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Fio de Prumo



Sábado, 23.09.06

A geração sacrificada

 

Antes de tecer quaisquer considerações, gostaria de definir o que entendo (e se entende sociologicamente) por geração.

Uma geração de seres humanos «contém» todos quantos nasceram no período de 25 anos, pois admite-se ser este o tempo máximo para se começarem a notar diferenças comportamentais nos grupos em análise (os que o antecedem e os que lhe sucedem). Assim sendo, eu, que sou um homem de 65 anos de idade, se me considerar no centro de uma geração poderei dizer que todos os indivíduos que têm idades compreendidas entre os 52 e os 77 anos pertencem ao mesmo grupo geracional em que me encontro. Evidentemente que as franjas ou extremos — todos os que têm entre 52 e 54 e os que têm entre 75 e 77 anos estarão mais próximos das gerações que, respectivamente, os antecedem e lhes sucedem. Um homem de 77 anos terá maiores afinidades com um outro que tenha 80 do que com um de 68, por exemplo, tal como um de 52 se identifica melhor com outro de 48 do que com um de 60. Mas esta é a análise marginal que, por regra foge aos padrões que definem a análise centralizada. Posto este ponto prévio, poderei passar ao cerne do apontamento de hoje: a minha geração foi a dos homens e mulheres sacrificados em Portugal. Vamos ver o motivo.

Todos os que nasceram na proximidade do ano de 1930 sofreram, na infância, os efeitos de vários fenómenos sociais, económicos e políticos que se conjugaram para lhes proporcionar uma meninice e começo de juventude dificultados aos mais variados níveis. Apanharam os restos dos efeitos perversos da Grande Depressão reflectidos na Europa; a afirmação da ditadura fascizante de Salazar; as restrições financeiras resultantes do desejo de equilíbrio orçamental; as consequências colaterais da Guerra Civil de Espanha logo seguidas das resultantes da eclosão da 2.ª Guerra Mundial: racionamento, medo de perda da neutralidade e possível invasão do território, repressão policial, doutrinação ideológica fascizante no seu ponto mais alto. Quando tinham 15 ou 16 anos, a derrota da Alemanha parecia ter trazido a paz ao mundo, mas a destruição de toda a máquina económica europeia fez arrastar por mais um lustro as faltas de artigos e produtos mais essenciais, entretanto, consolidava-se, com a conivência das potências aliadas e vencedoras, o ditador que não permitia a abertura a novas formas de pensar resultantes do conflito militar. A Guerra Fria veio ensombrar os seus vinte anos e levá-los para as fileiras do Exército onde foram apanhados pelas grandes manobras militares do então recém construído campo de treino em Santa Margarida, próximo de Abrantes.

Entretanto, tendo passado pelo mesmo, aqueles que nasceram por volta de 1933, 1934, foram apanhados pelas mobilizações militares para servirem no Estado da Índia, ameaçado de invasão pela União Indiana.

Verdade seja, houve um curto período, entre os anos de 1955 e 1961, que correspondeu ao boom económico em ocorrência na Europa e que se reflectiu em Portugal de modo mais ou menos sensível. Foi o momento de expansão da cidade de Lisboa para Alvalade, Benfica, Restelo e Carnide; o aumento da circulação automóvel; o lançamento de carreiras de autocarros de dois andares (à maneira londrina) e dos «eléctricos» com atrelados; da inauguração da minúscula rede de metropolitano.

Em 1961, eclode a guerra em Angola, seguindo-se-lhe na Guiné e em Moçambique. Os jovens nascidos entre 1939 e 1941 foram apanhados pelas malhas da mobilização para as antigas colónias; cumpriram, às vezes, quatro anos de serviço militar; viram atrasados todos os seus planos de começo de uma vida de trabalho — muitos fugiram para o estrangeiro, França em particular, para ganharem o sustento e escaparem à guerra. Seguiram-se treze anos iguais de sangria, de vidas adiadas, de aumento da inflação, de repressão política, de incertezas quanto ao futuro.

1974 foi o tempo da mudança. Nessa altura tinham 20 anos os que nasceram há 52. Enfrentaram as lutas políticas, as ilusões e as desilusões de um processo revolucionário que apontou para uma sociedade mais justa e veio agora desaguar no que está à vista de todos. Os tempos que se seguiram à adesão à Comunidade Europeia foram de euforia económica e financeira — gastou-se à tripa forra —, ganhou-se a ilusão de que iria ser sempre assim; cantou-se, como a cigarra, em vez de armazenar, como a formiga; estabeleceram-se metas para a idade da reforma iguais às dos mais desenvolvidos países da Europa e nós, os homens e mulheres de 65 anos, um pouco menos e um pouco mais, convencemo-nos que, finalmente, iríamos ter a recatada e reconfortante velhice, com tanto sacrifício vivido, merecida.

