 um deputado aufere, mensalmente, de salário base, qualquer coisa como 3.708 €, ou seja, mais 77 € do que no ano anterior. O presidente da Assembleia da República recebe a módica quantia de 5.810 € e mais, para despesas de representação, 2.950 €.
Todos os deputados que residam fora da área de Lisboa e concelhos limítrofes recebem ajudas de custo, em cada dia que haja plenário, ou seja, 67, 24 € por dia — como há plenário, pelo menos, duas vezes por semana… Faça o leitor a conta! Mas se residir fora da área da cidade de Lisboa, tem um subsídio para pagamento de combustível no valor de 0,39 € por quilómetro e, se a sua residência for nas Regiões Autónomas, tem direito ao pagamento das viagens de ida e volta, na classe mais elevada do meio aéreo que utilizar, uma vez por semana. No restaurante da Assembleia da República os nossos deputados pagam um almoço pela módica quantia de 4,65 €.
Pois muito bem, tudo isto independentemente de idade e habilitações académicas. Mas não acabam aqui as vantagens de pertencer àquele corpo de elite!
Com 12 (note bem, caro leitor, doze) anos de serviço como deputado os nossos políticos e representantes passam a ter direito a um subsídio vitalício, quando atingirem a idade de 55 anos, no valor actual de cerca de 1.850 €… Nada mau!
 
Agora convido o leitor a olhar, muito por alto, para a situação dos militares.
Na impossibilidade de analisar toda a hierarquia, escolhi quatro postos para termo de comparação: tenente-general, coronel, capitão e 1.º sargento. Passemos, pois à análise.
Um tenente-general — tem direito a automóvel por conta do Estado, com condutor militar — representa o topo de uma carreira já excepcional, porque o comum é ela acabar em coronel (equivalente a comandante de um regimento… qualquer coisa como cerca de mil homens entre combatentes e não combatentes). Normalmente, só se atinge o posto de tenente-general depois de mais de 25 a 30 anos de serviço. Usualmente, tem direito a ser abonado do almoço por conta do Estado. Só muito raramente aufere subsídio para despesas de representação e ganha por mês — com ou sem subsídio da condição militar — respectivamente 3.936,53 € ou 4.537,50 €, se tiver todos os escalões de serviço. Tem, ele e todos os outros militares do quadro permanente, direito à reforma vitalícia, aos 65 anos de idade. Reforma que, por legislação recente, passará a ser liquidada pela Caixa Nacional de Pensões e não pela Caixa Geral de Aposentações, segundo uma fórmula que lhe baixa substancialmente o valor a receber por mês. Isto mesmo é, também, aplicado a todos os outros militares.
Passemos ao coronel. Para lá chegar terá de ter, em números mínimos, cerca de 20 anos de serviço, sendo compulsivamente passado à reserva aos 57 anos de idade — e, 5 anos depois, à reforma — se não tiver sido promovido a major-general!
Os coronéis auferem de soldo (é assim que se designa, correctamente, o pagamento de um oficial) — com ou sem subsídio de condição militar e no máximo escalão de tempo de serviço — respectivamente 3.173,39 € ou 3.622,48 €. E é aqui que começa o descalabro!
Então não é que, de remuneração base, um deputado, com ou sem experiência de espécie alguma, sem limite de idade, sem obrigações académicas, sem mais isto ou aquilo, recebe, em números redondos, mais 86 € do que o máximo que um coronel pode receber! Onde está a equidade? Onde pára a lógica? Sim, porque um coronel no escalão máximo de tempo de serviço já viveu muito, já passou muito, já andou com a casa de um lado para o outro muitas vezes e já, se calhar, arriscou a vida em diversas oportunidades — ou está disposto a fazê-lo!
Note o leitor o meu caso particular, que vem a propósito de várias outras mordomias que são dadas aos senhores deputados. Durante 15 anos estive colocado em duas unidades que distavam, ida e volta, 64 quilómetros da minha casa e nem um centavo recebi de compensação por levar a minha viatura pessoal e particular para o serviço… Nem nunca recebi, também, subsídio de deslocação da área da minha residência! Veja, caro leitor, quanto teria beneficiado se fosse deputado!
Escandaloso é que um capitão, a quem é exigido a aprovação num curso superior e o cumprimento de uma série de obrigações, vença, segundo os critérios já anteriormente referidos, entre 2.131,06 € ou 2.470,23 € e um 1.º sargento — peça humana fundamental para a boa articulação das ordens entre os escalões hierárquicos superiores e as praças — tenha de vencimento entre 1.391,16 € e 1.622,99 €.
Escandaloso é que um deputado com 12 anos de serviço ganhe o direito a um subsídio — para não lhe chamar pensão acumulável — de 50% do seu salário a receber a partir dos 55 anos de idade! Catorze anos estive eu até ser promovido a major, mais sete neste posto e outro tanto em tenente-coronel… Como eu muitos outros oficiais.
Passará pela cabeça dos senhores deputados o que sente um militar do quadro permanente quando olha para as mordomias que são atribuídas a esses representantes do Povo!
A um militar, a condição de o ser retira-lhe a capacidade de intervenção política e, até, grande parte dos direitos de cidadania. Aquilo que, do ponto de vista cívico é retirado aos militares é dado, quase sem limites, aos deputados; uns vivem uma vida para terem direito a uma mísera pensão, outros uma dezena de anos!
 
