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Fio de Prumo



Terça-feira, 15.08.06

Forças Armadas para o Líbano?

 

O Diário de Notícias de hoje dá-nos a informação de que o ministro da Defesa, do alto da sua pequena estatura física, pelo menos, admite, com os seus colegas de Gabinete, a possibilidade de enviar tropas portuguesas para o Líbano, no quadro das que para lá se deslocarem em missão de paz.

Pergunto-me se não houve antecipação no pisar das uvas de uma vindima que ainda não se fez, por admitir que só os vapores de uma qualquer fermentação alcoólica poderem ser responsáveis pelo desnorte dos governantes de Portugal.

— Mas que espécie de bombeiral » (para recordar uma expressão já quase esquecida de um excelente humorista do nosso teatro) pensam os senhores do Governo que as Forças Armadas são? Julgam-nas um brinquedo — se calhar de arremesso — para entrar em todas as paródias que lhes vêm à real mente? Onde está o sentido estratégico de uma participação desta natureza?

Repare o leitor que não se trata de enviar tropas para um teatro de operações secundário de um menor e exíguo envolvimento regional! Não. Aqui está-se a pensar mandar soldados portugueses para o conflito mais longo e mais explosivo dos últimos cinquenta anos, pelo menos.

Os nossos governantes não sabem História ou propositadamente esqueceram-na? O Médio Oriente foi sempre um «caldeirão» de pequenos conflitos tribais, grupais, étnico-religiosos ou como lhe preferirem chamar. Muito antes do conhecimento da existência de petróleo já as diferentes sensibilidades islâmicas se digladiavam . Israel, o problema judaico e o petróleo foram só elementos aceleradores e catalizadores de um confronto insanável. Quando Franceses e Ingleses, potências administradoras, quase colonizadoras, não foram capazes de conseguir estabelecer o entendimento dos interesses em oposição, vai agora uma força de paz, seja da ONU ou da OTAN, meter ombros a essa tarefa?! E Portugal, que deveria ser um Estado à procura de se posicionar como medianeiro diplomático na desavença isrelo-palestiniana , vai entrar como potência de imposição de ordem!

A isto chamo não se fazer um calculado exame da situação. Deixemo-nos ficar pelas intervenções que já temos — e que são muitas para as posses financeiras e Forças Armadas nacionais — e procuremos ser mais interventivos no domínio diplomático.

Um bom naipe de negociadores com uma estratégia definida vale mais, no plano internacional, do que uma ou duas centenas de homens armados a actuarem em conjunto com militares de outros países. A opção pela segunda solução corresponde ao certificado de «parasitismo diplomático». Com efeito seguimos a estratégia que já alguém traçou e limitamo-nos a mandar «carne para canhão» — aliás, dá-me a impressão, o nosso Governo deve acreditar que os soldados só servem para isso mesmo! E isto tudo, porque não há uma Estratégia Nacional claramente definida, não se sabe exactamente o que se quer para o país e qual o papel que lhe está reservado na cena internacional. A nossa postura na Europa e no mundo é, como os pescadores dizem, andar à babujinha (e aqui o diminutivo acentua bem essa incapacidade de quem só aprendeu a viver virado para a Península e para um velho património, dito, histórico e supostamente herdado do século XV), porque comemos nos restos dos outros, incapazes de procurar uma forma independente e autónoma de nos afirmarmos.

Chega de o Governo se pôr em bicos dos pés! Guardemos a nossa pobreza militar para consumo interno e sejamos capazes de fazer uma clara aposta na modernização, valorização e pagamento condigno das nossas Forças Armadas. Depois, quando estivermos ao nível dos medianos, depois, entremos com dignidade e não com meras representatividades. Mas entremos, porque temos uma Estratégia Nacional e não um arremedo.

Julgo que é tempo dos senhores ministros terem mais discrição e maior contenção verbal. É tempo de tanta coisa neste Portugal fora do tempo...

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por Luís Alves de Fraga às 17:04


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