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Fio de Prumo



Domingo, 13.08.06

Um homem, um regime?

 

Fidel Castro faz hoje oitenta anos. É indiscutivelmente uma figura do século XX e do começo do século XXI. Não se limitou a marcar um país, um Estado, um Povo. Marcou gerações de homens e mulheres no mundo inteiro ou porque o admiravam ou porque o odiavam. Fidel Castro não é um ditador como António de Oliveira Salazar ou mesmo Francisco Franco que, embora conhecidos no mundo, só faziam parte do imaginário de umas poucas centenas de indivíduos politicamente mais esclarecidos. Fidel Castro está à altura de um Estaline, de um Mussolini ou de um Hitler, por ter um carisma que ultrapassa todas as fronteiras que queiramos levantar (porque quantas mais erguemos mais ele as vence e com isso ganha notoriedade). Entrou na galeria dos Inesquecíveis onde estão, ainda que noutros quadrantes, Leão XIII, João XXIII, João Paulo II, Gandhi, Mandela Marx, Lenine e uns poucos mais eleitos.

Onde reside o fundamento da fama deste antigo guerrilheiro, advogado de formação universitária? Ser um chefe de Estado desde o final dos anos 50 do século XX? Salazar foi chefe de Governo mais anos e Franco pouco lhe ficou a dever.

Creio que na opinião mundial, a notoriedade de Fidel Castro vem-lhe do facto de ter enfrentado sozinho, ele e o seu Povo, a fúria de gerações de políticos norte-americanos que têm imposto a Cuba o mais feroz bloqueio de que há memória na História do Ocidente. Castro conseguiu elevar o nível cultural do Povo cubano, dar-lhes um melhor sistema sanitário e, acima de tudo, gerar-lhes o orgulho de, embora sozinhos, serem capazes de resistir à brutal boçalidade de um colonialismo disfarçado, vindo das zonas onde mais dólares havia nos Estados Unidos.

Isso empurrou Cuba e o Cubanos para os braços da União Soviética? Sem dúvida; isso obrigou a perseguir todos os suspeitos de corrosão do sistema com prisão e, até, com a pena de morte? Não se pode negar. Isso fez de Castro um ditador e um tirano igual a tantos outros que houve na História? Seria da mais cínica estultícia rejeitá-lo. Mas, aos olhos da mesma História, o importante é tentar compreender o resultado final, já que, em nome da democracia e da liberdade dos povos — valores ditos opostos aos defendidos por Fidel Castro — se têm desencadeado guerras horríveis e se têm condenado uns milhões à fome outros milhões à morte. E todos são inocentes que partem deste mundo sem a mais pequena noção da culpa que lhes cabe.

Hoje — há anos — Cuba perdeu o seu aliado privilegiado. Perdeu-o, porque o sistema político construído em Moscovo, não conseguiu encontrar a resposta para uma concorrência económica e militar que o mundo ocidental lhe vinha desencadeando desde 1945; não conseguiu fugir a uma concorrência que julgava possível e optou por um imperialismo expansionista de um ideal corroído pela brutalidade de um sistema repressivo; não conseguiu deixar de se tentar por uma burocracia que matou o valor real e prático dos sovietes. Cuba sem o auxílio da URSS (não totalmente desinteressado, porque esta recebia açúcar a preços fora de qualquer concorrência!) teve de aceitar abrir-se a um turismo que, para lhe permitir aumentar os dólares no banco central, lhe corrói os princípios de uma moral cívica construída na base de um socialismo de resistência. Os Cubanos estão a perder-se, porque lhes falta o essencial... E a fome é sempre má conselheira!

Cuba depois de Fidel? Um enigma. Nunca mais será igual à Cuba do tempo de Flugêncio Baptista, mas também não vai ser a Cuba de Castro. Espera-a o aumento da corrupção, o turismo sexual, o aproveitamento de uma pobreza que hoje dói. Mas há-de restar uma imensa camada intelectual que se recordará do lado bom do socialismo cubano e é nesses que podem residir as respostas dialécticas que comandam as sociedades evoluídas.

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por Luís Alves de Fraga às 11:27


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