Saber-se-á que um jovem oficial do quadro permanente, ao fim de oito anos, repito, oito anos de serviço, se desejar desvincular-se da vida castrense é passado ao quadro de complemento e perde todas as regalias — das poucas que ainda restam — e deixa de poder receber a percentagem de pensão que lhe cabe por esse tempo?
 
Saber-se-á que existem deputados que nem formação académica universitária possuem — auferindo mensalmente mais do que um coronel — e que há sargentos do quadro permanente com licenciaturas e, até, mestrados concluídos?
 
Interiormente, sinto uma tremenda revolta contra o actual estado de coisas. Os políticos, todos os políticos sem excepção, compactuaram com a pouca vergonha do roubo público! Aprovam leis — e propõem-nas — que, em primeiro lugar, os favorecem e, depois, pedem sacrifícios à Nação. Como se pode exigir moralidade na vida pública se os imorais tomaram de assalto as cadeiras do Poder?

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por Luís Alves de Fraga às 15:16

Terça-feira, 12.02.08

Hospital da Força Aérea, Chefes e outras coisas

General Luís Evangelista Araújo

Chefe do Estado-Maior da Força Aérea

 
Nada há de pior do que perder a cabeça quando se está a ter uma discussão. A emotividade é sempre má conselheira. Em contra-partida, a calma é a grande companheira da sensatez.
 
Vem isto a propósito da crónica anterior a esta no meu blog.
Com efeito o Sargento-Chefe Silva Nuno, com muita calma e grande ponderação, escreveu uma carta aberta que acolhi livremente no meu blog, por achá-la digna de ser lida e divulgada entre todos os que habitualmente consultam o «Fio de Prumo».
Esta carta provocou naturais «ondas de choque» entre os sargentos que a leram. «Ondas de choque» que mais não são do que outros tantos gritos de revolta, plenos de razão, mas gritados aos ouvidos de quem não tem que os escutar por não ter qualquer culpa na motivação que lhes deu origem. Realmente, contra as longas filas à porta do Hospital da Força Aérea (HFA) já eu, em 27 de Maio de 2007, me insurgi na crónica que intitulei «Bocas, notícias e informações». Quem duvidar pode lá ir ver!
Claro que, agora, devo recordar às Chefias da Força Aérea a responsabilidade que elas têm neste estado de coisas.
 
