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Fio de Prumo



Quinta-feira, 31.08.06

Remover entulho

 

No final da batalha de La Lys , em Abril de 1918, o que restava do Corpo Expedicionário Português CEP ) foi, por ordem dos Ingleses — que detinham o superior comando táctico e estratégico do contingente nacional —, mandado abrir estradas e construir trincheiras para serem utilizadas pelos Britânicos. Os generais de Sua Majestade haviam perdido a confiança nos soldados de Portugal enquanto combatentes, achando-os, todavia, com competência para usarem enxadas, pás e picaretas. Foi trabalhoso para o general Garcia Rosado, comandante do CEP , inverter esta visão dos nossos velhos aliados. Os próprios soldados preferiam morrer — porque continuaram a ser vítimas dos bombardeamentos alemães — de enxadas nas mãos do que gloriosamente com uma arma de campanha.

Como se vê, a falta de brio, de galhardia, de saudável vaidade já rondava os Portugueses na última guerra a que foram na Europa. Eis o motivo por que não me espanta a decisão do Conselho Superior de Defesa Nacional: enviar para o Líbano uma companhia de engenharia; 140 homens para limparem o entulho que outros fizeram. Limpar o entulho e construir ao serviço de empresas que outros irão gerir e de onde retirarão pingues lucros... E é por razões destas que vamos, com toda a clareza, tomar partido em um conflito no qual tínhamos excelentes condições de sermos neutros, eventualmente, mediadores entre as partes e com isso retirarmos vantagens para Portugal!

Assim, tal como foi ajustado no Conselho Superior de Defesa Nacional, vamos fazer parte de tropas de ocupação com um mandato supostamente de paz ou apaziguador, que nem vai almejar a primeira nem reduzir o fogo de ódio, há dezenas de anos, ardente nos peitos dos muçulmanos e dos judeus da região.

É como trabalhadores de enxada, ou melhor de escavadoras emprestadas por outros, quase pela certa, que vamos contribuir para o esforço de entendimento entre as partes desavindas.

A minha boa educação e o respeito que tenho pelos meus leitores calam-me os vocábulos «caserneiros» que me afloram aos lábios quando penso na decisão tomada.

Quem derrubou, que limpe! Essa seria, por certo, uma sentença salomónica se ao justo rei bíblico fosse possível pedir conselho e acreditássemos na sua imparcialidade, sendo ele mesmo monarca dos Judeus.

Quem derrubou, que limpe, porque já está, por certo, conluiado com as grandes empresas construtoras do mundo, pois não quero acreditar que a sociedade Alves Ribeiro, ou outra quejanda, tenha antecipadamente marcado lugar para pôr de pé tudo o que as bombas israelitas deitaram a baixo. Não quero acreditar, porque, então, uma vez mais, os nossos políticos deveriam mandar reservar, com antecedência, lugar de honra no próximo congresso de mafiosos que se reunir em qualquer dos centros e antros por onde essa gente se movimenta. Não quero acreditar, mas deixo para os leitores a dúvida que me martela a inteligência: — Qual o motivo porque, em vez de uma companhia de engenharia, não segue, imediatamente, um hospital de campanha ou uma companhia de saúde com terapeutas capazes de recuperar os estropiados que a guerra fez ou, ainda, uma companhia de administração militar com trem apropriado à confecção de alimentos e pão?

No mínimo mostrávamos, sem sombra para dúvidas, que a nossa motivação era puramente humanitária!

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por Luís Alves de Fraga às 11:47

Quarta-feira, 30.08.06

O primeiro aniversário

 

Passa hoje exactamente um ano que fiz aparecer no mundo cibernáutico o «Fio de Prumo».

Sem falsas modéstias, estou satisfeito com o resultado destes 365 dias decorridos. A minha satisfação não me vem dos factos denunciados — a maior parte das vezes, verdadeiros atentados aos militares, outras aos cidadãos portugueses em geral e, algumas, à humanidade em geral — mas da audiência e recepção que tiveram os apontamentos que fui lançando para o ar. Muitas foram as palavras de incentivo que recebi nos comentários deixados no blog ou mesmo pessoalmente. É provável que a amizade e simpatia tenham ditado muitas dessas manifestações. Contudo, fosse como fosse, foram um motivo para, em cada semana, procurar ir deixando mais uma crónica no «Fio de Prumo».