Engano absoluto! Tudo ruiu. O sonho de prosperidade evaporou-se como o mais volátil dos líquidos. Aqui estamos nós, a geração de sacrificados, prontos a enfrentar mais uma outra crise. A crise que os maus gestores e maus políticos permitiram; a crise que os homens da minha e da geração anterior à minha — porque é deles que estou a falar — geraram. Foram eles, fomos nós, que não soubemos ler nas estrelas e acreditar nos Velhos do Restelo! Vêm, agora, os políticos da geração que nos seguiu, impor, sem dó nem piedade, sem memória do quanto já sofremos, impor, dizia, o freio e o bridão que nós, os anónimos servidores, nós a gente do Povo, nós que pouco ou nada beneficiámos da Liberdade que desejámos, teremos de suportar em nome da salvação das gerações que nos hão-de seguir neste Portugal ao sabor dos milagres de todos os santos e dos foguetes que alegram a ignorância dos folguedos populares.

Somos a geração sacrificada ou nascemos no tempo e no país errado?

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por Luís Alves de Fraga às 20:36

Domingo, 10.09.06

Quem tem medo das Forças Armadas?

 

No passado dia 7 de Julho, o matutino Correio da Manhã, trazia como subtítulo de uma notícia o seguinte: «Faltam 4 mil operacionais na Guarda» e acrescentava no decurso do texto que os efectivos da Guarda Nacional Republicana (GNR) são de 26.000 homens e mulheres. Assim, se lhe juntarmos os quatro mil em falta, teremos uma totalidade de 30.000.

Tomando como ponto de partida o facto de a GNR ter absorvido a antiga Guarda Fiscal e de as funções por esta desempenhadas terem sido substancialmente reduzidas com a abolição das fronteiras, parece poder perguntar-se:

— Um efectivo tão elevado para quê?

Se levarmos em conta que a segurança cívica interna tem como suporte a Polícia de Segurança Pública (PSP) e, agora, ainda mais as Polícias Municipais (PM) que dão larga cobertura de vigilância às principais cidades e que, nestas, foi adjudicado a empresas municipais o controle do estacionamento indevido das viaturas automóveis nas ruas, dá vontade de perguntar:

— Não estará sobredimensionado o segmento interno de segurança e defesa em detrimento do segmento externo de segurança e defesa?

Conjugando as duas perguntas anteriores — feitas somente para nos ajudar no raciocínio e demonstração — posso, desde já, usando como apoio o meu apontamento intitulado «As Forças Armadas em números», datado de 3 de Janeiro do corrente ano, responder sem qualquer hesitação; posso eu ou qualquer leitor que não seja obtuso, vesgo ou parcial na interpretação dos dados apresentados. Realmente, foi publicamente afirmado e não desmentido que os efectivos totais das Forças Armadas eram de 46.928 homens e mulheres, dos quais 7.422 são funcionários civis; assim, temos que, na verdade, militares a integrarem a defesa e a segurança do país são 39.506, ou seja, somente mais nove milhares e meio de homens e mulheres do que o efectivo total da GNR. Note-se que não estou a contabilizar aqui os números da PSP e das polícias municipais!

É claro que os mais esclarecidos e puristas dos meus leitores contrapõem a esta argumentação o facto de a GNR ser legalmente considerada parcela das Forças Armadas. É-o, de facto, em certas e muito precisas circunstâncias, porque, na maior parte da sua actividade, não passa de uma força de segurança interna, com objectivos e missões muito claramente definidos nesse sentido. Ora, esperando-se que os efectivos desta força interna sejam pouco inferiores aos da força que tem como missão a defesa externa, a única leitura política que se pode e deve fazer é a de que os sucessivos Governos de Portugal, além de descurarem a segurança externa do Estado, receiam as consequências internas de existirem umas Forças Armadas com real e efectivo poder intervencionista. Por outras palavras, a GNR não constitui uma ameaça à estabilidade política dos Governos — é uma força domesticada ou domesticável — enquanto as Forças Armadas são olhadas como uma ameaça interna pois, com os efectivos actuais e os meios ao seu dispor, pouca ou nenhuma dissuasão externa representam. Contudo, a GNR, pela mesma ordem de razões, com os efectivos propostos, representa uma verdadeira força dissuasora de ordem interna.

Assim, pode afirmar-se que, de uma maneira mais sofisticada, os Governos democráticos de Portugal — em movimentos de aproximação sucessiva — colaram-se à mentalidade fascista que as Forças Armadas procuraram liquidar com o golpe militar de 25 de Abril de 1974.