De facto, não são só sargentos que vão de madrugada para a fila da marcação de consultas à porta das instalações da Base do Lumiar! Conheço coronéis que por lá andam, também, na ânsia de conseguirem a tal consultazinha quase de favor! Eu recuso-me a entrar nessa fila!
As Chefias responsáveis — Director do Hospital, Comandante da Base do Lumiar, Director do Serviço de Saúde, Comandante do Pessoal da Força Aérea e Chefe do Estado-Maior da Força Aérea — já deviam ter tomado medidas contra tal estado de coisas. Toda a gente assobia para o lado e deixa que o espectáculo se vá repetindo semana após semana. No mínimo, esquecem-se que um dia serão reformados e poderão ter de estar na fila! Não se julguem isentos! Recordem-se do nazismo e do holocausto… Enquanto eram presos e levados para campos de concentração judeus pobres, os ricos julgavam-se ao abrigo de tal tratamento… Mas também chegou a vez deles! Também há-de chegar a vez dos Senhores Generais… que mais não seja, quando forem bastante velhos para que os Generais de então já não lhes tenham mais do que um pálido sintoma de respeito!
 
Há-de ser possível dar a volta ao sistema de marcação de consultas de modo a evitar este triste espectáculo e este lamentável incómodo para gente doente e com direitos… Talvez poucos, mas com direitos. Ou será possível que o Senhor General CPESFA não tenha capacidade para arranjar assessores, no meio da Força Aérea, para lhe implantarem um SIMPLEX mais eficaz do que qualquer outro imaginado pelos burocratas do Governo? Quando para obter a renovação do Bilhete de Identidade de cidadão português já só se tem de esperar quatro dias úteis, não serão os Serviços do EMFA competentes para estudarem e resolverem o problema da marcação das consultas do Hospital da Força Aérea?!! A profissionalização da Força Aérea tê-la-á levado à imobilização reformadora?
 
Sobre a postura das Chefias da Força Aérea gostaria de recordar um velho e esquecido Chefe de Estado-Maior que mostrou, num período bem mais difícil do que o actual, a sua qualidade de líder. Eu conto a estória.
Foi no final de 1978 ou no começo do ano de 1979, era CEMFA o General Lemos Ferreira, o Governo ameaçou fazer cortes substanciais no orçamento destinado às Forças Armadas e, muito especialmente, no da Força Aérea. Aquele General — que não temia, nem estava na cadeira de Chefe por favor político — só tomou a seguinte atitude: mandou para todos os órgãos de comunicação social um comunicado afirmando que a Força Aérea, a verificarem-se cortes orçamentais, deixaria de cumprir as missões que lhe estavam atribuídas no âmbito externo, nomeadamente no da OTAN.
Como se vê o Homem tinha coragem! Pode ter exorbitado aqui ou ali, durante o período em que esteve à frente dos destinos da Força Aérea, mas frontalidade e coragem não lhe faltaram. E disso sou testemunha, porque vivi esse tempo. E não se diga que eram épocas diferentes das de agora! O que é diferente é a forma como os Chefes da Força Aérea atacam e enfrentam os problemas actuais.
 
A atitude das Chefias é diferente, porque não tendo coragem ou, tendo-a, não querem dar dela público manifesto, dão, assim, mostras de uma subserviência ao poder político que envergonha a tropa que comandam.
Claro que se cometeu, há muitos anos, um tremendo erro de cálculo — o qual só tem justificação na ingenuidade dos militares que estiveram à frente do processo revolucionário — quando se acabaram com os ministérios militares, concentrando no Ministério da Defesa Nacional a tutela das Forças Armadas. É que, quem quer governar, diz o Povo, divide e ao unir sob a mesma batuta os três Ramos entregou-se de bandeja todo o poder nas mãos de uma só pessoa. Erro crasso!
 
E o problema levantado pelo General Garcia Leandro, no artigo que publicou no Expresso e na entrevista dada ao Correio da Manhã, parecendo que nada tem a ver com uma simples fila de utentes militares à porta do Hospital da Força Aérea, está em tudo com ela relacionado, pois traduz um mal-estar da Nação para o qual os Chefes militares deveriam chamar a atenção do Poder, porque esse estado de espírito também corrói dentro das fileiras.
É necessário que os Generais na situação de activo tomem consciência da grave situação nacional e sejam capazes — como Chefes a quem compete a defesa militar da Nação — de se posicionar de modo a clamarem junto do Governo contra as graves distorções sociais e económicas que se estão a verificar. Como reserva moral da Pátria, as Forças Armadas não podem ficar neutrais e indiferentes ao que se passa à sua volta: não têm que interferir, mas têm o dever moral de alertar para o sentir do Povo, porque Portugal caminha, a passos bem largos, para uma situação de ruptura social.
O que pode acontecer, não faço ideia!