Só à guisa de mera recordatória gostaria de deixar dito que, neste ano, escrevi, para aqui figurarem, cento e dois apontamentos que mereceram trezentos e trinta e dois comentários. O número de visitas ao blog ultrapassa em muito aquele que está indicado no contador, porque este só começou a contagem em Março e, pelos valores de então até ao presente, a média de visitas mensais ao «Fio de Prumo» foi de 1.501. Digamos que estes algarismos me impõem respeito e responsabilidades, pelo menos, morais.

O instrumento que ajuda os pedreiros a verificar a verticalidade das paredes e colunas que constroem, tem sido o mesmo ao qual, em consciência, deito mão para medir os juízos que faço do comportamento de quem tem responsabilidade de governar e zelar pelo interesse da colectividade e não só de alguns.

Continuarei, no ano que agora se inicia, a olhar com olhos críticos a sociedade e os responsáveis. Não pelo prazer de «estar no contra», mas pela necessidade de, criticando, poder ajudar os meus leitores a olhar sob outros ângulos assuntos que, muitas vezes, são iludidos por quem devia usar de lisura e correcção para connosco.

Tenho de agradecer a todos quantos tiveram paciência para desbravar as explanações que fui deixando nas páginas virtuais deste quase diário pessoal.

Prometo que, dentro das limitações do tempo e da disponibilidade mental, continuarei como até aqui. De hoje a um ano farei novo balanço, se for caso de isso.

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por Luís Alves de Fraga às 18:01

Domingo, 27.08.06

Política internacional militar

 

O Governo de Portugal, no prosseguimento de uma política que já vem sendo seguida há uma dezena de anos, quer envolver-se militarmente no conflito do Médio Oriente, fazendo avançar uma força integrada na UNIFIL .

À primeira vista parece lógico que assim proceda, dada a posição de alinhamento com uma falsa política externa comum prosseguida pela UE: se o país é parte integrante da União, se dela colhe os benefícios, porque não contribuir com um contingente militar no momento em que todos parecem estar de acordo? Esta é, se calhar, a pergunta mais acutilante que se coloca para definir a «lógica» da diplomacia europeia e nacional.

Gostaria de ser breve na análise desta temática.

Comecemos pelo que o jornal Público de hoje veicula do semanário Expresso de ontem: «Segundo o semanário, o Executivo de José Sócrates pretende escolher a “solução mais simpática, mais barata e com menos riscos”.

Isto é, no mínimo, escandaloso, por ser a exposição pública da máxima hipocrisia! Um jornal deveria ter vergonha de publicitar tal afirmação, mesmo sendo ela verdadeira, pois, em pouquíssimas palavras, deixa escrito, para que o mundo veja, como Portugal é um país paupérrimo de decisores e de políticos. Mas, afinal, é esta a forma de os nossos governantes governarem. É a política do parece mal se não formos, mas como vamos damos a prenda mais foleira que há na loja, por ser a mais barata e a que não se parte pelo caminho. Tenhamos vergonha! Uma tal posição é própria do esquecido Gervásio Lobato (Lisboa em Camisa) que tão bem soube caracterizar o ridículo dos Portugueses tidos como burgueses comparáveis aos seus congéneres europeus.

Seguindo o caminho que se esboça no horizonte, Portugal dá uma extraordinária prova de ter esquecido a História recente do colonialismo, do qual foi o último a afastar-se, quando, orgulhosamente, afirmou ter derrubado a ditadura imposta pelo autodenominado Estado Novo. Vejamos porquê.

A partir da segunda metade do século XX, quando a Revolução Industrial estava no auge, houve um movimento, por parte das grandes potências europeias e industrializadas, de expansão colonial que se dirigiu para o Oriente, em especial para a China, e para a África tropical. Neste último caso, a hipocrisia assumiu o seu máximo expoente ao procurar disfarça a ganância da conquista sob a capa do humanismo cristão. Dizia-se, na época, que era necessário arrancar os pobres negros ao estado de barbárie em que viviam. O mesmo argumento não podia ser empregue em relação à milenar cultura oriental. Em ambos os casos os interesses dos países industriais e expansionistas uniram-se para obterem o seu quinhão na partilha que se estava a efectuar.