Trinta e dois anos passados, os números dão-nos a indicação insofismável de um Governo que descura a problemática externa, colocando-a nas mãos de possíveis aliados de momento, e acautela a problemática interna, rodeando-se de uma força que lhe obedeça para impor e repor a ordem se e quando alterada. Este mesmo quadro já foi «pintado» durante a 1.ª República, logo após a Grande Guerra. Assim, neste contexto, cabe perguntar:

— Quem tem medo das Forças Armadas?

Claro que, para a grande maioria dos cidadãos comuns, o mais importante de tudo é ter garantida a segurança interna, chegando ao ponto de, em exagero, desejar na sua rua ou à porta do seu prédio, um guarda cívico ou um soldado da GNR. É evidente que eu próprio advogo a máxima manutenção da ordem pública, mas isso não passa, nem nunca passou, pela existência de um sem número de elementos de forças de segurança. Passa e passou, isso sim, pela existência de uma eficaz repressão judicial — apoiada num bom sistema de investigação policial e célere funcionamento dos tribunais — e pela alteração das condições sócio-económicas que induzem ou conduzem directamente à criminalidade. Neste último caso, todos os dedos se devem apontar para o Governo, único responsável pela proposta de legislação capaz de pôr termo às grandes injustiças sociais resultantes da elevada taxa de desemprego, subemprego, desacompanhamento dos jovens — vítimas, afinal, da necessidade dos pais trabalhadores terem de estar ausentes de suas casas, às vezes, mais de treze horas — e incapacidade de encontrar e implementar programas de integração dos pequenos delinquentes.

Não é aumentando efectivos policiais que se controla a criminalidade e a insegurança dela resultante; mas, como demonstrei, até é conveniente ao Governo a existência de um elevado contingente de forças de repressão interna, porque nelas deposita a esperança de estar seguro, iludindo os pacatos cidadãos e convencendo-os da quase inutilidade das Forças Armadas, pois tudo o que com elas se gasta, segundo o discurso demagógico do Poder, poderia ser encaminhado para as forças de segurança interna. Assim sendo, cabe, uma vez mais, fazer a pergunta:

— Quem tem medo das Forças Armadas?

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por Luís Alves de Fraga às 00:16

Terça-feira, 05.09.06

O museu Salazar, em Santa Comba, e a minha revolta

 

Estava quase toda a gente de férias. Era Agosto e foi no dia 20. O Diário de Notícias fez uma reportagem em Santa Comba Dão. Mais concretamente, no Vimieiro, aldeia onde António de Oliveira Salazar nasceu.

Sei que a História não se apaga. Não se deve apagar, nem branquear. Por isso é conveniente que não se esqueça que houve em Portugal um ditador que governou com mão sibilinamente de ferro os Portugueses, silenciando-lhes o direito de opinião, de reunião, de escolha. Governando os Portugueses como se eles fossem crianças incapazes de saber o que deveriam querer e o que lhes era vedado por natureza ou por força do direito das gentes. Houve um ditador que mandou prender, deportar e, até, matar em nome de uma ordem cívica e de uma moral do Estado que só ele podia discutir. Para o ditador, os ministros do seu Governo não faziam política... eram meros funcionários da sua exclusiva e poderosa vontade.

António de Oliveira Salazar foi um campónio cheio de preconceitos e ideias fixas que se ilustrou no seminário e na Universidade de Coimbra; que ganhou maneiras citadinas, mas que não se sentia bem na pele de um homem do mundo, por isso quis fazer um Portugal à sua medida. Um Portugal rural, pleno de crendices religiosas — forma mais saudável de ocupar o espírito do que a discutir os seus próprios problemas. Um Portugal que satisfizesse ao pensamento de Fernando Pessoa: imoral não é o que se faz, mas o que se torna público e conhecido de todos. Portugal não era um país imoral, porque ninguém sabia o que se fazia ou, no mínimo, escondia-se muito bem para que não se soubesse.

Oliveira Salazar existiu e subsistiu como governante todo poderoso não só por causa dos mecanismos de repressão que mandou montar contra os Portugueses — admitir tal coisa era confirmar o atestado de menoridade que ele mandou passar a um Povo! Não. António de Oliveira Salazar, tal como todos os ditadores em todos os tempos e lugares, existiu e subsistiu, porque os Portugueses — todos os Portugueses — quiseram ser governados como crianças ou atrasados mentais.

Sim, foram os Portugueses que quiseram, porque quando um Povo não aceita a canga que lhe lançam ao pescoço sabe como sacudi-la. Mas isso são povos com brio, com vontade própria, que o mesmo é dizer, vontade nacional.

