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Fio de Prumo



Quinta-feira, 20.07.06

Alguém mais ouviu falar?

Hoje não me vou ocupar de questões militares, pelo menos, aparentemente. Não. Prefiro deitar um olho para o passado e repescar velhas notícias de que ninguém já se recorda para as lembrar e deixar à consciência dos meus leitores a interrogação sobre o que este Governo fez em prol de averiguar o factos denunciados na altura, recordando-lhes que, entretanto, este mesmo Governo foi pródigo em medidas que prejudicam os contribuintes que lhes pagam as mordomias.

 

Começarei pela mais antiga das notícias. Terei da traduzir, porque guardei-a da versão on-line do jornal catalão La Vanguardia, de 21 de Outubro de 2005. É assinada por Jordi Joan Baños. Intitula-se, em castelhano, de forma bem expressiva: «Portugal lava más blanco». Aí vai a tradução:

 

«Sedes de importantes Bancos e até domicílios de banqueiros estão sendo revistados, desde segunda-feira passada, na maior operação jamais levada a efeito em Portugal contra a evasão fiscal e o branqueamento de dinheiro. A investigação, confirmada ontem pela Inspecção Geral Fiscal do Estado [Fiscalía General del Estado], pretende provar a criação de empresas fantasmas através das quais os bancos canalizam fundos de alguns grandes clientes para paraísos fiscais. A imprensa portuguesa revelou que a Polícia Judiciária já revistou, na segunda-feira, as sedes do Banco Espírito Santo (BES) em Lisboa, Porto e a zona franca da Madeira, assim como as habitações de vários assessores e membros da família proprietária da entidade, os Espírito Santo. A confiscação de computadores e de documentos prosseguiu ao longo da semana nas sedes do Banco Comercial Português (BCP), do Banco Português de Negócios (BPN), Finibanco e, desde ontem, também no Banco Comercial Português (Millennium-BCP). Segundo o Correio da Manhã estão a ser executadas uma centena de ordens de inspecção entre hoje e a próxima segunda-feira, algumas das quais afectariam assessores e até presidentes de bancos.

A fiscal Rosário Teixeira ordenou o levantamento do segredo bancário concretamente para as sociedades de investimento Plafin, do BPN, e Servitrust, do BCP. Sob a alçada judicial está também o private banking ou aplicações financeiras para grandes clientes, a partir de 30.000 euros. Segundo publica o Jornal de Notícias, no caso do BES está sob investigação o possível encaminhamento de fundos para uma sucursal off-shore na ilha da Madeira, que, de seguida, seriam reintroduzidos em contas dos mesmos clientes em Portugal continental. Também se encontram sob investigação vários escritórios de advogados especializados na criação de empresas fantasmas em paraísos fiscais, sendo que estas operações se publicitam em anúncios de imprensa pelo custo de, apenas, 2.500 euros.

Tudo isto começou com uma inspecção de rotina a uma firma de Barcelos, especializada no fabrico de objectos em cerâmica, no norte do país, na qual se detectaram contratos em nome de uma empresa sem existência física, relativos a uma prestação de serviços que nunca foi feita.. Neste momento as inspecções executadas por uma centena de agentes da Polícia Judiciária e da Inspecção Geral de Finanças, estão sendo coordenadas pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal do Ministério Público. Mas as delongas da pesquisa geram dúvidas sobre a efectivação da mesma em face da possibilidade de destruição de provas. Ainda, segundo o diário Público, os magistrados contam já com a gravação de milhares de horas de escutas telefónicas.

O Banco de Portugal, encarregado de supervisionar a legalidade do sector bancário, afirma agora ter detectado transacções de possível irregularidade, mas que não informou atempadamente a Inspecção de Finanças por falta de elementos probatórios das mesmas. Segundo a Inspecção de Finanças, a fraude do erário público alcançaria “muitos milhões de euros ao longo dos três últimos anos”.

Deve dizer-se que o presidente do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado, em declarações efectuadas numa entrevista à televisão, só admite “pequenas negligências”, argumenta que a “economia paralela” é um problema universal e que o próprio banco tem mecanismos de controle. A investigação não afecta nenhum dos bancos espanhóis que operam em Portugal, como o Banco Santander, o BBVA e o Banco Popular. Será oportuno assinalar que ontem o banco mais penalizado na bolsa portuguesa, com uma caída de 2,72%, foi o Banco Português de Investimentos (BPI), que até agora não tinha sido objecto de investigações por parte da Inspecção Fiscal. O ranking bancário português é encabeçado pelo Millennium-BCP e pela Caixa Geral de Depósitos, com o Banco Espírito Santo em terceiro lugar.»