Agora, nos dias que correm, como já não se pode colonizar à maneira do século XX, então, a comunidade internacional industrializada encontrou uma outra forma de esconder a hipócrita ganância das grandes companhias produtoras que recolhem o apoio dos Governos: inventou as operações de paz e as operações de controle da democracia para fazer chegar às zonas de atrito — muitas vezes incentivado do exterior e pelos interesses económicos envolvidos — forças militares que vão impor uma nova ordem que, afinal, beneficia os impérios capitalistas acoitados sob a pele de cordeiro.

O Governo português, incapaz de conduzir com êxito o desenvolvimento económico do país, vai envolver-se militarmente na farsa que satisfaz interesses alheios. A troco de quê? De uma hipotética solidariedade com os Estados integrantes da União Europeia ou da OTAN.

Falta aos nossos políticos profundidade e cultura histórica. Se a tivessem saberiam escolher um caminho internacional muito mais condizente com os interesses do Povo português. Descobrir-se-iam novos meios de revitalizar uma excelente e saudável cooperação internacional que animaria a parca e insegura indústria portuguesa. Do modo como procedemos até agora, só nos tornamos ridículos aos olhos dos políticos das grandes potências que defendem os seus interesses e os das grandes empresas que os apoiam.

Será este o papel que o Povo português quer para a sua Pátria?

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por Luís Alves de Fraga às 17:17

Quarta-feira, 23.08.06

Mas este Governo é socialista?

 

Não pode ser! Onde vai o socialismo?!!! Isso foi um belo «sonho de uma noite» de Primavera, mas há trinta e um anos!

Todos desejávamos, com excepção de alguns, um socialismo em liberdade. Queria isto dizer, um socialismo sem restrições ao direito de associação, de expressão do pensamento e de reivindicação. Era um socialismo à maneira do Norte da Europa; um socialismo redistributivo: cobravam-se impostos segundo uma proporcionalidade justa, dentro de um leque salarial não excessivamente alargado e distribuiam-se os impostos sob a forma de assistência na doença, na educação, na habitação e outros sectores carenciados. Isto funcionava, assim, na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, qual o motivo por que não resultaria em Portugal?

Nós, os militares de Abril, pensávamos quase todos dentro desta linha. Houve os que idealizaram sistemas que pareciam mais justos, mas cortando liberdades em nome do colectivo. Rejeitámos esses modelos. Queríamos o direito à modernidade.

 

Hoje, ao fazer a minha consulta matinal aos jornais que publicam as últimas informações na Internet dou, no Diário de Notícias, com a indicação de que algumas comparticipações da ADSE baixaram substancialmente, chegando, em alguns casos, o utente a ficar com um encargo de mais de 4000% (quatro mil por cento).

Não. Não, o senhor engenheiro José Sócrates não é socialista! Desconhece os princípios básicos do socialismo, se se quiser ser mais correcto, da simples social-democracia.

Há um ano obrigou os militares a passarem para um regime de assistência na doença em tudo semelhante ao dos funcionários públicos; este ano corta nas magras comparticipações.

Não é assim que se fazem poupanças no Orçamento do Estado. Não. Assim fazem todos os que não são socialistas. Assim, até a minha empregada doméstica (que só lhe posso pagar duas tardes por semana), pouco menos que analfabeta, também fazia. Assim fazia o Salazar! Já que Marcelo Caetano inverteu o rumo e concedeu todas as regalias que Sócrates e os seus apaniguados se encarregam de acabar. Interessante, não haja dúvidas!

Quando é que um sociólogo impoluto resolve estudar este fenómeno galopante em Portugal? Quando é que alguém diz: Assim não!?

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por Luís Alves de Fraga às 09:20

Terça-feira, 22.08.06

Honestidade e Políticos

 

Em Portugal ainda há uns quantos ingénuos que associam o facto de se ser político a ser honesto. Pessoalmente, desde os meus dezoito ou vinte anos que abandonei tal ideia.

Do Norte da Europa chega-nos, como mito, a indissolubilidade entre um conceito e outro, contudo, de quando em vez, lá estala o «verniz» e a verdade rompe em cachões avassaladores.

Os políticos nunca são gente de bem! Não podem ser. Razão pela qual só alguns de nós aceitam envolver-se na res publica e outros ficam, como eu, a criticá-la e, ou, dedicando o seu tempo a servir a comunidade.

Não há política sem escândalo nem político impoluto.

