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Fio de Prumo



Quinta-feira, 15.02.07

Duas carreiras paralelas

Naturalmente, os meus leitores não encontrarão qualquer tipo de semelhança entre a actividade de um diplomata de carreira e a de um oficial das Forças Armadas. Não encontram, porque, no que de mais aparente tem cada uma das funções, elas divergem em absoluto. Um diplomata destina-se a negociar a representação do seu país em tempo de paz e o militar empenha-se na luta armada quando a sua pátria corre perigo. Nada há de mais oposto, parece. Parece... Contudo, se nos deixarmos ir para um plano bem mais elevado do que o simples desempenho de funções verificaremos que ambas as carreiras — a diplomática e a castrense — têm pontos fundamentais em comum, porque se completam. Vejamos.
 
Quando, no negócio internacional, as conversações esbarram e os assuntos assumem a dimensão do conflito este tende, de imediato, a tornar-se um assunto militar, porque, afinal, diplomatas e soldados têm como objectivo basilar defender os superiores interesses da nação, prosseguindo a Estratégia Nacional que tiver sido definida para garantir o bem-estar da população do Estado. Mas, curiosamente, a acção dos soldados — e aqui falo em sentido lato — não aponta para a guerra pela guerra. Não. Ela orienta-se para a criação de oportunidades políticas que permitam à diplomacia retomar os diálogos perdidos de modo a, pacificamente, se encontrar a solução mais conveniente. Eis a verdadeira função de uma tropa regular. Todavia, por vezes, a vontade do adversário é de tal modo difícil de contrafazer que só a derrota total soluciona o diferendo que deu origem à guerra. É esta última actuação dos militares a que parece dar um cariz agressivo às Forças Armadas.
 
Como se viu, o diplomata e o soldado estão no começo e no final de um círculo onde as acções de um podem justificar as do outro; nem o diplomata, nem o militar exerce uma actividade menos importante, porque, em termos absolutos ambos são soldados ao serviço do Interesse Nacional. Por mera curiosidade, não vai muito longe o tempo em que os diplomatas de carreira usavam uniforme de gala, adornado com uma espada... O significado, estava à vista.
A grande diferença que surge entre o empenhamento diplomático e o castrense é simplesmente uma questão de número de indivíduos envolvidos na acção. Com efeito, a diplomacia faz-se com um minguado efectivo de representantes do Estado e, em contrapartida, o conflito armado exige um grande número de homens devidamente hierarquizados e prontos a operar com máquinas complexas que lhes ofereçam condições de sobrevivência no campo de batalha. Só neste singular aspecto um embaixador se distingue de um general quanto aos fins últimos prosseguidos por ambos.
 
Vem tudo isto a propósito de uma pequena, embora verrinosa, notícia saída há dias no matutino Correio da Manhã, que poderá ser lida se para tal se tiver curiosidade.
No essencial, dizia-se que um diplomata, quando regressa a Portugal, vindo de um posto no estrangeiro, para aqui passar a desempenhar funções no Ministério, tem direito ao abono de instalação igual a cinco vencimentos ilíquidos da sua categoria.
 
Irra, que é obra! Cinco vezes o seu ordenado corresponde a qualquer coisa como quase um terço do total auferido num ano! É muito! É mesmo muitíssimo. E é muito, se compararmos a situação de um militar, que tão depressa pode estar em Bragança como na cidade da Horta, na ilha do Faial. Claro que, dirão os meus contraditores, é diferente uma reinstalação dentro do território nacional, ao fim de uma deslocação de dois anos, e a de alguém que esteve dez ou mais lá por fora. Claro! Mas quem esteve esses anos no estrangeiro também auferiu de acordo com tal estadia.
Repare-se só no simples facto de um militar deslocado de um aquartelamento para outro continuar a receber o mesmo dinheiro — tendo, contudo, de fazer face a despesas consigo na área para onde foi deslocado e continuar a suportar as do seu agregado familiar, que poderá não o ter acompanhado — e um diplomata que aufere, no seu posto, no estrangeiro, três remunerações diferentes: uma, para despesas de representação, outra, a título de subsídio de renda de casa — se não a tiver por conta do Estado — e a terceira como subsídio de educação para os filhos — caso os tenha e estejam a seu cargo. Tudo isto, claro, para além do ordenado correspondente à sua categoria dentro do quadro de pessoal diplomático.
 
Em face do que deixo escrito, bem se pode dizer que, em carreiras paralelas, uns são filhos e outros enteados! E pode dizer-se mais... É que anda por aí muita gente “a comer à mesa do Estado” ricos “petiscos” enquanto outros, acusados de se banquetearem com lautas “refeições” — segundo a opinião dos senhores ministros, claro — se limitam a “roer” uns míseros e descarnados “ossos”.
Às vezes tenho pena de ter nascido, aqui, neste rincão ao qual tenho amor excessivo!

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por Luís Alves de Fraga às 15:36


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