Acaba aqui a tradução de toda a notícia. Mas não acaba aqui o que gostaria de recordar aos meus leitores. Veja-se, no dia 29 de Maio do corrente ano, a crónica de Rui Costa Pinto, intitulada «Silencio ensurdecedor», na Visão on-line.

A dado passo afirma o autor: «Em termos internacionais, Portugal é visto como uma espécie de potencial paraíso da fraude e do crime de colarinho branco.

A avaliação dos especialistas estrangeiros sobre o combate à corrupção em Portugal é tão humilhante que deveria fazer corar de vergonha qualquer governo democrático.»

 

Alguém se lembra destas notícias?

Têm, respectivamente, nove e dois meses de publicadas.

Quem se lembra de ver escarrapachado nos jornais, badalado nas televisões, os resultados dos escândalos de Outubro do ano passado? O que fez o Ministério Público? Onde estão os administradores de todos aqueles bancos?

Não, ninguém se lembra, ninguém ouviu mais falar de tais assuntos, mas todos se recordam do enorme «desperdício financeiro» que representa comprar submarinos para a nossa Armada. Toda a gente tem opinião quanto a esse assunto. Todos têm bem presente a necessidade de se reduzirem os gastos com a saúde e assistência médica dos militares. Muitos sabem que é necessário vender parte dos mais modernos aviões da Força Aérea por falta de verbas para sustentar a sua operação.

E sabem qual a razão porque se recordam destas questões? Pensem um pouco. Porque a comunicação social, todos os dias, ao serviço das artimanhas do Poder político, recorda os cidadãos desses mesmos temas, silenciando os gravíssimos crimes de colarinho branco que imperam neste desgraçado país. E silenciam, porque o Poder político é conivente com os criminosos que continuam a movimentar-se nos corredores dos ministérios, do parlamento e nas redacções dos periódicos e das estações televisivas. Somente isso, nada mais! Nada mais!

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por Luís Alves de Fraga às 23:52

Sábado, 15.07.06

A viatura do comandante

Mais ou menos por vagas cíclicas, os órgãos de comunicação social dão-nos notícia da renovação das frotas automóveis dos administradores do Banco de Portugal, dos presidentes de Câmaras Municipais, de ministros, e de outras entidades que vivem e esbanjam os dinheiros públicos, o mesmo é dizer, de todos nós. Mas o bode expiatório dos gastos anormais e sumptuários deste país, mais tarde ou mais cedo, através dos mesmos órgãos de comunicação social, acaba sendo as Forças Armadas. Mais subliminarmente, ou sem subtileza nenhuma, lá está escarrapachado nas páginas da imprensa a notícia de uma pensão milionária de um general ou gastos aparentemente desnecessários com a defesa armada do país. Desmentir e provar o contrário é tarefa ciclópica, mas não impossível. Talvez, porque quixotescamente gosto de lutar contra moinhos de vento em defesa da minha «dama», lá vou hoje, junto dos meus leitores, fazer prova de como se poupam, no seio da corporação militar, os dinheiros públicos. Poderá ter detractores a minha argumentação; poderão querer deturpar as minhas palavras, mas elas ficam aqui, afinal, para os Homens honestos e de boa vontade. Vamos à estória.
Há tempos, o comandante de uma unidade do Exército, cujo aquartelamento se situa no centro do país, convidou-me para fazer uma conferência aos seus militares sobre a participação de Portugal na Grande Guerra.
Tal como vem sendo hábito nas unidades com sede em pequenas urbes da província, os comandos procuram abrir tais eventos à população civil de modo a esta poder beneficiar de uma saudável inter-penetração de convívio e, ao mesmo tempo, gerar uma maior animação cultural em terras onde as rupturas da rotina são raras. Assim, acabei falando para uma vasta e heterogénea audiência, utilizando o auditório da biblioteca municipal da localidade.
Nada disto teria interesse referir se eu não pretendesse enaltecer esta nova sensibilidade de muitos comandantes que «abrem» a vida militar às populações civis, numa atitude de imensa compreensão de como é importante não haver um divórcio entre quem vive no quartel e quem, à sombra dele, habita. Todos os louvores são poucos para enaltecer esta postura.
A gentileza do comandante da unidade foi ao ponto de me mandar buscar e trazer a Lisboa na viatura que lhe está distribuída para deslocações em serviço. É um automóvel de função, a gasóleo, sem mais distintivos que a matrícula militar sob a qual não é possível descobrir o ano de entrada em circulação do veículo.
A viagem para lá foi óptima, segura, a uma velocidade dentro dos limites permitidos pela Lei e com uma «resposta» do motor em tudo semelhante à de um carro usado e que até poderia ser o meu.
Ao fim da tarde, depois da conferência, pouco antes de entrar de novo no mesmo automóvel para fazer a viagem de regresso, perguntou-me o comandante:
    E que tal se portou o carrito, na vinda?
Como seria de esperar, não só por delicadeza, manifestei a minha satisfação, tecendo encómios ao condutor e à viatura e qual não foi o meu espanto quando me diz, com um sorriso de satisfação nos lábios:
    Pois, aqui onde vê este carro, estão já dezoito anos de serviço!
Desta vez olhei para o automóvel com verdadeiro respeito. Dezoito anos com aspecto de ter seis ou sete de uso!
No regresso, depois de recapitular a simpatia de um dia bem passado, entre camaradas do Exército e uma população civil generosa nos elogios tecidos à minha exposição, não pude deixar de concentrar, agora com redobrado cuidado, a atenção no funcionamento do carro que me transportava. Era um utilitário de marca Opel, sem luxos, mas cómodo, com o motor trabalhando em disfarçado ronronar, amortecedores suaves, compensando a característica irregularidade do piso das nossas autoestradas, enfim, uma viatura que não envergonha quem lá vem dentro nem dá trabalhos de maior a quem a conduz. Depois desta observação, fiquei, naturalmente, a pensar nos gastos na aquisição de sumptuosos carros para entidades eleitas por todos nós ou escolhidas por quem nós elegemos para nos governar! Que diferença entre quem serve, efectivamente, com dignidade e modéstia o país e o Povo e a cáfila de pavões que malbaratam o nosso dinheiro para se darem ares e importância que não têm, nem jamais terão!
Porque será que uns possuem o real sentido de serviço nacional e outros o de serviço pessoal?
Até quando, senhores?!