 

Que se desiludam todos os que acreditam no contrário. Um dia, a verdade há-de vir à superfície, como o azeite na água. É uma questão de tempo.

Valia a pena gastar espaço para fazer esta afirmação?

Provavelmente, não, mas lembrando-me de água, recordo-me da sua moleza e, em consequência, da dureza das pedras.

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por Luís Alves de Fraga às 07:49

Domingo, 20.08.06

A guerrilha, o terrorismo e Israel

 

Todos os militares profissionais sabem que é muito difícil um exército regular vencer uma guerrilha. Vem, pelo menos, do tempo dos Romanos esse conhecimento; nós vivemo-lo na Península, aquando da invasões francesas — foram os populares quem corroeu a vontade de combater dos homens de Napoleão —, os Britânicos sabem-no por experiência na Birmânia e no Quénia, os Franceses, na Indochina e na Argélia, os Americanos, na Coreia, no Afeganistão e, Portugal, em Angola, Guiné (especialmente Guiné) e Moçambique. Os EUA tiveram a sua quota parte de experiência mal aprendida no Vietname e, agora, no Iraque.

A guerrilha, e consequentemente o terrorismo, é o modo de os pobres fazerem a guerra. Numa certa perspectiva pode ser considerada uma forma cobarde de combater, mas os fracos têm direito à sua própria defesa. Quantos de nós, em garotos, quando confrontados com companheiros mais velhos e mais fortes, não evitámos a luta corpo-a-corpo para optarmos por um pontapé, uma pedrada, uma inesperada rasteira? Era a forma de entrar no conflito, tirando o melhor proveito da nossa fraqueza ou da nossa pouca idade. Cobardia? Eu diria antes, necessidade que aguça o engenho! Quando as condições bélicas se igualam ou equiparam a tendência é para o guerrilheiro usar dos métodos clássicos de combate. São os conhecidos patamares da luta de guerrilha. Os Portugueses estiveram à beira de viver essa experiência na Guiné, no final de 1973 e nos primeiros meses de 1974.

Fidel Castro mostrou ao mundo como se vencia uma guerra de guerrilha; Mao Tzé-Tung teorizou a guerra conduzida por guerrilheiros.

É necessário explicar que o terrorismo é uma fase primária do conflito de guerrilha; é como que o momento de preparação para a luta armada que se há-de seguir. É um tempo feio (como se na guerra houvesse tempos bonitos!), aparentemente desleal, quase repugnante em virtude das vítimas inocentes que provoca. Isto é certo, mas, olhando na perspectiva da guerrilha, é o único caminho para o adversário levar a sério as ameaças daqueles que normalmente despreza. A etapa do terrorismo tem como equivalente, na guerra clássica, a preparação do assalto levada a cabo pela artilharia e aviação antes do avanço da infantaria: pretende desmoralizar o adversário, destruir-lhe a força anímica.

O guerrilheiro diferencia-se do combatente dito clássico, porque o conflito está onde ele estiver, pois trava uma guerra essencialmente ideológica ao passo que a chamada convencional é um conflito de interesses em que os combatentes raramente o sentem como coisa sua.

Vem tudo isto a propósito dos ataques israelitas contra o Líbano; mais concretamente, contra uma milícia armada que pouco ou quase nada tem a ver com o Governo local (acoita-se por terras libanesas, porque ali encontrou entre uma parte da população o apoio necessário para subsistir e poder desencadear operações de combate contra um inimigo comum: Israel).

Os Judeus conseguiram ser os grandes vencedores regionais enquanto fizeram uma guerra regular contra Estados e exércitos também eles regulares. A virtude dos islamitas (não interessa se sunitas ou xiitas) foi desvincularem os Estados do conflito e transformá-lo numa guerrilha. Israel, só por isto, está condenado à derrota ou a uma negociação diplomática em inferioridade. A alternativa é desencadear-se na zona uma guerra nuclear a qual sabe-se como começa, mas desconhece-se como acaba. E o problema fundamental é que hoje o conflito é, como já disse, meramente ideológico. Os Muçulmanos combatem por uma causa em que acreditam efectivamente; os Israelitas combatem pela sobrevivência do seu Estado, mas não da sua cultura e menos ainda pela da sua religião, pois ambas subsistiram milhares de anos sem precisarem de um território.

