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Fio de Prumo



Quarta-feira, 15.03.06

Austeridade com dignidade

            

Há pouco mais de uma semana, um camarada meu, oficial general da nossa Armada, convidou-me para um almoço na Messe da Marinha, no Arsenal, na zona da Praça do Comércio, em Lisboa. Aceitei com agrado o convite, porque desconhecia, em absoluto, aquelas históricas instalações.

À hora combinada (para ser verdadeiro, com um pequeno atraso da minha parte) lá nos encontrámos. O meu anfitrião, Amigo de infância, calmo e ponderado, recatado e sensato, perfeitamente imbuído do espírito naval, fez questão de que entrássemos pelo lado virado ao largo do Município, onde há um túnel.

Sabedor do meu interesse pela História de Portugal, por ali me levou, confiante no espírito de observação com que olho para as mudas pedras seculares. Realmente, foi com uma certa sensação de estar a percorrer caminhos da História que passei o túnel. Por lá entraram, já cadáveres, D. Carlos e D. Luís Filipe, quando foram baleados, em Fevereiro de 1908. Ainda ecoa, algures por aquelas paredes, o diálogo amargo de duas mães desesperadas — D. Maria Pia e D. Amélia — quando ambas choravam as mortes dos respectivos filhos. À memória veio-me, naquele escasso minuto que demorou a nossa estadia na zona, a garra, o brio e o denodo com que os marinheiros se bateram, naquele portão, quando revoltados, a 14 de Maio de 1915, com outras forças que entendiam as boas razões de uma saudável política beligerante, contribuíram para a queda do Governo Pimenta de Castro, primeiro ditador da República portuguesa. Na noite de 19 de Outubro de 1921, por ali entrou vivo o demissionário chefe do Governo, António Granjo, e daquelas paredes chegaram-me aos ouvidos a algazarra da turba enraivecida que barbaramente o assassinou.

Com uma atenção e um cuidado incrível, o meu Amigo foi-me mostrando recantos históricos dos edifícios e, na grande parada, hoje reduzida a parque automóvel, onde, noutra época, existiram os estaleiros donde saíram os navios da nossa Armada, apontou-me os restos da doca seca posta a descoberto para lembrar que Portugal não foi só uma pátria de marinheiros, mas já teve hipóteses de possuir uma marinha à altura das suas necessidades.

Fomos para o edifício da ala esquerda, o último a ser consumido pelas chamas de um incêndio — como quase todos havidos em velhas construções — mal explicado. É lá que se instalam as messes de oficiais. Não vi luxo de espécie nenhuma. Tudo muito funcional, impecavelmente limpo e organizado. Quatro salas distintas: uma reservada à oficialidade em geral, outra para o Chefe do Estado-Maior da Armada e seus convidados, mais uma para os capitães-de-mar-e-guerra e outra para os almirantes. Estas últimas não apresentavam entre si diferenças significativas; eram sóbrias, dignas, arejadas. Mobiliário do nível de qualquer restaurante de mediana condição.

Servidos por militares femininos, comemos uma sopa de caldo verde e bacalhau assado com batata a murro. Como sobremesa, uma peça de fruta. Assim comem os almirantes da nossa Armada. Comem o mesmo que o restante pessoal. Não há desperdícios nem excessos. Tudo muito longe do restaurante da Assembleia da República onde se banqueteiam os deputados da nação — e onde, também, já comi por convite de um político! Provavelmente os preços serão diferentes, mas, se em S. Bento são mais elevados, é porque maiores são os rendimentos de quem usufrui de tais mordomias.

Acabado o repasto, o meu Amigo fez questão de me levar a caminhar pelos inúmeros corredores de onde se enxergam os gabinetes de trabalho do Estado-Maior. É constante a austeridade, a eficiência e a impecável limpeza. A par disso, nas paredes, nos amplos locais de passagem, vêem-se fotografias, quadros e miniaturas de embarcações, espelhando a glória de uma marinha que já viveu dias mais desafogados e agora, com muita dignidade, prudência e economia, vive a falta de um orçamento suficiente, porque os políticos entenderam que as Forças Armadas esbanjavam os magros cobres que nestes últimos trinta anos lhes foram atirando com desprazer e quase desprezo. No miserabilismo forçado que nos foi imposto, senti orgulho na Armada e vaidade por fazer parte da corporação militar que sabe manter a verticalidade quando, alguns, desejavam vê-la vergada.

Portugal continua a merecer o sacrifício dos militares, embora a mesquinhez dos políticos portugueses mereça somente o olhar altivo de quem veste uma farda por amor e vontade de abnegadamente Servir.

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por Luís Alves de Fraga às 01:27


4 comentários

De deprofundis a 15.03.2006 às 15:16

Não deixa de ser curioso que, nos dois anos que passei no Exército dos EUA, tenha observado a mesma "austeridade com dignidade" que tão bem relatou neste artigo. Nesse particular, estamos no bom caminho.

De cic_lista a 18.03.2006 às 15:08

Bonito artigo que consegue transportar-nos no espaço e no tempo.
Comungo na admiração pelas Forças Armadas Portuguesas, que mesmo devotadas a um abandono orçamental, possuem arte e engenho para cumprir exemplarmente a sua missão.
Acredito piamente na submissão das Forças Armadas ao poder político; submissão, não o servilismo que se observa amiúde. Pena é realmente que ultimamente este poder político apenas faça sentir que despreza quem tão bem serve a Nação.
Viva Portugal

De MSantos a 20.03.2006 às 23:13

de facto esta admiração pela passagem pelo 'CEMA', pela frugal da refeição...etc etc, pelas 4 salas para 'graduados' ...rsrssrsrsr
faz-me 'espirrar'.
São dispensaveis tons laudatórios para as FA's, no caso 'a marinhagem'.

De PRrama a 23.03.2006 às 13:46

aspas, aspas....
estamos no sec XXI em pleno....

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