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Fio de Prumo



Sexta-feira, 08.12.06

Os militares nos «Prós & Contras»

 

No sábado passado recebi um convite da Televisão para estar presente no programa «Prós & Contras» da segunda-feira seguinte, mas anunciaram-me logo que não passariam em directo, porque se gravaria o debate às 17 horas.

 

A minha resposta foi pronta: — Muito obrigado, mas não vou. Não vou por dois motivos: tenho aulas na universidade onde trabalho e, em programas desta natureza, não participo quando são gravados.

 

A gravação prévia permite a chamada edição que é o nome pomposo que se dá à actual censura.

 

Já há meses, o programa que se fez sobre o 25 de Abril foi também gravado.

 

    Quem tem medo do que os militares podem dizer?

 

Não vi todo este «Prós & Contras», porque, com efeito, estive a trabalhar até bastante tarde. Contudo, do que me foi possível seguir, ficou-me uma sensação amarga na boca. Os militares estavam todos muito contidos, todos muito politicamente correctos, todos a tratar os assuntos com pinças e paninhos quentes. E de tal modo assim foi que se deixa um dos intervenientes no painel lançar para o ar a ideia de que a existência de associações militares punha em risco a regular e normal cadeia de comando por corroer a disciplina!

 

A ideia é, no mínimo, cretina! Própria de um apaniguado de Salazar nos melhores tempos do ditador e da ditadura.

 

É cretina, porque nada de mais eficaz existe, para manter a real e efectiva disciplina militar, do que as associações de militares. Eu explico em poucas palavras.

 

Sendo as Forças Armadas a entidade que gera e gere a máxima violência dentro de um Estado é absolutamente insensato afrontá-la por mera vingança ou «para dar o exemplo» ao restante aparelho estatal. Por esse mundo fora os casos de insubordinação de militares — no todo ou só na parte dos efectivos — por muito menos do que isso, são abundantes. Ora, havendo associações que polarizem e saibam canalizar o descontentamento dos militares, por certo estes não se insubordinarão nem darão lugar ao uso da força que detêm.

 

Entre nós — quer ao nível das chefias militares quer nos patamares do Poder político — não há cultura democrática, mas sim cultura autoritária. De facto, o parlamentarismo, como fruto da Revolução Francesa, nunca foi bem digerido pelos Portugueses. Foge-nos o pé para a bota da autoridade que calca todas as razões com a razão do calcanhar. Olhe-se à volta e, desde o exemplo mais evidente — que ocorre na Região Autónoma da Madeira onde um ditador se disfarça de democrata e governa há várias dezenas de anos — até ao mais recôndito e camuflado por uma suposta firmeza e teimosia, tudo o que se vê é fruto da falta de cultura democrática.

 

Quando as chefias militares se negam ao diálogo com as associações e as remetem para o quarto escuro das coisas inúteis, quando os ministros da Defesa Nacional mandam nos militares como se mandassem em fantoches cuja função é obedecer cegamente, os mais desprotegidos dos soldados não reconhecem nos seus chefes os defensores dos seus interesses, mas olham-nos como serventuários do Poder. Onde irão encontrar abrigo as suas justas ou injustas reclamações? Naturalmente, em associações e grupos de militares voluntariosos que jogam tudo por tudo — tal como quando lhes pedem para defender os interesses da Pátria — e entram em passeatas.

 

As passeatas são o dedo erguido aos chefes militares que não sabem nem dialogar nem defender interesses primários e são, também, o olhar frio e avisador lançado ao Poder que os está, aos soldados, a usar como elementos de exemplo para domesticar um funcionalismo público e outros servidores do Estado que sucessivos Governos foram enchendo de prebendas e regalias que agora, em tempo de vacas magras, não conseguem sustentar.

 

Tenha o engenheiro (?) José Sócrates a coragem de atacar os altos salários e as altas pensões de reforma que atribui a quem pouco ou nada faz e fez por as merecer e deixe os militares em paz com os magros e paupérrimos «benefícios» que eles e as suas famílias — tão sacrificadas como eles — usufruíam desde o tempo do Estado Novo, desde o tempo da ditadura, porque, materialmente, nada ganharam com a democracia que as suas armas um dia trouxe ao país.

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por Luís Alves de Fraga às 10:45


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