Quando na sequência do 11 de Setembro de 2001, os EUA tomaram a decisão de invadir o Iraque e quebrar o equilíbrio instável do Médio Oriente numa luta inicialmente contra um Estado, mas que tinha como pano de fundo a perseguição ao terrorismo (como antes afirmei, uma das primeiras fases da guerra de guerrilha), abriram a caixa de Pandora da luta sem quartel e que vão perder à custa de vítimas inocentes e de soldados que já nem sabem os motivos que os levaram à guerra. E tudo isto, por uma razão, também ela, muito simples: o Islão condena um certo tipo de «Ocidente». Um «Ocidente» imperial, despótico, explorador, gerador de desigualdades e, acima de tudo, já completamente amoral. O Islão bate-se por valores do foro espiritual; o «Ocidente», que ele guerreia, bate-se por valores materiais sem fundamento moral.

O neo-capitalismo, como vitória sobre o marxismo gerou, dialecticamente, uma síntese que se pode enunciar pelo enfrentamento de duas novas teses: a defesa da cultura amoral e a defesa da cultura moral (islâmica).

Se os governantes do mundo «Ocidental» não perceberem isto e não procurarem uma solução reformista do seu próprio sistema estão a votar a sociedade de consumo, que nos devora, a um triste desaparecimento às mãos de uma sociedade que se imporá por valores estranhos, exóticos e quase reprováveis. E nem se espere auxílio do Oriente (China) porque, também eles possuem sistemas sócio-culturais que se afastam diametralmente dos que vão caracterizando o «nosso Ocidente».

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por Luís Alves de Fraga às 09:43

Quarta-feira, 16.08.06

Uma democracia ridícula

 

Leia-se o editorial do Diário de Notícias de hoje, bem como a principal informação do jornal on-line e percebe-se o título que está a encimar o actual apontamento.

Este Portugal dos segredos de polichinelo vem assim desde há vários séculos. Pelo menos, desde a implantação consolidada do Liberalismo (1834). Antigamente dizia-se, dos segredos passados de boca a ouvido, que o informante era pessoa que bebia do fino, expressão clássica na literatura clássica do século XIX.

Esta necessidade de quebrar segredos de Estado e difundi-los na praça pública está ligado indissoluvelmente à maneira de ser dos Portugueses: toda a gente quer ter importância ou dar-se ar de importante. Em Portugal todos nós estamos inconformados com o que somos, por isso queremos parecer mais. Sempre mais importantes e poderosos. Daí este país de doutores! Mas isto sempre foi assim. E demonstro. Vou socorrer-me da transcrição de uma passagem do livro do ilustre historiador Professor Oliveira Marques intitulado Portugal Quinhentista que, a dado passo, reproduz e traduz um documento de anónima autoria, redigido por um Italiano, provavelmente datado do ano de 1580 e que reza assim:

«Os oficiais e ministros da justiça que não vos entendem, todos orgulhosos, todos inchados, todos amigos de mostrar que podem, pelo que, se os não adulais tendes os beleguins [oficial de justiça] atrás. Em verdade se pode bem dizer (perdoem-me os Portugueses) ser aquela uma das partes do mundo onde podem os homens mais do que as leis porque, consoante querem, assim as transformam [vem ao caso recordar que, logo após o 25 de Abril de 1974, ouvi, da boca de um dos mais altos responsáveis militares de então, a seguinte frase: “Para os amigos tudo, para os inimigos, a Lei”... trezentos e noventa e quatro anos depois do trecho que estou a transcrever!!!]. Quando lhes toma o ódio por uma pessoa, fazem que a justiça tire as informações da sua vida — ao que chamam tirar devassa — e por qualquer pecado que lhe acham, assim o castigam em muitos modos. (...).

Os processos são em número infinito, (...), porque a qualidade das gentes leva a que quem tem razão nunca seja despachado. As dilações, as suspeições, as sentenças ambíguas, as apelações e os testemunhos falsos são tantos que as leis acabam, por fim, por ficar tão sofismadas que da verdade e da mentira resulta uma embrulhada tal que a não desfiaria Apolo» (p. 207).

Meus caros leitores, este documento foi escrito, repito, em 1580 ou por volta dessa data. Está guardado em arquivo e publicado em livro. Leiam-no para ficarem a conhecer o Povo que somos.