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por Luís Alves de Fraga às 10:14

Sábado, 09.02.08

Um grito de revolta

Fotografia n.º 2

 

Fotografia n.º 3

 

Fotografia n.º 4

 
É com muita honra que publico no meu blog este grito de revolta do Sargento-Chefe Carlos Sousa da Silva Nuno, reformado da Força Aérea Portuguesa.
Recebi esta carta aberta pela Internet, acompanhada das fotografias que se seguem.
Aqui fica um testemunho do sentimento de mais um militar que foi capaz de o expressar por escrito e com respeito.
Honra lhe seja feita
 
 
Excelentíssimos Senhores
Em boa verdade nem eu próprio sei como classificar o teor desta carta. Os Senhores lhe darão a classificação que entenderem. RECLAMAÇÃO? LAMENTO? PEDIDO? REVOLTA?
REVOLTA pela maneira como eu e mais uns milhões de portugueses fomos enganados nas promessas eleitorais do Senhor 1ºMinistro. Se V. Ex.ª tivesse dito que ia tirar, em vez de dizer que dava, não estaria certamente no lugar que ocupa. Enganou-me, tirou-me e continua a tirar-me porque eu sou um dos elos mais fracos e a quem é mais fácil chegar, fácil e cómodo. Pertenço à classe dos militares reformados, a classe a que o Governo chama funcionários públicos dando-lhe nitidamente a conotação, que havia antigamente, do chamado manga-de-alpaca. V. Ex.ª faz-me lembrar o indivíduo alcoolizado que chega a casa e desata a bater na mulher e nos filhos que é quem tem mais à mão e em quem é mais fácil, descarregar as iras. V. Ex.ª fá-lo em relação aos mais necessitados pois, como há dias disse publicamente o Sr. general Garcia Leandro, é um escândalo o que se paga a membros de certos cargos. Mas esses estão salvaguardados, com o futuro bem garantido porque parece que são intocáveis, se calhar por pertencerem às mesmas famílias políticas que têm constituído os governos. Quero informar que não sigo em rigor nenhuma linha política mas, de facto, nunca esperei vir a ser tão humilhado e enxovalhado, na qualidade de velho militar de carreira e agora votado a quase completo abandono e desprezo por parte do Governo. REVOLTA por constatar que V. Ex.ª, Senhor 1º Ministro, não gosta de nós, nós que lhe demos a possibilidade, em 25 de Abril de 1974, de agora estar no Governo com todas as prerrogativas de fazer o que muito bem entende. REVOLTA pela maneira como funciona o serviço da ADM ao qual eu tenho pleno direito mas que parece ser um favor que me está a ser concedido. Classificou de privilégios os direitos adquiridos ao longo dos anos e que o Governo, abruptamente, entendeu retirar como medida absolutamente populista, aliás como é apanágio do Senhor 1º Ministro e que é anunciar coisas que caem bem na opinião pública mas alheando-se, ou fingindo que não percebe, que tem TODOS os ramos de actividade do país em protesto. LAMENTO porque anui de alma e coração aos ideais do 25A, do MFA, não enjeitando porém, a honra de ter participado na guerra do Ultramar, em que se dizia, então, na defesa da Pátria. Cumpri como me competia e é com orgulho que ostento nos meus documentos condecorações e louvores. E V. Exª onde estava? Sabe o que foi ser militar nesse tempo? REVOLTA por agora ser tratado como lixo que já não presta e que se deita fora com o maior despudor e indiferença. A ADM, integrada no IASFA, não dá conta do recado, fruto de uma alteração forçada no sistema de saúde para a qual ninguém estava preparado. Veja-se o que se passa no Hospital da Força Aérea ao qual recorro. Para marcar algumas consultas é preciso ir para a Porta de Armas às 5 ou 6 horas - (no dia 6 éramos cerca de 60 pessoas) - Foto n.º 2 - esperar que o sentinela nos deixe entrar às 7H30, esperar depois à entrada do edifício - Foto n.º3 para às 7H45 entrar então para a sala - Foto n.