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Fio de Prumo



Segunda-feira, 28.11.05

Cambada de inutéis...

O apontamento de hoje tem por base o comentário de um meu leitor. Agradeço-lhe, pela oportunidade que me ofereceu.


Não são raros os cidadãos que, tendo passado pelas fileiras (entenda-se, por aquilo que vulgarmente se designa por tropa), uma vez na disponibilidade ou desligados do serviço, expressam a opinião de que, por nada terem feito durante esse período da sua vida, os militares são uma cambada de inúteis, por os quartéis serem lugares onde o ócio assentou arrais. E quando os militares pretendem justificar pontos de vista contrários a tal opinião, não passam de um grupo corporativo a defender privilégios.


Claro que esta argumentação pode ser desmantelada de várias maneiras, mas seria fastidioso fazê-lo aqui. Vou tentar provar a falácia utilizada, socorrendo-me de exemplos muito simples.


Numa região onde não há fogos, nem inundações, nem desastres, nem outras ocorrências estranhas, os bombeiros são inúteis. Inúteis, porque não fazem nada! E quando houver um incêndio e eles não souberem como utilizar o material ou, até mesmo o material, por falta de uso, por carência de verbas para treinos, estiver inoperativo, que tipo de bombeiros são estes? Uns inúteis, porque não provaram a sua utilidade. Para serem «úteis» deveriam, se calhar, de vez em quando, atear um «fogozinho» para depois o irem apagar... Mas não é o caso.


Imaginemos uma outra região onde até, de vez em quando, os bombeiros são chamados para acorrerem a pequenos acidentes e há um — não operacional —cuja obrigação é atender as chamadas telefónicas (que, por força das circunstâncias, são poucas). Esse bombeiro entretém o tempo, no seu posto, em amenas cavaqueiras com os familiares distantes, a namorada, os amigos espalhados por esse país fora. Qual a visão que tal soldado da paz tem da actividade do seu quartel?


Curiosamente, todos os militares que fizeram a guerra em Luanda, ou nas grandes cidades das colónias, sem nunca terem ido para o mato, ao regressarem a Portugal tinham da mesma um entendimento bem diferente daqueles cuja comissão foi passada em aquartelamentos precários, sujeitos a emboscadas nas deslocações e a ataques inesperados de um adversário astuto e conhecedor do meio ambiente. Infelizmente, o valor das Forças Armadas mede-se, muitas vezes, com base na estreita visão e inexperiência de alguns antigos militares ressabiados. É, por isso, uma análise parcial e pouco fiável. Para podermos compreender o que parece uma inutilidade teremos de saber bastante mais sobre a essência da função castrense.


O que tem de ser hoje a actividade de um quartel, de um navio ou de uma base aérea? Como decorre o dia-a-dia do pessoal encarregue do apoio logístico das unidades operacionais? Respondamos.


Tal como os bombeiros da região onde nada acontece, os militares podem assumir duas posturas: manterem-se preparados para o desempenho da sua função principal: fazer a guerra; ou, porque não tem orçamento que tal permita, ou por falta de ordens nesse sentido, nada fazerem para além da rotina diária própria da guarnição de uma unidade bélica. Em ambas as circunstâncias há sempre quem trabalhe; são aqueles que pertencem à chamada área do apoio logístico os quais passam pelo barbeiro, os mecânicos, os cozinheiros, os quarteleiros, os enfermeiros, os médicos, o pessoal dos serviços administrativos e de secretaria, entre outros. Estes têm sempre trabalho a desenvolver, mesmo que os operacionais estejam inactivos.


A inactividade dos operacionais conduz sempre à sensação de que todos os outros nada fazem, mas, pior do que isso, à incompreensão da sua própria utilidade. Pena é que ainda haja gente que, tendo sido militar, desconheça os fundamentos da utilidade da instituição castrense.

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por Luís Alves de Fraga às 23:34


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