Os Portugueses não têm vontade nacional, nem brio, nem amor próprio, nem amor à Liberdade. Nós, os Portugueses, somos individualistas, mesquinhos, invejosos. Se eu estiver melhor do que o meu vizinho, ele que se lixe, mesmo que a mim só me seja permitido comer uma vez por dia... A ele não o deixam comer. Isso é o mais importante!

Os 25 de Abril, os 5 de Outubro, os 1 de Dezembro só são possíveis quando os Portugueses já nem com os joelhos conseguem caminhar; só são possíveis quando rastejam e comem o pó do caminho sob o jugo do opressor. Nessa altura, alguns, os mais saudáveis, os mais capazes, os mais audazes, aqueles que ainda guardam uma pequena dose de loucura — daquela salutar loucura que faz os povos progredir — uma réstia de coragem, arriscam tudo para se libertar da miseranda situação! Esses são, ainda, a esperança da Nação. Mas depois, o Povo, os Portugueses, apropriam-se dessas datas como se fossem o resultado de um acto colectivo, um acto de todos, como se todos tivessem sido heróicos defensores da Liberdade.

Sim, concordo que se faça naquela que foi a casa de António de Oliveira Salazar um museu. Mas um museu que deixe bem claro quem ele era e quem ele foi: um campónio ilustrado e alcandorado às cadeiras do Poder por consentimento de um Povo que se deixa conduzir e ser tratado como um rebanho.

Não gostam das minhas palavras?! Incomodam?! São injustas?!

Crucifiquem-me na praça pública, ofendam-me, silenciem-me — se forem capazes —, porque desse modo, uma vez mais, me dão razão. Uma vez mais provarão que não suportam o açoite da verdade, que querem viver como subalternos, que não são capazes de olhar de frente e arriscar tudo, que se satisfazem com as migalhas em vez de quererem o banquete colectivo, que são mesquinhos, incapazes de respirar a plenos pulmões o ar puro dos grandes horizontes, que estão, uma vez mais, preparados para aceitar todas as cangas nos magros pescoços, que são merecedores do Salazar que tiveram e daquele que já começam a ansiar ter.

Tenham vergonha, porque, a mim, resta-me a riqueza de dizer o que penso, porque vivi do meu soldo e do meu trabalho. Não tenho nem luxos nem sinecuras. Tudo dispensei para poder dizer o que me vai na alma, amarrando-me ao pilar forte da Liberdade, único museu que merece ser construído e remodelado em cada ano que passa neste Portugal cada vez mais pequenino.

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por Luís Alves de Fraga às 13:21

Segunda-feira, 04.09.06

Como é possível?

 

Conheço razoavelmente a Andaluzia, a região de La Mancha, um pouco de Castela, já fui à Galiza, passei pelo País Basco, mas nunca visitei a Catalunha. Todavia tenho imensa simpatia por esse Povo que foi o último a resistir aos bárbaros assaltos das tropas de Francisco Franco. Aspira há séculos pela sua autonomia, compartilhou connosco a revolta contra Castela, em 1640. Por onde se fala o catalão há uma cultura própria, distinta da de Castela.

As razões apontadas são motivos para ler com agrado o jornal La Vanguardia. Recebo-o pela Internet e a ele já várias vezes me tenho referido em apontamentos anteriores. Pois bem, no número de hoje, a toda a largura da primeira página lá está a grande notícia de Espanha: Zapatero e o seu Governo, no próximo ano, aumentam, em 25% — repare, leitor, que não se enganou, 25% — as mais baixas pensões — também não se equivocou, escrevi pensões — dos dependentes do Estado.

— Que milagre está a ocorrer em Espanha, aqui mesmo ao nosso lado, para que a Segurança Social, ou o organismo a ela correspondente, não esteja falida como o está, segundo os nossos governantes afirmam, a nossa? Como é possível que eles aumentem as pensões e nós as baixemos?

E foi no mosteiro dos Jerónimos que ambos os chefes de Governo, no mesmo dia e à mesma hora, assinaram o pacto de adesão à Comunidade Europeia!

Eles saltaram em frente de uma forma incrível, nós recuámos. Como é possível?

A nossa ajuda militar para o Líbano — a tal companhia de engenharia destinada, provavelmente, a remover entulho — a partir de Novembro ficará sob o comando espanhol. É o que dizem os jornais!

Não será exequível que, em simultâneo, fique, também, sob comando espanhol a nossa Caixa Geral de Aposentações e a Caixa Nacional de Pensões? Não queremos 25% de aumento nas mais magras pensões... Devem chegar-nos, por enquanto, 15%!

Falta de patriotismo? Meus caros leitores, não pensem nisso. Por vezes, a ironia é uma arma!

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por Luís Alves de Fraga às 13:26


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