º4, onde se começam a tirar as senhas e depois às 8H30 começarem as marcações que, não raras vezes, já não se conseguem. Mesmo as que se conseguem são, em média, para daí a 2 meses. Em Gastro só há um médico a dar consulta; sabe-se que não há ordem para contratar médicos para substituir os que se vão embora, como sucedeu recentemente em Urologia. Houve um médico que me disse que ia deixar de dar consulta e quando lhe perguntei o que seria dos doentes respondeu com a maior descontracção - "isso é problema da Força Aérea" .É este o apoio que os reformados militares têm, depois de anos e anos a servir o País? Já nos retiraram as comparticipações que tínhamos nos medicamentos, dizem que sou aumentado mas há dois anos que recebo menos dinheiro ao fim do mês. V Ex.ª, Senhor 1º Ministro, costuma dizer que é natural que ninguém goste de perder privilégios. E o Senhor gosta? Se não, porque se serve deles? Como acha que era um privilégio o que os militares tinham vou só lembrar-lhe um episódio. Quando V. Ex.ª teve o acidente, nas férias na Suíça, e precisou de ser intervencionado recorreu ao hospital da sua zona de residência? Foi para a Porta de Armas do Hospital da Força Aérea, como eu, para marcar consulta? Não. V. Ex.ª beneficiou do privilégio e foi imediatamente atendido. Só por curiosidade gostava de saber, além de não ter tido o incómodo de estar junto de mim na rua, ao frio ou à chuva às 6 horas, qual o cartão que o credenciou e qual a taxa moderadora que pagou. Sim, porque que me conste o Senhor não é e julgo que também não foi militar, portanto estará ao nível de beneficiário da ADSE. Também o posso informar que o Senhor, quando foi operado, passou à minha frente que aguardava vaga havia cerca de um ano para também ser operado a um joelho. E porquê? Por ser 1º Ministro? Mas o Senhor, tal como todos os outros membros do Governo são pagos por mim e pelos outros contribuintes, portanto não têm o direito de atropelar quem lhes paga. Como V. Exas. calcularão esta carta, bem como as fotos, vai circular na Internet e pode ser que alguém resolva faze-la chegar à comunicação social. Eu não o faço por vergonha, pois basta ver o meu orgulho ferido quando os autocarros da Carris passam junto ao H. da F. A. e se nota que alguns passageiros fazem chacota ao ver aquela gente ali, na rua, na sua maioria velhos como eu. È este o " reconhecimento " do Governo que, ao invés de se orgulhar e compensar os velhos militares de carreira os humilha desta maneira? PEDIDO, que V. Exas. sejam breves nas represálias que pretenderem exercer sobre mim. É que vou a caminho dos 74 anos; já fui operado 17 vezes; já nada cá ando a fazer; já não tenho quem dependa de mim; já nada me importa em termos de futuro e, se demorarem muito tempo, já não lhes darei o prazer de me verem espernear de raiva, de dor, de sofrimento e de arrependimento por ter ajudado à possibilidade de V. Exas. me enxovalharem como têm feito. Mais uma vez evoco as palavras do Sr. General Garcia Leandro: "Isto tem que mudar "e não seria boa imagem para o seu ego ter que fazer como o outro que, em desespero, incendiou Roma para mostrar o seu poder.
Respeitosamente
Carlos Sousa da Silva Nuno
Sargento-Chefe OPCOM/Reformado

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por Luís Alves de Fraga às 08:20

Quinta-feira, 07.02.08

Vamos ver o que acontece

 
Faltam pouco mais de dez anos para passar o centenário do assassinato do Presidente da República, Sidónio Pais. Foi à entrada da estação ferroviária do Rossio. Mas, dentro de meses, faz noventa anos sobre esse dia 14 de Dezembro de 1918 no qual um outro Costa desferiu as balas de pistola que mataram o ditador chamado por Fernando Pessoa Presidente-Rei.
 
