Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fio de Prumo



Domingo, 06.11.05

À espera de um Sebastião

 

Redigido no fim da tarde de 2 de Novembro de 2005.


 


 


 


Agora, neste mesmo instante em que começo a escrever, há exactamente duzentos e cinquenta anos, Lisboa ainda ardia, reduzida a escombros, depois do terrível terramoto que a arrasou quase por completo.


Ontem, segundo me consta, não houve qualquer tipo de actividade sísmica no nosso território. Não houve, aparentemente!


- Aparentemente?...


É verdade. Só aparentemente, porque a sofrer sucessivos abalos não telúricos está Portugal há vários anos... Talvez vinte.


Abalos resultantes do desencontro de Portugal consigo mesmo.


Desde 1415 os Portugueses passaram a viver para fora, para o comércio que, rendoso, faziam com os povos da costa de África, do Oriente, do Brasil. E, seguindo a linha do poema de Manuel Alegre, quantas mais terras descobriam, mais se perdiam. Perdiam-se, porque se afastavam do solo pobre que lhes coubera em sorte e do subsolo carente de valores de modernidade (ouro, cobre, ferro, carvão, petróleo). Desperdiçaram o pouco que tinham, que era o infortúnio de nada ter. Desperdiçaram o provérbio «a necessidade aguça o engenho». O engenho que desenvolveram foi o de comerciarem com os povos de além-mar.


Depois de extinto o incêndio em Lisboa e de instalada a corte real em tendas, no Alto da Ajuda, na zona sobranceira a Belém e ao Tejo começou o afã de enterrar os mortos e tratar dos feridos. Foi a vontade férrea de um ministro despótico, mas esclarecido, porque, educado no estrangeiro, não se media com os padrões da mesquinharia nacional, chamado Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro, conde de Oeiras (onde agora imperam barões que no estrangeiro parece terem outras coisas), depois, marquês de Pombal, quem ordenou a execução dos planos para a reconstrução de uma nova cidade, sem se esquecer de mandar vazar o entulho da outra na beira rio, na faixa que seguia do cais do Sodré para a foz. Quis uma cidade moderna, segura, arejada, de amplas ruas. Uma cidade feita com o ouro que ainda ia chegando do Brasil e não com o suor do engenho nacional.


Desde que Portugal se reencontrou na dimensão anterior a 1415, em 1975 (as Regiões Autónomas são, ou deviam ser, isso mesmo: autónomas!), perdeu-se por desconhecer a sua vocação europeia. Mas foi por pouco tempo! Depois dos desmandos iniciais, eis que uma nova torneira aurífera se abre e, sobre todos, caem milhões a jorros. Tínhamos descoberto um novo Brasil chamado Comunidade Europeia! Esbanjou-se como só sabem esbanjar os Portugueses habituados ao comércio ultramarino (ele foi o dos escravos, do gengibre, do açúcar, da pimenta, do cravo, da canela, da seda, da porcelana, do pau brasil, das madeiras, das mobílias exóticas, do marfim, das pérolas, do ouro, da prata, dos diamantes, do café, do cacau e dos escravos... dos valiosos escravos a quem tantas fortunas se ficaram a dever!). Esbanjaram deixando pouco para todos (do ultramar, ficaram uns palácios reais, umas igrejas, um aqueduto de águas ditas livres, uma cidade e uma vila – Real de St.º António – e um monstruoso convento, em Mafra, um ermo até então; da Comunidade, ficaram as autoestradas, uns arranjos aqui e acolá e um mastodôntico Centro Cultural). Esbanjaram, mas encheram-se os bolsos de muitos, gastando na construção de boas vivendas, na compra de excelentes automóveis, de terrenos para comércio, de barcos de recreio e mais outros luxos que a ninguém trazem proveito.


Quando se esbanjavam os milhões europeus não se sentiam os abalos telúricos efectivamente existentes. Não se sentiram, porque, pese embora o doutoramento de Cavaco Silva ter sido conseguido na Grã-Bretanha, faltava-lhe o entendimento de Sebastião José, a mão pesada do conde de Oeiras e a centelha de estadista do marquês de Pombal. Faltando-lhe tudo isso, os abalos foram solapando um Portugal recentemente encolhido a uma dimensão peninsular e europeia que lhe era desconhecida. Caímos no buraco da inexperiência da nossa hereditária pobreza territorial e, sem vocação para fazer mais nada, nada mais fizemos! E nada mais vamos continuar a fazer se um qualquer Bartolomeu de Gusmão não inventar uma passarola interplanetária para chegarmos a sítio onde possamos, ou escravizar, ou comerciar missangas por excelentes produtos em falta no planeta Terra.


Estamos, como sempre, perdendo o tempo, à espera de um Sebastião...

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Luís Alves de Fraga às 09:52


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Novembro 2005

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930