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por Luís Alves de Fraga às 19:18

Segunda-feira, 10.07.06

Pensões milionárias

 

Há tempos, chegou-me às mãos, já nem sei vindo de onde ou de quem, uma mensagem reportando o escândalo das chamadas pensões milionárias e, para exemplificar, referia a notícia do jornal Correio da Manhã que, entre outras, citava, com fotografia, o caso do General, agora reformado, Alvarenga de Sousa Santos que exerceu as funções de Chefe de Estado-Maior da Força Aérea e as de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas. Desempenhou, no fim da carreira, os mais altos cargos militares que podem ser atribuídas a um oficial. Só isso! Deve acrescentar-se, porque poderia parecer semelhante ao exercício de funções de qualquer Presidente da República — dez anos em dois mandatos —, que os cumpriu depois de uma carreira de, pelo menos, trinta e seis anos efectivos de serviço militar, com comissões em campanha.

Refere o jornal (como se poderá ver) ter-lhe sido arbitrada uma pensão de reforma no valor de € 5584 e, depois, menciona com pensões semelhantes o caso de dois juízes desembargadores com menos três euros mensais!

Para além de patética, é ridícula a notícia!

Note o leitor, com bom-senso, a tremenda contradição, a maldade, a insidiosa velhacaria que se pretende passar para o público: um general que percorreu o máximo da hierarquia militar portuguesa e de qualquer país comparado com dois juízes desembargadores! Será possível — e, pessoalmente, não sei — que estes também tenham atingido o máximo das suas carreiras, mas, não há dúvida, é que, em simultâneo, há mais do que quatro juízes desembargadores no país a exercer funções e nas Forças Armadas há só três Chefes de Estado-Maior — um por cada Ramo — e um Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. A falácia em que se pretende induzir os Portugueses é esta!

Não está errado um chefe militar, que atingiu o máximo de toda a hierarquia, ter uma pensão de reforma de mais de cinco mil euros mensais! Errado está que um sargento tenha uma miséria! Que um coronel tenha uma ridicularia comparado com o nível de exigências que lhe foram feitas ao longo de, pelo menos, 36 anos de serviço! Errado está um ministro, que foi durante meia dúzia de anos deputado, ter uma pensão de reforma semelhante à de um militar que se viu obrigado a tudo sacrificar na vida durante uma vida de trabalho! Errado está que um autarca possa usufruir de pensão de reforma, ao cabo de catorze anos de exercício de funções, semelhante, em valores, à de um militar que, além de ter estado nas fileiras trinta e seis anos, sofreu deslocações por todo o país, esteve dias e dias sem ver a família, correu riscos incalculáveis! Tudo isto é que está errado!