Ditador ou não, amado ou odiado, Sidónio Pais foi Chefe de Estado, assim como D. Carlos I. Foi mais do que D. Luís Filipe, que não passou de um aspirante ao cargo desempenhado por seu pai, por isso, na lógica republicana, não passível de ser incluído na homenagem feita ao assassinado rei, mas que os monárquicos, pressurosamente, nela abrangeram.
 
Tenho uma certa curiosidade em ver o que a imprensa diz lá para do mês de Dezembro e, mais do que isso, tenho interesse em observar a reacção dos editores e livreiros. Será que vão buscar aos armazéns toda a casta de obras esquecidas sobre Sidónio Pais para a exporem nos escaparates à espera de uma venda oportunista?
 
Pensarão os leitores que sou mesquinho nestas apreciações! Creiam que não me move tal sentimento. Vou mais longe na minha preocupação. Mais longe, porque me deleito a observar a falta de verticalidade, de força, de entusiasmo, de paixão, deste Portugal republicano. Os brandos costumes não são, afinal, nada mais do que uma falência no carácter colectivo do nosso Povo. Damos vivas a este, hoje, como, amanhã, poderemos dar ao outro. Faltam-nos convicções; que não as há boas ou más… Ou se têm ou não. E quem as não tem comporta-se como nós! É por isso que transitam as maiorias de um para outro partido! Porque, onde imperam as fortes convicções, perduram os senhores do Poder, em especial quando ele é exercido democraticamente. A alternância é difícil, mas, se ocorre, é por castigo.
 
Vamos ver o que acontece lá para Dezembro…

 

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por Luís Alves de Fraga às 23:21

Terça-feira, 05.02.08

Outra vez a corrupção

 

A notícia escapou-me, no Correio da Manhã do passado dia 3 do corrente mês, mas mão amiga fez chegar-me o aviso e lá fui consultar o periódico.

Escarrapachada vinha a notícia do deputado António Preto, do PSD, cujo nome apareceu ligado a um processo de corrupção, em 2003, estar indigitado para «relator do novo projecto de transposição da Directiva europeia de combate ao branqueamento de capitais e utilização do sistema financeiro para o financiamento do terrorismo».

 

É verdade que toda a gente se presume inocente até se provar a culpa, mas, também sabemos que «em política o que parece é» e que «à mulher de César não basta sê-lo, mas, também, parecê-lo».

 

Façam o favor de ler a notícia, porque não quero parecer alarmista.

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por Luís Alves de Fraga às 21:02

Terça-feira, 05.02.08

Mais uns para outro conflito

 
O matutino Correio da Manhã dá hoje a notícia de, no mês de Março, seguirem para o Chade 30 militares da Força Aérea e mais uma aeronave Hércules C-130 para integrar a missão da União Europeia que por lá tenta controlar a situação e evacuar os estrangeiros.
Não tenho nada contra esta medida de política e diplomacia nacional. Acho mesmo que se queremos estar na Europa, devemos tomar parte nas operações militares de paz, ou não, determinadas pelos órgãos de decisão colectiva.
 
O que está mal não é a prática deste tipo de política. O que está errado é pretender estar ao nível dos outros Estados europeus e pagar aos militares muito abaixo daquilo que na Europa se paga.
Dirão os mais informados: — Pois é, mas vão para o estrangeiro ganhar mais uns euros do que se por cá ficassem!
Melhor seria que assim não fosse! Mas acresce que também os Franceses, os Belgas ou os Alemães quando participam nessas missões ganham mais. O mal está no pagamento base que os militares auferem. Se formos a fazer contas, pelo preço que segue um especialista militar para uma missão desta natureza anda por cá muito malandro a roçar o traseiro em cadeiras de salas de reunião sem uma décima parte dos riscos corridos por aqueles que se oferecem para tais operações. E isso não é denunciado! Porquê? Uns são filhos de senhoras e os outros de mulheres? Uns são inteligentes e os outros idiotas? Uns são úteis e os outros inúteis?
Quando será que os governantes nacionais perdem o centenário complexo de desprezar as forças militares? Quando deixarão de considerar desnecessário o financiamento da defesa?