A forma como nos comportamos é genética, atávica e, por isso, quase inalterável. Só esporadicamente, sob o jugo e o chicote de um qualquer ditador — tão corrupto como os corruptos que à sua volta vão crescendo em crescente adulação (única processo de fugir à fúria dos senhores do mando absoluto), se parece transformar o lobo, lançando sobre os costados a pele de cordeiro.

Queremos pôr fim a este estado de coisas? Queremos deixar de ser uma democracia ridícula que só macaqueia alguns dos aspectos mais caricatos de tal sistema político? Façamos uma longa revolução do ensino! Não. Não se trata de passar a ensinar mais e melhor matemática, ou química, ou física, ou língua portuguesa! Não. Ensine-se civismo, porque tudo o mais vem por acréscimo. Civismo desde o infantário, porque as crianças ensinarão, aos poucos, os respectivos pais. Civismo em casa e na rua. Civismo para com tudo — não é só respeitar o meio ambiente — e, principalmente, com todos. Todos, ministério das Finanças incluído. Civismo, meus senhores, civismo. A Moral vem com o civismo.

Mas não se esqueçam de mandar os professores frequentar um longo estágio nas heréticas, porque não católicas, democracias do Norte da Europa... Isso é o mais importante de tudo!

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por Luís Alves de Fraga às 13:59

Terça-feira, 15.08.06

Forças Armadas para o Líbano?

 

O Diário de Notícias de hoje dá-nos a informação de que o ministro da Defesa, do alto da sua pequena estatura física, pelo menos, admite, com os seus colegas de Gabinete, a possibilidade de enviar tropas portuguesas para o Líbano, no quadro das que para lá se deslocarem em missão de paz.

Pergunto-me se não houve antecipação no pisar das uvas de uma vindima que ainda não se fez, por admitir que só os vapores de uma qualquer fermentação alcoólica poderem ser responsáveis pelo desnorte dos governantes de Portugal.

— Mas que espécie de bombeiral » (para recordar uma expressão já quase esquecida de um excelente humorista do nosso teatro) pensam os senhores do Governo que as Forças Armadas são? Julgam-nas um brinquedo — se calhar de arremesso — para entrar em todas as paródias que lhes vêm à real mente? Onde está o sentido estratégico de uma participação desta natureza?

Repare o leitor que não se trata de enviar tropas para um teatro de operações secundário de um menor e exíguo envolvimento regional! Não. Aqui está-se a pensar mandar soldados portugueses para o conflito mais longo e mais explosivo dos últimos cinquenta anos, pelo menos.

Os nossos governantes não sabem História ou propositadamente esqueceram-na? O Médio Oriente foi sempre um «caldeirão» de pequenos conflitos tribais, grupais, étnico-religiosos ou como lhe preferirem chamar. Muito antes do conhecimento da existência de petróleo já as diferentes sensibilidades islâmicas se digladiavam . Israel, o problema judaico e o petróleo foram só elementos aceleradores e catalizadores de um confronto insanável. Quando Franceses e Ingleses, potências administradoras, quase colonizadoras, não foram capazes de conseguir estabelecer o entendimento dos interesses em oposição, vai agora uma força de paz, seja da ONU ou da OTAN, meter ombros a essa tarefa?! E Portugal, que deveria ser um Estado à procura de se posicionar como medianeiro diplomático na desavença isrelo-palestiniana , vai entrar como potência de imposição de ordem!

A isto chamo não se fazer um calculado exame da situação. Deixemo-nos ficar pelas intervenções que já temos — e que são muitas para as posses financeiras e Forças Armadas nacionais — e procuremos ser mais interventivos no domínio diplomático.

Um bom naipe de negociadores com uma estratégia definida vale mais, no plano internacional, do que uma ou duas centenas de homens armados a actuarem em conjunto com militares de outros países. A opção pela segunda solução corresponde ao certificado de «parasitismo diplomático». Com efeito seguimos a estratégia que já alguém traçou e limitamo-nos a mandar «carne para canhão» — aliás, dá-me a impressão, o nosso Governo deve acreditar que os soldados só servem para isso mesmo! E isto tudo, porque não há uma Estratégia Nacional claramente definida, não se sabe exactamente o que se quer para o país e qual o papel que lhe está reservado na cena internacional. A nossa postura na Europa e no mundo é, como os pescadores dizem, andar à babujinha (e aqui o diminutivo acentua bem essa incapacidade de quem só aprendeu a viver virado para a Península e para um velho património, dito, histórico e supostamente herdado do século XV), porque comemos nos restos dos outros, incapazes de procurar uma forma independente e autónoma de nos afirmarmos.

