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Fio de Prumo



Quinta-feira, 27.12.07

Quando todos são, ninguém é

 
Não tenho a certeza sobre a veracidade da história, mas conta-se que depois de uma qualquer batalha conduzida por Garibaldi, durante o processo de unificação da Itália, ele, satisfeito com o brilhante resultado conseguido, terá dado, como recompensa, a todos os soldados o título de marquês. Não seriam muitos, mas foi o suficiente para inflacionar o grau da nobreza da península itálica. Não conta a História se o fez, porque, sendo republicano, queria desacreditar a monarquia e os seus títulos nobiliárquicos, contudo, o efeito prático foi, sem dúvida, esse.
 
Em Portugal, país pequeno, e fortemente hierarquizado do ponto de vista social, no qual, até há cem atrás, possuir mais um, dois ou três hectares de terreno de lavoura podia fazer a diferença entre ser-se considerado pobre, remediado ou rico, conforme os distritos do continente ou dos arquipélagos adjacentes, ter-se um vencimento fixo e pago pelo Estado dava estatuto económico, num país assim, ser-se detentor de um diploma universitário quando só existia uma Universidade, era como desfrutar de um título de nobreza ainda que de pequeno escalão. Bacharel ou doutor era ter um passaporte para um bom casamento, um cargo aceitável e um rendimento que tirava da mediania. E se fosse médico ou advogado, isso, então, era certo e sabido que se tinha passagem garantida para a fortuna na meia-idade. E tudo foi assim, ou quase, até aos últimos anos da ditadura.
 
Com a democracia e a liberdade, há trinta e três anos, surgiu o ensejo de Universidades privadas se implantarem, outras estatais foram criadas nas capitais de distrito, os institutos politécnicos proliferaram e, quase de um dia para o outro, Portugal encheu-se de bacharéis, licenciados, engenheiros, mestres e muitos doutores. Foi absoluta a inflação de diplomados: os enfermeiros passaram a ser, também, licenciados, os técnicos analistas, os publicitários, os jornalistas, os professores primários e os educadores de infância todos têm, agora, um grau universitário. Assim, ficou-se em Portugal, como na Itália de Garibaldi, com muitos milhares de Dr.s tantos que até já se chama Dr. a quem não tem qualquer diploma universitário, porque, na dúvida, mais vale errar por excesso do que por defeito.
Tantos Dr.s feitos de qualquer maneira lembram-me a nova nobreza dos tempos da falida Monarquia que vendia títulos de barão e visconde a todo aquele antigo armazenista ou brasileiro de torna viagem que dispusesse de cabedais suficientes para comprar a nobilitação. E tal foi a ânsia dos monarcas em arrecadar o ouro, que se trocava por um brasão, que surgiu a frase ainda hoje conhecida: «foge cão que te fazem barão! Para onde se me fazem visconde?!». Para onde hão-de fugir todos os que não tendo cursado a Universidade são doutores à força por vontade de uns quantos?
 
Pois é! Os únicos que deveriam ficar imunes a este desejo de doutorice eram os oficiais das Forças Armadas. Para eles chegaria o posto para os distinguir de todos os cidadãos! Bastava que pusessem, com atenção, os olhos na estátua, por exemplo, do duque de Saldanha, em Lisboa. Se o fizessem veriam que, antecedendo o título, lá está a graduação militar daquele oficial liberal: Marechal duque de Saldanha e não Duque marechal de Saldanha. E está da primeira forma por um motivo assaz simples: duque, qualquer um podia ser, bastando para isso que o rei o dispusesse, mas para alcançar a graduação de marechal tinha de se começar por ser, por vontade própria, soldado e ir conquistando os postos, um após outro, através de provas que se prestavam. Provas que não eram, nem são, simples! Pois são dadas todos os dias e avaliadas em cada hora!
 
Estou perfeitamente à vontade para criticar a instituição militar, porque só me falta um grau académico para os ter todos, mas dou e continuo a dar maior importância ao facto de ser coronel, porque essa graduação é o resultado de uma vida oferecida ao serviço da Pátria. Oferecida, porque o dinheiro que recebi em cada mês não chegou, nem chega, para pagar a disponibilidade que a minha escolha implicou. Porque, sendo militar — e militar sê-lo-ei até à morte — tenho direito a ter sobre o ataúde onde repousarei, até que o fogo do crematório desfaça o meu corpo em pó, a ter, sobre o ataúde, dizia, a bandeira de Portugal. E terei honras militares — que não dispenso — à entrada do cemitério.
 
Assim, não compreendo a necessidade de um oficial das Forças Armadas ter de ser licenciado e mestre e, até, doutor por disposição do próprio estatuto. E não compreendo, porque num país onde todos são Dr.s já ninguém o deveria ser; bastaria a simples identificação de Senhor. Contudo, na minha opinião, com os militares não pode nem deve ser assim, porque nós, por sermos poucos, vamos sê-lo até à morte! Essa é a nossa superioridade. Essa é a nossa honra. Essa é a nossa distinção. Ser Dr. para quê?!

 

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por Luís Alves de Fraga às 09:07


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