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Fio de Prumo



Quarta-feira, 13.12.06

Um ditador sanguinário

 

Há dias morreu Augusto Pinochet. Foi general das Forças Armadas do Chile e, também presidente da República. Pela forma bárbara como se alcandorou ao Poder e dele fez uso não pode ser esquecido no mundo politicamente civilizado.

 

Responsável moral e material da morte e tortura de muitos milhares de homens e mulheres, no Chile, hoje não serão, por certo, muitos os que ali o choram.

 

Pinochet representa o lado perverso do Poder militar, razão pela qual perco tempo a escrever sobre ele.

 

A nós, a todos nós militares, ensinam-nos que o amor da Pátria se sobrepõe a todos os amores, até ao da própria vida. Pela Pátria estamos preparados a todos os sacrifícios. Mas a Pátria tem um rosto. Para uns, ela é o sentimento doce do lugar onde nascemos, com tudo o que sentimos pelas pessoas que amamos, pela gente que nos circunda, pelos valores morais e cívicos que nos formaram e enformaram desde a mais tenra idade, pela língua que falamos, pela História que aprendemos, pelas saudáveis tradições que herdámos; para outros, ela sintetiza-se e confunde-se com a vontade do Poder político já que ele é, supostamente, a emanação da vontade popular ou seja da vontade de tudo o que amamos na nossa terra. Estranhamente, ama-se a Pátria da mesma maneira siga-se o primeiro entendimento ou o segundo.

 

Os desvios dão-se quando a identificação do Poder político se faz através de uma falsa colagem a um bem-estar da Pátria pervertido pelo mesmo Poder. Dito de outra maneira, quando, em nome da Pátria, o Poder político, em vez de ser condutor por força da vontade popular, é um condicionador dessa mesma vontade. Isso acontece quando o Poder se assenhoreia da verdade absoluta — que não existe — e limita as vontades individuais expressas em órgãos colectivos.

 

No Chile, no início dos anos 70 do século passado, para o bem ou para o mal, a vontade popular havia escolhido para presidente da República um socialista cuja postura não o invalidava de se aproximar do pensamento de Karl Marx, procurando colher os fundamentos da justiça social a praticar numa linha pragmática conciliadora de dois interesses quase sempre antagónicos. Numa palavra, deu voz e ouviu as gentes mais oprimidas pela exploração capitalista no seu país. Isso não agradou ao lado mais conservador do tecido social chileno. Lado que, aliás, era numericamente mais pequeno do que o dos explorados.

 

Pinochet com outros generais, nos dias de Agosto de 1973, iniciou uma conspiração contra o Poder político legítimo. Legítimo e que governava com legitimidade. Apelou ao sentido de obediência dos homens que comandava, exaltou os ânimos dos seus soldados, dos seus subalternos, enganando-os quanto aos fins que o Poder político prosseguia. Acobertado pela mentira, invocou o amor da Pátria, apelidando os governantes de traidores. Explorou a inocência dos soldados, explorando a nobreza dos seus sentimentos. Intoxicou-lhes as mentes com receios e pôs homens do povo contra o Povo. Atraiçou o mais sagrado dever que aos militares está reservado: a defesa dos interesses nacionais, lutando pelos interesses de uma minoria privilegiada.

 

Pinochet, como responsável pela gestão da violência legal, utilizou-a ilegitimamente e, a 11 de Setembro de 1973, mandou atacar o palácio presidencial onde os fiéis servidores de Salvador Allende — legítimo presidente da República — em total desproporção de forças, deram a vida pela causa popular, pelo verdadeiro interesse nacional do Chile. Depois, depois foi o terror, a perseguição, a morte e a tortura.

 

As Forças Armadas do Chile têm ainda, as mãos manchadas de sangue inocente.

 

Deste relato, tão desapaixonado quanto a distância dos anos me permite e o entendimento da razão que a barba e os cabelos brancos me trazem, fica uma lição. As Forças Armadas só se podem rebelar e fazer uso de toda a força que possuem quando a Pátria — entendida como o conjunto dos amores mais intrínsecos antes descritos — corre perigo grave, porque o Poder político está, realmente, a atraiçoá-la. Mas as Forças Armadas, por causa da força que detêm e sabem gerir, não podem nem devem deixar-se enganar pela vontade de um Poder político que se esteja a afastar da vontade do Povo que o elegeu. As Forças Armadas são, em última instância, o tribunal por onde passa a legitimidade de quem exerce a governação.

 

Não as enganem nem lhes peçam traições!

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por Luís Alves de Fraga às 17:23


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