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Fio de Prumo



Quinta-feira, 28.06.07

Nós e os Ingleses

 
O tempo passou, mas a mágoa deles
e de tantos outros com o mesmo drama
não desapareceu. São dores profundas
que ficam para sempre.
Já quase não são notícia no jornal e, por isso mesmo,
são motivo para a nossa reflexão.
 
 
Vieram passar umas pequenas férias ao Algarve e alguém raptou-lhes a filha de tenra idade. São ingleses.
 
São inúmeras as crianças portuguesas que desaparecem em Portugal. Se calhar também é elevado o número de crianças africanas desaparecidas no nosso território. Mas o caso da criança inglesa passou, de imediato, para as primeiras folhas dos nossos jornais e para a dos jornais ingleses.
 
Será que em Inglaterra não desaparecem crianças? Pelo que parece, até dá a sensação de que não.
 
Não quero imaginar a dor, a aflição dos pais da criança desaparecida; nem a desses pais, nem a de todos os que passam pelo mesmo! Deve ser horrível!
Mas parece-me que deve, ainda, ser mais horrível os pais de todas as crianças desaparecidas em Portugal assistirem à visibilidade que foi dada ao caso da criança inglesa quando os seus dramas familiares não passaram de uma notícia nas páginas interiores dos jornais e, se calhar, nem chamou a atenção das estações televisivas.
A esses, os pais cujo drama não teve visibilidade, assiste-lhes o direito de se sentirem revoltados. Revoltados contra os órgãos de comunicação social nacionais, porque se prontificaram a dar um extraordinário destaque a um drama semelhante ou mesmo igual ao seu, quando o deles não passou de uma mera notícia; revoltados contra o empenhamento das forças policiais e de investigação criminal, quando nos seus casos, se calhar, se depararam com montanhas de burocracia.
Respeito a revolta desses pais e desses familiares que não foram recebidos pelo papa, que não tiveram direito à circulação da fotografia dos seus pequenos desaparecidos na Internet, que não foram longamente entrevistados por jornais ou estações de rádio. Respeito e até compreendo.
 
O que não compreendo é esta nacional vocação para estarmos sempre prontos a satisfazer as reclamações dos Ingleses, a atendermos todos os seus caprichos, a ouvirmos todos os seus remoques, a acatarmos as suas críticas, a fazermos eco das suas notícias, dos seus mexericos.
Já foi assim no século XIX quando eles escravizavam a sua própria população, explorando-a até à morte, através do seu sistema capitalista que sustentou a mais iníqua economia europeia e, muito preocupados com o bem-estar da humanidade, perseguiam os navios portugueses suspeitos de transporte de escravos para o Novo Continente. Foi assim quando o maior chocolateiro do mundo resolveu fazer “guerra” ao maior produtor de cacau do mundo — Portugal, através de S. Tomé — acusando-o de os trabalhadores estarem sujeitos a um regime de escravatura. Foi assim, quando, umas dezenas de anos antes, desembarcaram os exércitos ingleses em Portugal para ajudar na luta contra as hostes napoleónicas e a primeira coisa que fizeram foi destruir todos os teares e toda a pequena indústria de tecidos nacionais… Impunha-se que importássemos os tecidos das suas fábricas.
De rol de humilhações basta, embora a imprensa britânica esteja disposta a desenterrar a vida passada dos nossos inspectores da Polícia Judiciária para os julgar no tribunal da opinião pública por alegada incompetência! E o descaramento vai ao ponto de se verificar quanto tempo estes esforçados lutadores do bem contra o mal gastam a almoçar e quantos copos de cerveja bebem durante a refeição! E quem o diz são os jornais ingleses, incapazes de medirem os litros de vinho, de cerveja e de gin consumidos na sua isolada, orgulhos e altiva ilha.
Para quando os nossos jornais e televisões destinam grandes espaços para desmascarem a prática de xenofobismo contra os trabalhadores portugueses no Reino Unido? E para mostrarem, até às últimas consequências, o trabalho escravo a que os nossos emigrantes se sujeitam para ganharem umas míseras libras? E para desmascarem toda a perfídia dos empregadores ingleses? E para porem a descoberto a barbárie das claques de futebol?
Não será já tempo? Não será já tempo de mostrar que temos orgulho do que é nosso e que não aceitamos lições da Inglaterra?

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por Luís Alves de Fraga às 09:48


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