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Fio de Prumo



Sábado, 06.08.16

2.ª Guerra Mundial

 

Ainda há dias me perguntaram se eu me lembrava de alguma coisa da 2.ª Guerra Mundial. Não me recordo de nada estranho ao meu meio familiar a não ser do dia em que acabou o conflito, julgo, na Europa, ou seja, quando a Alemanha se rendeu. Já aqui escrevi sobre esse assunto há bastante tempo.

 

Depois dessa memória distante, só me lembro dos medos da minha Mãe!

Adivinho a interrogativa dos meus leitores. Sim, os medos!

A minha Mãe era uma mulher de coragem, mas tinha medos terríveis. O seu grande pânico era que, de um momento para o outro — não sei bem como — os Alemães chegassem a Lisboa e nos fossem prender — não sei porquê, tanto mais que até nem somos judeus! — e, então, ela já tinha esconderijo para nós! Nada mais nada menos do que no forro da casa. É que, em algumas das divisões, havia clarabóias por onde se podia subir para o forro. Seria lá que a minha saudosa Mãe nos esconderia — a mim, a ela e à minha Irmã, mais velha do que eu sete anos.

Santa inocência! Para não dizer, santa ignorância!

 

Mas e onde estava o meu Pai? Pois, esse era o outro grande medo da minha Mãe! É que o meu Pai andava embarcado no único navio petroleiro que transportava ramas para a refinaria da Sacor, em Cabo Ruivo. Era um petroleiro da Armada e que nem uma miserável peça de artilharia tinha a bordo — era o S. Brás que acabou como navio "logístico" da Armada — e que se tocasse uma mina explodia em menos de um fósforo se acender! E a minha santa Mãe ensinava-me a rezar orações infantis ao Anjo da Guarda para que fosse a minha protecção e a dos que estavam doentes e a dos que andavam no mar. Os olhos enchiam-se-lhe de água e a voz tremia quando assim me instruía na doutrina católica. Que saudades dessa Mulher doce e lacrimosa que me obrigava, com suavidade, a olhar uma estampa de um Anjo da Guarda, que protegia uma criança, metida numa moldura, e que estava pendurada na parede de um dos quartos de nossa casa!

 

Depois vem-me à lembrança outra recordação desses tempos. Aí já não era o medo da minha Mãe, mas a sua tenacidade, a sua preocupação em arranjar para nós o que de melhor podia para pôr na mesa, às refeições. Recordo-me de estar nas filas do racionamento para comprar peixe, julgo eu! Não se vendia em todo o lado. Era preciso ir aos postos abastecedores e lá ficava eu, com o meu irrequietismo, preso na mão firme da minha Mãe, enquanto se esperava por ser atendido.

 

E no dia em que passam setenta e um anos sobre o lançamento da primeira bomba atómica, eis as minhas lembranças da guerra, que foi a grande companheira dos meus tempos de crescimento. Eu não tinha consciência, mas, quando fiz treze anitos só haviam passado nove sobre o fim desse tremendo conflito militar que deixou a Europa de rastos para sempre enquanto potência com comando mundial.

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por Luís Alves de Fraga às 21:05



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