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por Luís Alves de Fraga às 07:00

Sexta-feira, 01.02.08

D. Carlos I: um centenário

 
Faz hoje cem anos que D. Carlos I foi assassinado.
Sou visceralmente contra a pena de morte e contra os assassinatos de qualquer natureza. Estou contra o assassinato de D. Carlos e D. Luís Filipe, contra o de Buíça e de Costa, os assassinos.
Não festejo nenhuma das mortes, nem considero uns como dignos de serem vítimas e outros como devendo ser incensados como heróis.
Procuro compreender o acontecimento, nada mais.
 
D. Carlos I era um homem culto e inteligente, educado para ser rei. Tinha sentido de Estado. Mas era, também, um homem arrogante, distanciando-se de todos os que o serviam por ter bem arreigado em si a superioridade de um sentimento fora do tempo: a de um absolutismo sem lugar no começo do século XX. Às suas qualidades correspondiam os defeitos inerentes. Podia ser amado por quem o aceitasse tal qual era, mas detestado por todos quantos não lhe reconhecessem direitos de superioridade para além dos que resultavam de ser o descendente de uma antiga família. Mas, famílias antigas, não faltam em Portugal!
 
D. Carlos foi vítima de si mesmo, tal como o foram os seus assassinos. Todos escolheram os caminhos que haviam de trilhar os quais desembocaram, encontrando-se e cruzando-se, há cem anos, na praça do Comércio.
 
D. Carlos foi vítima do circunstancialismo político que rodeou os últimos anos da Monarquia. Uma Monarquia em decadência, por causa da decadência dos partidos políticos que a sustentavam e lhe davam rosto, por causa de um país atrasado, analfabeto, economicamente débil. Um país onde abundavam as fortunas pessoais, os compadrios, os favores políticos, a sinecuras, as traficâncias políticas, a corrupção e, para que tudo isto fosse possível, de quando em vez, afloravam as medidas repressivas: a lei da rolha para a imprensa e as deportações sumárias dos adversários políticos para as terras de África e de Timor. O 31 de Janeiro de 1891, celebrado ontem, foi testemunha de mortes, feridos e deportados com que se iniciou o reinado de D. Carlos I.
 
Ainda se contam por algumas dezenas os políticos — incluindo neles os Chefes de Estado — que, em Portugal, foram vítimas de assassinatos, mas de todos poderíamos dizer o mesmo que de D. Carlos: estavam no momento errado, no país errado a dar continuidade à política errada. Recordemos Inês de Castro, mandada matar por D. Afonso IV — foi, sem qualquer dúvida, um assassinato político — o conde Andeiro ferido de morte, em 1385, por aquele que veio a ser D. João I, o infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira — também num assassinato político — D. Diogo, duque de Viseu, assassinado, em 1484, por D. João II, Miguel de Vasconcelos morto pelos Restauradores, em 1640, os Távoras mandados assassinar por D. José I e tantos mais que enumerar seria fastidioso. Todos se encontravam mal colocados no tabuleiro da política nacional.
 
O alarido à volta deste centenário resulta, enfim, de ainda existir em Portugal quem acalente a peregrina ideia de uma restauração monárquica. Nada mais! Ou, talvez, porque ainda há quem sonhe com casamentos reais, com nobilitações — que não resultem das que vêm do honesto trabalho, forma nobilitante de burgueses e proletários! — sonhe com pompas e circunstâncias que tiveram a sua época e são inadequadas a um país que se debate numa crise económica tremenda, que, mais uma vez, mostra não conseguir passar da cauda da Europa seja esta a doze ou vinte e sete. Isto, ao cabo e ao resto, quer dizer, tão-somente que, como Povo, continuamos iguais há cem anos. Talvez, com menos analfabetos, com melhor sistema sanitário, mas com as mesmas características que nos apoucam no contexto de todos os europeus.
 
Que os monárquicos celebrem a morte do seu rei em paz e que os republicanos chorem a morte de Buíça e Costa, os regicidas, é a demonstração de quanto uns gostavam de um Portugal atrasado e outros de um Portugal evoluído. Para mim, nada mais representa do que o fruto de uma rivalidade que já não tem razão de ser, porque os rios correm para o mar e a mesma água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte.

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por Luís Alves de Fraga às 10:01


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