Injustiça social é a comparação que se faz entre funcionários cujas vidas passaram sem sobressaltos de maior — e, quando os tiveram, foram compensados com largueza financeira — e militares que auferem valores que envergonham quem recebe e quem paga!

Injustiça social é um Estado permitir desníveis acentuados de salários e pensões entre funcionários que a pouco são obrigados e outros que tudo estão prontos a sacrificar para cumprirem compromissos livremente aceites para servir a colectividade.

Para que línguas viperinas não possam extrair conclusões sobre aspectos inexistentes, deixo claro que nada me liga ao General Alvarenga de Sousa Santos, para além da camaradagem de armas que me amarra a qualquer outro militar — general, sargento ou praça.

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por Luís Alves de Fraga às 09:36

Sábado, 08.07.06

A Ética Militar e a Política

 

Em apontamento anterior já referi a releitura da obra A Abrilada de 1961. Não me vou repetir, mas, ao meditar sobre o relato dos factos, assaltaram-me questões que não posso deixar de partilhar com os meus leitores.

A razão fundamental do falhanço da tentativa de afastamento de Oliveira Salazar das cadeiras do Poder, em Abril de 1961, encontra uma grande parte da justificação em considerações de carácter ético dos militares que estavam envolvidos na intentona e que, afinal, eram ministros ou altos responsáveis castrenses. Quiseram fazer um golpe dentro mais estrita legalidade. Como se isso fosse possível!

Há meses escrevi aqui sobre a atitude do general espanhol José Mena Aguada, quando, a propósito da autonomia catalã, com grande frontalidade, avisou a classe política de Espanha de que não poderiam ser ultrapassados os limites da Constituição. Foi afastado do alto cargo que exercia, depois de sofrer punição disciplinar, e quase o crucificaram com o instigador de golpes antidemocráticos. E tudo porque, nos tempos que correm, se entendeu que as Forças Armadas estão absolutamente subordinadas à vontade do Poder político.

Claro que estão e não podem deixar de estar, mas como em tudo na Vida há limites que devem ser observados! Esses são os limites da Ética Militar. Mas haverá uma ética para os soldados e nenhuma para os cidadãos? E nenhuma para os políticos? Como é que articulam — se é que isso é possível! — as diferentes «éticas»?

Para simplificar as questões por mim levantadas julgo que se pode resumir tudo a uma simples pergunta: — Porque é que nos países do Norte da Europa, incluindo a Grã-Bretanha, não há tradição de intervenção dos militares na Política e ela existe na França, na Espanha, na Itália, na Grécia, em Portugal, nos Estados da América do Sul, em África e em alguns outros?

Creio que a explicação é muito singela. Vejamos.

O Poder militar só tem, por regra, tendência a interferir com a regular vivência do Poder político em circunstâncias bem determinadas: a) quando é vítima das arbitrariedades desse mesmo Poder; b) quando o nível de corrupção se estende transversalmente a toda a sociedade e secciona o Poder militar corrompendo-o, também; c) quando o nível de desordem social atinge pontos de ruptura e coloca em causa a estabilidade do Estado; d) quando o Poder político alimenta a corrupção entre os apaniguados de quem governa, gerando grandes e graves injustiças sociais; e) quando a independência e a soberania correm riscos e o Poder político não assume ou não tem capacidade para assumir a direcção da defesa do Estado. Poderá haver situações em que se combinam algumas destas alíneas ou que se apresentem variantes das que enunciei.

Julgo que há circunstâncias que são características de Estados africanos, outras que são comuns a Estados sul-americanos e outras a Estados europeus. Creio que, neste último caso, estão as que tipifiquei nas alíneas c) e d).

Tentarei ser mais específico, socorrendo-me do exemplo nacional.

A situação prevista na alínea c) foi a que justificou a intervenção militar em 28 de Maio de 1926, impondo a ditadura. É evidente que a explicação não se limita nestes curtos termos! Contudo, foi ela que vigorou e vingou para transformar uma ilegalidade num acto legítimo. E não tenhamos dúvidas da legitimidade do golpe que impôs a ditadura! Toda a gente, com excepção de um pequeno grupo de políticos mais clarividentes, apoiou a tomada do Poder político pelo Poder militar no momento do seu implante. Anos depois, o descontentamento já era significativo.

