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Fio de Prumo



Sábado, 18.03.06

As nacionalizações de 1975

                                              

 

Há dias o comentador económico Francisco Sarsfield Cabral, no Diário de Notícias, abordou o problema das nacionalizações de empresas, em Portugal, na sequência do «11 de Março de 1975». Mais uma vez, trouxe à baila, como justificação da atitude adoptada pelo Governo da época, o papão do comunismo e do avanço para a socialização imaginada pelo comité central do Partido Comunista Português. Na minha opinião, é um argumento estafado, que ganhou foros de cidadania na História de Portugal. Vejamos dos motivos da minha discordância.

Em primeiro lugar, temos de ter consciência que a estrutura económica nacional, na época, assentava no poder de meia dúzia de grupos financeiros, dominando o mercado interno. Esses potentados, ainda que, alguns, contestando a rigidez imposta pelo Estado Novo, por lhes limitar os desejos de expansão, viam na democracia nascente um adversário de peso, porque iria permitir a livre contestação dos salários pagos, dos horários e dos abusos de toda a natureza que eram praticados contra os trabalhadores. Deste modo, a democracia plena e absoluta, conforme a imaginaram os ideólogos do Movimento das Forças Armadas (MFA) estava comprometida e ferida gravemente. Os grandes interesses financeiros tudo fariam para animar partidos políticos virtualmente democratas que retardassem, ou mesmo impedissem, a democratização. Um só processo parecia viável para garantir o alcance dos objectivos mais puros e mais sinceros dos militares de Abril: «quebrar» a espinha dorsal de um sistema poderoso e obstaculizante. Foi esse o motivo pelo qual desde o extinto partido MDP/CDE ao PPD, passando pelo PS e, naturalmente, pelo PCP todos estiveram de acordo com a nacionalização da banca e das companhias de seguro, facto que, em sim, arrastou à nacionalização de muitas empresas onde Bancos e Seguradoras tinham posição maioritária ou mesmo maioria absoluta do capital. Sem qualquer dúvida, neste ponto havia concordância entre o programa do PCP e as forças democráticas, mas daí a dizer que o projecto era exclusivo dos comunistas vai uma imensa distância.

Quem estudar a História de Portugal com a capacidade para compreender imparcialmente os diversos períodos de crise grave que nela tiveram relevo, verifica como, em vários momentos, as forças representativas do progresso se viram forçadas a «nacionalizar» o poder material das forças reaccionárias. Isso aconteceu — e nós agradecemos que tenha ocorrido — em 1383-1385, quando D. João, Mestre da Ordem Militar de Avis, Defensor e Regedor do reino de Portugal, mandou que se confiscassem os bens dos nobres que se haviam bandeado com o rei D. Juan i de Castela, pretendente ao trono; voltou a ocorrer quando, em 1834, finalmente saiu vitorioso o regime liberal e decretou a expulsão das ordens religiosas e o confisco de todos os seus bens, já que, então, eram os frades aqueles que mais combatiam as novas ideias e contra elas mobilizavam a opinião ignara das populações rurais e até urbanas; aconteceu, de novo, embora em menor escala, quando a República se implantou entre nós e outra vez se teve de atacar a Igreja por ela, repetindo as práticas obscurantistas do passado, ser o pilar reactivo onde se escoravam os projectos de derrube do novel regime. Como se vê, sempre teve de ser assim!

É pena que, em muitos casos, a ignorância da História dite tomadas de posição pouco esclarecidas, mas é bem pior quando, conhecedores de História pátria, por simples oposição e receio de uma ideologia já hoje a viver o estertor de uma morte anunciada desde a queda do mundo comunista, exploram sentimentos sem sentido e os deixam abrir caminho na imaginação de quem não viveu ou não teve consciência plena dos acontecimentos de há trinta e um anos, em Portugal.

Sarsfield Cabral é um comentarista bom demais para que tenha de recorrer a argumentos tão pequeninos e insignificantes.

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por Luís Alves de Fraga às 21:45


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