Chega de o Governo se pôr em bicos dos pés! Guardemos a nossa pobreza militar para consumo interno e sejamos capazes de fazer uma clara aposta na modernização, valorização e pagamento condigno das nossas Forças Armadas. Depois, quando estivermos ao nível dos medianos, depois, entremos com dignidade e não com meras representatividades. Mas entremos, porque temos uma Estratégia Nacional e não um arremedo.

Julgo que é tempo dos senhores ministros terem mais discrição e maior contenção verbal. É tempo de tanta coisa neste Portugal fora do tempo...

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por Luís Alves de Fraga às 17:04

Domingo, 13.08.06

Um homem, um regime?

 

Fidel Castro faz hoje oitenta anos. É indiscutivelmente uma figura do século XX e do começo do século XXI. Não se limitou a marcar um país, um Estado, um Povo. Marcou gerações de homens e mulheres no mundo inteiro ou porque o admiravam ou porque o odiavam. Fidel Castro não é um ditador como António de Oliveira Salazar ou mesmo Francisco Franco que, embora conhecidos no mundo, só faziam parte do imaginário de umas poucas centenas de indivíduos politicamente mais esclarecidos. Fidel Castro está à altura de um Estaline, de um Mussolini ou de um Hitler, por ter um carisma que ultrapassa todas as fronteiras que queiramos levantar (porque quantas mais erguemos mais ele as vence e com isso ganha notoriedade). Entrou na galeria dos Inesquecíveis onde estão, ainda que noutros quadrantes, Leão XIII, João XXIII, João Paulo II, Gandhi, Mandela Marx, Lenine e uns poucos mais eleitos.

Onde reside o fundamento da fama deste antigo guerrilheiro, advogado de formação universitária? Ser um chefe de Estado desde o final dos anos 50 do século XX? Salazar foi chefe de Governo mais anos e Franco pouco lhe ficou a dever.

Creio que na opinião mundial, a notoriedade de Fidel Castro vem-lhe do facto de ter enfrentado sozinho, ele e o seu Povo, a fúria de gerações de políticos norte-americanos que têm imposto a Cuba o mais feroz bloqueio de que há memória na História do Ocidente. Castro conseguiu elevar o nível cultural do Povo cubano, dar-lhes um melhor sistema sanitário e, acima de tudo, gerar-lhes o orgulho de, embora sozinhos, serem capazes de resistir à brutal boçalidade de um colonialismo disfarçado, vindo das zonas onde mais dólares havia nos Estados Unidos.

Isso empurrou Cuba e o Cubanos para os braços da União Soviética? Sem dúvida; isso obrigou a perseguir todos os suspeitos de corrosão do sistema com prisão e, até, com a pena de morte? Não se pode negar. Isso fez de Castro um ditador e um tirano igual a tantos outros que houve na História? Seria da mais cínica estultícia rejeitá-lo. Mas, aos olhos da mesma História, o importante é tentar compreender o resultado final, já que, em nome da democracia e da liberdade dos povos — valores ditos opostos aos defendidos por Fidel Castro — se têm desencadeado guerras horríveis e se têm condenado uns milhões à fome outros milhões à morte. E todos são inocentes que partem deste mundo sem a mais pequena noção da culpa que lhes cabe.

Hoje — há anos — Cuba perdeu o seu aliado privilegiado. Perdeu-o, porque o sistema político construído em Moscovo, não conseguiu encontrar a resposta para uma concorrência económica e militar que o mundo ocidental lhe vinha desencadeando desde 1945; não conseguiu fugir a uma concorrência que julgava possível e optou por um imperialismo expansionista de um ideal corroído pela brutalidade de um sistema repressivo; não conseguiu deixar de se tentar por uma burocracia que matou o valor real e prático dos sovietes. Cuba sem o auxílio da URSS (não totalmente desinteressado, porque esta recebia açúcar a preços fora de qualquer concorrência!) teve de aceitar abrir-se a um turismo que, para lhe permitir aumentar os dólares no banco central, lhe corrói os princípios de uma moral cívica construída na base de um socialismo de resistência. Os Cubanos estão a perder-se, porque lhes falta o essencial... E a fome é sempre má conselheira!