O problema da legitimidade da ditadura de 28 de Maio está indissoluvelmente ligado à questão da ordem pública. As principais cidades portuguesas, de então, viviam em constante desassossego quer por causa das sucessivas greves quer em consequência dos atentados — com características de terror — que os anarco-sindicalistas levam a efeito a toda a hora quer, ainda, pela própria insegurança provocada por grupos de bandidos e fora-da-lei que incomodavam as pacatas populações. A impossibilidade de os políticos e o sistema democrático vigente serem capazes de controlar a desordem — que também se espalhava à própria disputa partidária — levou a que o Exército impusesse a força das armas, invocando para tal a sobrevivência da Nação. As Forças Armadas fizeram aquilo que nenhuma organização política ou social poderia fazer, até por lhe faltar a credibilidade e a representatividade nacionais.

Entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974 aconteceram várias tentativas de reposição da legitimidade democrática que falharam, essencialmente, não por serem descobertas pelo sistema policial vigente mas por a consciência nacional não ter ainda apreendido o quanto indesejável era, já então, o regime legal em exercício. A rua tem de dar legitimidade à revolta e ela passa, também, pelos quartéis. Nenhum soldado é só soldado; é também cidadão. Assim, só quando existe real sintonia entre o sentir do soldado e o sentir do cidadão é que estão criadas as condições para as Forças Armadas aderirem, sem relutância, ao desejo de mudança política.

A 25 de Abril de 1974 estavam reunidas as condições descritas por mim na alínea d): a consciência da corrupção a todos os níveis e de todas as formas, tal como a das injustiças sociais era sentida na rua e, também, nos quartéis. O golpe militar era inevitável, como inevitável tinha sido o de 28 de Maio de 1926!

Olhada desta forma a Ética Militar não pode ser entendida como um conjunto de valores inamovíveis e inalteráveis, pois assume-se como uma resposta dialéctica ao Poder político ou, se se preferir, à Ética comportamental do Poder político. Quando ele actua sem atender a uma Moral de irrepreensibilidade o Poder militar, mais tarde ou mais cedo, identifica-se com a vontade da rua e derruba o Poder político instituído para, em seu lugar, colocar aquele que lhe parece corresponder à defesa do bem-estar e da sobrevivência da Nação. Não há Poder militar golpista; há Poder político sem comportamento ético irrepreensível ou, pelo contrário, sem mácula. O Poder militar responde ao comportamento do Poder político, nada mais. É assim que se explica a falta de tradição intervencionista dos militares na política nos países do Norte da Europa — é que, por lá, os políticos praticam políticas não condenáveis! Por lá, os o Poder político tem uma Ética que cumpre rigorosamente... Por cá!... Bom, por cá, a postura moral dos políticos nacionais é de mero golpismo constante. Depois espantam-se!

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por Luís Alves de Fraga às 07:44

