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Fio de Prumo



Sábado, 25.02.06

Não podemos esquecer

Da minha experiência de contacto com gente jovem, creio poder afirmar existirem três tipos de Portugueses diferentes: os que ainda sabem, com boa memória, o que foi a PIDE/DGS; aqueles para quem esta sigla diz vagamente alguma coisa e, finalmente, a grande maioria desconhecedora. Estão neste grupo os mais novos enquanto, no primeiro, os muito mais velhos.


Tenho-me perguntado, qual o motivo para este esquecimento, e só encontro uma razão: o silêncio lançado sobre a actividade de tão sinistra polícia. Silêncio, umas vezes conivente outras ignorante; mais raramente, um silêncio saudoso.


A PIDE/DGS (Polícia Internacional e Defesa do Estado/Direcção Geral de Segurança) foi a força pública de carácter político que manteve em respeito e silêncio a grande maioria dos portugueses, tal era o receio por ela imposto. Receio, é pouco: medo! Era tenebrosa essa organização cujo nome herdou da antiga PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). Opiparamente pagos, os seus agentes, foram os algozes da liberdade em Portugal.


Esta sinistra gente dividia a sua actividade entre dois serviços e, durante o período da guerra colonial, em três, a saber: policiamento de fronteiras, onde procedia ao controlo de quem entrava e saía do país, fazendo de Portugal uma prisão sem grades e sendo esta a mais inocente das suas funções; policiamento político do território nacional, actuando contra todas as tentativas de alteração da ordem política, passando pelo controle da liberdade de expressão, reunião e associação; para tanto, servia-se de uma imensa rede de informadores anónimos que actuavam em todos os agrupamentos sociais de Portugal. Havia bufos nos quartéis, nos empregos, nas fábricas, nas escolas, nas universidade, nos hotéis, nas associações recreativas, nos clubes de futebol, nos prédios, nas ruas, enfim, em todo o lado. Muitos bufos estão ainda vivos e incólumes, nunca tendo sofrido qualquer perseguição após trinta e um anos de democracia. Vivem acobertados pelo sistema de codificação que a PIDE lhes criou. São, entre nós, a quinta coluna do fascismo ainda não desarmada completamente. São a vergonha da democracia, de uma democracia que decidiu passar uma esponja por cima desse lado escuro e ignóbil do fascismo, convencida que o arrependimento seria suficiente para esconjurar essa escumalha social. Ledo engano! Os anos foram deixando que eles mostrassem as unhas negras, mas afiadas. Ainda anseiam por vingança, ainda gostariam de cevar na populaça a raiva guardada durante estas três décadas. No silêncio das suas casas e nos miseráveis recantos da sua mente sonham o momento em que a repressão brutal volte a cair sobre os trabalhadores cada vez mais explorados. Para eles seria o imenso gozo. Babam-se de lasciva vontade de rever a ordem pública imposta a bastão. Eles existem. Eles estão ainda vivos e reproduzem-se, inoculando nas crias a xenofobia, o racismo, a homofobia, a intolerância e o gosto pelo obscurantismo.


A terceira actividade foi desenvolvida durante a guerra colonial e, em África, desempenharam a função de polícia de informação militar. A eles, e aos seus informadores, se ficou a dever todo o antecipado conhecimento da actividade dos guerrilheiros. Os nossos oficiais apreciavam muito o seu trabalho, porque, graças a ele, podiam montar as operações de guerra com êxitos antecipados. Tinha mérito, aqui, a acção da PIDE/DGS! Mas tal virtude resultava de a organização militar ter aceite a castração de um serviço que devia fazer parte da orgânica de campanha e que o medo de Salazar pelas conspirações atentatórias da sua autoridade havia impedido de activar: tratava-se do serviço de informações militares.


Realmente, todas as Forças Armadas, desde muito cedo — inclusive as portuguesas —, pelo menos em tempo de campanha, mantinham um serviço de espionagem e contra-espionagem a seu cargo. Em Portugal abdicou-se disso, entregando à PIDE/DGS essa função. Foi a «admiração» desenvolvida durante treze anos de guerra que gerou a complacência do pós-25 de Abril para com a nefanda organização.


Aos Portugueses que desconhecem os crimes praticados pelos agentes da PIDE/DGS bastaria mostrar-lhes o que é a tortura do sono ou a estátua, situações em que a ausência de repouso gera perturbações orgânicas graves: alucinações que podem conduzir à loucura e inchaço dos pés que pode exigir o uso de sapatos com dois e três números superiores aos habituais. Durante muitos anos, as agressões físicas foram de uso comum na sede da polícia; mais tarde, passaram à agressão psicológica através de fornecimento de informações falsas sobre o comportamento de familiares próximos do prisioneiro. Perante nada os algozes se intimidavam... Estavam cobardemente cobertos pela capa da impunidade.


Portugal não quis esquecer os mortos da guerra de África e, por isso, fez-lhes um memorial que está bem à vista de toda a gente. Não pode ser um símbolo de louvor a este ou àquele regime, mas um hino de gratidão da Pátria pelos seus filhos, por aqueles que deram o que de melhor tinham para a servirem.


Portugal tem de ter um memorial, recordando todos os combatentes pela Liberdade que passaram pela sede da PIDE/DGS e ali sofreram enxovalhos de toda a ordem. O nome deles deve figurar algures naquelas paredes e, se possível, a sua fotografia. Foram também heróis anónimos sobre cujo sofrimento construímos o Estado democrático que hoje possuímos. A Liberdade, no seu altar, tem «santos». São homens e mulheres que sacrificaram livremente o seu livre viver para que, na luta constante, na cadeira onde se sentava o Poder despótico a instabilidade fosse permanente. Não devemos cuidar de saber se serviam este ou aquele partido político. Importante é que serviam Portugal, servindo a Liberdade.


Portugal tem de ter um memorial e uma memória para que se não esqueça o que foi o regime que nos fez marcar passo frente à modernidade; para que nunca mais haja a tentação da ditadura.

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por Luís Alves de Fraga às 15:17


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