Cuba depois de Fidel? Um enigma. Nunca mais será igual à Cuba do tempo de Flugêncio Baptista, mas também não vai ser a Cuba de Castro. Espera-a o aumento da corrupção, o turismo sexual, o aproveitamento de uma pobreza que hoje dói. Mas há-de restar uma imensa camada intelectual que se recordará do lado bom do socialismo cubano e é nesses que podem residir as respostas dialécticas que comandam as sociedades evoluídas.

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por Luís Alves de Fraga às 11:27

Sexta-feira, 11.08.06

Antigamente era mais fácil...

 

Na verdade, até à segunda Guerra Mundial, a vida diplomática dos Estados era mais fácil quando confrontada com conflitos bélicos. A ONU e o Conselho de Segurança vieram permitir uma brutal confusão nas relações internacionais.

Realmente, antes da existência destes pseudo mecanismos de regulação da vida internacional (porque efectivamente o que se regula são interesses estatais, começando pelos grandes!) os Governos dos Estados, face a conflitos bélicos optavam por fazer declarações públicas de beligerância ou de neutralidade. Por vezes, quedavam-se pelo silêncio, quando a situação não estava devidamente esclarecida, aguardando por melhor oportunidade para tornar pública a sua postura internacional.

Se assim ainda fosse, Portugal já teria apresentado, no Parlamento, poucos dias após o começo das hostilidades, a sua declaração de neutralidade face ao conflito no Médio Oriente e, por conseguinte, estariam automaticamente limitadas todas as acções consideradas beligerantes de apoio às partes em confronto. Deste modo, Israel, pura e simplesmente, não teria feito passar pelas Lajes uma aeronave com material bélico de «pouca importância», porque a isso o impedia o estatuto nacional português; a isso o impediria o Governo de Lisboa, por causa da declaração feita. Na ausência desta última, por indecisão do Governo de Sócrates, a simples autorização era considerada internacionalmente como um acto pró-israelita e, deste modo, contra a causa islâmica ou palestiniana ou seja o que for.

Este exemplo, que toda a gente percebe, demonstra como os órgãos internacionais de regulação da vida entre os Estados são frágeis e presas das grandes potências e dos grandes interesses económicos. No final da segunda Guerra Mundial, a criação da ONU pode ter sido um acto extraordinário na crença da bondade humana, tal como pode ter sido o maior logro inventado para consumo de todos os Estados. A prática posterior aponta para a segunda hipótese, pois o tipo de Direito internacional que funciona para apoiar as decisões daquele areópago é o ditado pela voz dos representantes dos mais poderosos Estados.

Quem introduziu este tipo de hipocrisia nas relações internacionais foram os Estados Unidos. Isso também se demonstra, lembrando simplesmente a falência da Sociedade das Nações, onde, por vontade do Congresso americano, o seu Executivo não estava representado. Esse organismo, criado por sugestão do presidente Wilson, correspondeu a uma tentativa de conciliar a velha tradição internacional, onde imperava o direito da força, com uma outra que se norteasse pelo direito da razão. A derrocada foi inevitável, porque, sendo poucos os centros de decisão internacionais (isto é, os Estados independentes) quem possuía a máxima capacidade bélica não precisava de mascarar as suas intenções face a uma opinião pública ainda pouco importante nas decisões externas dos Governos. Recordemos que foi a Alemanha nazi quem, numa perspectiva científica apoiada na exploração prática da psicologia, desenvolveu as técnicas de controle da opinião das massas populares; técnicas que são, nos tempos que correm, tidas como infantis se comparadas com as usadas hoje em dia por qualquer meio de comunicação (como exemplo, veja-se a notícia de Le Figaro de hoje).

A segunda Guerra Mundial foi uma extraordinária escola onde os EUA aprenderam que o isolamento lhes era prejudicial, porque a sua fronteira económica não poderia nem deveria confinar-se ao continente americano, tendo de atingir a dimensão global. Fiéis a essa ideia, têm espalhado o terror e a sua magna ignorância de novos-ricos alcandorados ao patamar do mando. Quem lhes percebeu a artimanha foi o general De Gaule... talvez por ser mais alto que a maioria dos mortais ou por não se conformar com um mediano papel internacional para a França!

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por Luís Alves de Fraga às 09:18

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