Domingo, 02.07.06

Revisitação do falhado golpe de Abril de 1961

A matemática nunca foi a minha disciplina eleita; estudei-a com muito trabalho e esforço, embora cumprindo minimamente o que me era exigido. As classificações obtidas são a prova bem clara do quanto falo verdade. Paradoxalmente, gosto de «brincar» com os números, estabelecendo relações e procurando nexos. O apontamento de hoje, em parte, demonstra esse meu estranho prazer.
Ao escrever esta nota para o «Fio de Prumo» - que seguindo a ortografia correcta deveria ter dois hífens a unir as diferentes palavras - encontro-me nas termas, no Norte de Portugal, por onde, há milénios, se passearam legiões romanas e, como senhores da terra, se instalaram prováveis nobres itálicos, quiçá, velhas famílias vindas da grande cidade do Tibre. Por hábito, trago na bagagem alguns livros para ler ou reler. Escolho-os em função do trabalho que me vai ocupar a mente nos meses mais próximos. Pelo meio, lá surge um romance, nos últimos anos, quase sempre histórico. Desta feita, comecei a estadia pela releitura de uma obra com trinta anos de editada e que, na época, me mereceu uma vaga atenção... À data os tempos não iam para preocupações com acontecimentos passados e falhados; vivia-se um momento de construção; todos andávamos preocupados com o futuro, pelo que, olhar para trás, era um desperdício! Hoje, talvez pelas circunstâncias, talvez pela idade, meditar sobre o passado tornou-se um dos meus mais agradáveis empenhamentos. Mas, com tanta explicação, quase deixo passar em claro o título do livro que acabei de reler. Aí vai ele: As Forças Armadas e as crises nacionais. A Abrilada de 1961; é seu autor o provecto coronel Fernando Valença, tio do general Valença Pinto, actual Chefe do Estado-Maior do Exército.
Há, pelo menos, vinte e cinco anos que conheço pessoalmente o autor e com ele já estabeleci vivos diálogos com duração de horas. É proverbial a capacidade oratória do coronel Valença, bem como a sua cultura humanística. Nos nossos encontros nem sempre estamos de acordo - é difícil estar em concordância com este oficial que saltita de argumento em argumento na esperança de ter sempre razão, pelo imenso gozo que lhe dá ver o oponente rendido ao seu muito saber -, mas acabamos sempre respeitando-nos; é que o coronel Valença, tendo em conta a sua avançada idade, gosta de cultivar oposições para dar largas ao seu espírito expressivo. Como há muitos anos lhe descobri essa necessidade vital, sempre me prestei a contribuir para lhe manter o gosto do diálogo comigo, exercitando as suas capacidades retóricas. Claro está, no meio de tudo isso, algumas coisas vou aprendendo.
O livro agora relido, conta e justifica o golpe de Estado, falhado, de Abril de 1961, também conhecido por «intentona Botelho Moniz». Para além de me querer documentar sobre a época, encontrei na nova leitura deste livro um agigantado prazer, se me esquecer do estilo rebuscado e adjectivado do autor.
Mas onde está tudo isto relacionado com a matemática? Com o gosto de «brincar» com os números? Eu explico, para o leitor mais inquieto.
Há 30 anos foi publicada a obra que dá pela designação genérica de A Abrilada de 1961; há 32 anos ocorreu em Portugal o golpe que derrubou a ditadura; o livro, como já disse, refaz, quase milimetricamente, alguns dos meandros da falhada intentona acontecida 33 anos depois do golpe militar de 28 de Maio de 1928. Quer dizer, a distância temporal que separa o falhado golpe, conduzido pelo general Botelho Moniz, contra o regime ditatorial quase corresponde à que nos separa, neste momento, da da mudança para o regime democrático. Cá estão o números a «brincar» comigo ou eu com eles!
E qual era, na estrutura mais elementar, o programa de acção que o ministro da Defesa Nacional, general Botelho Moniz, preconizava para pôr fim à ditadura? E qual era o «crime» de que os legalistas conspiradores mais acusavam o Poder, Salazar e toda a camarilha que lhe dava apoio?
Pois, para responder, nada melhor do que, pela mesma ordem das perguntas, dar a palavra ao coronel Fernando Valença:
Primeiro, «Proceder a uma depuração dos grandes “vampiros”, “tubarões” e “senhores feudais, exploradores do ultramar e também do povo português da metrópole;» (p. 147, sublinhado da minha autoria);
Segundo, «Ainda para tornar a questão mais delicada, sucede que muitas figuras chegadas aos sectores mais destacados da vida pública e aos órgãos impulsionadores da política do Estado Novo estão a colher benefícios pessoais pelo desempenho de cargos bastante bem remunerados, ou mesmo ligados a grupos cujos interesses económicos privados colidem em vários casos com os superiores interesses da Nação» (p. 158, sublinhado da minha autoria).
Ora diga-me agora o leitor, se depois de meditar com cautela nas exíguas passagens que transcrevi, não lhe dá vontade de comprar o livro há muito desaparecido das livrarias e lê-lo para lhe descobrir as similitudes com os 32 anos que passaram desde o dia em que nós, os militares, os capitães de Abril, decidimos levar por diante o que o ministro da Defesa Nacional, em 1961, por ser legalista, não foi capaz de, ou não quis, fazer: derrubar um regime que, havia 33 anos, se deteriorara e frustara até os ideais daqueles que o tinham implantado?
Uma lição colhi, outra vez, do meu velho coronel Valença: - a cautela e o bom planeamento revolucionários podem mais que o prudente golpe feito na mais estreita legalidade, mas acabam, ao cabo de 32 anos, pelo menos em Portugal, por descambar pelas mesmas estreitas veredas que conduzem ao arranjismo e à corrupção que caracterizou o liberalismo, na segunda metade do século XIX. Será sina ou defeito congénito?

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por Luís Alves de Fraga às 18:41


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