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Fio de Prumo



Sexta-feira, 16.09.05

Militares

Com a devida vénia, transcrevo o artigo hoje publicado no Diário de Notícias, da autoria do jornalista Pedro Lomba:


 Uma pessoa confunde-se. A lei proíbe, não sem equívocos, manifestações políticas, partidárias e sindicais de militares. Não é uma pequena coisa. Os militares têm armas. Os militares podem fazer soçobrar o Estado. E porque é esta a força que têm, os militares não podem agir como uma corporação reivindicativa, enchendo ruas e fazendo greves. Mas, repito, uma pessoa confunde-se.


Em primeiro lugar o PS e os partidos à esquerda do PS foram sempre permissivos com o sindicalismo militar e com uma visão laborista das Forças Armadas. Anteontem, num diário, um antigo juiz do Tribunal Constitucional conotado com o PCP advertia que as interpretações da lei poderiam acabar, na prática, por esvaziar o direito de manifestação dos militares. Agora, alojado no poder, o PS defende a ordem pública e a autoridade do Estado. É o mesmo PS que, durante o período guterrista, acumulou sem sentido ministros para a Defesa e transformou o SIS em chacota pública?


Na verdade, pense-se o que se pensar sobre as críticas dos militares ao Governo, e na falta de razão de muitas delas, há um descontentamento nas Forças Armadas que não deixa de ser justificado. Ao longo de anos, sucessivos governos foram pedindo cada vez mais e dando cada vez menos aos militares. A esquerda, quando não adere ao puro histerismo antimilitarista, vacila neste lábil paradoxo por um lado, envolve os militares em missões de paz no estrangeiro, com o fim de exibir a nossa comovida preocupação pela paz internacional; por outro, diminui o seu peso político e orçamental. A moda em voga é termos umas forças armadas profissionalizadas e modernas. Mas não se querem militares profissionais para serem pobres e meros administrativos. Com militares profissionais, o País tem de lhes oferecer outras condições e dignidade. Custa à cultura política dominante, que os execra, aceitar isso.


Pedro Lomba


pedro.lomba@clix.pt


Porque gostei da forma isenta, honesta, mas nem sempre esclarecida, usada por este conhecido articulista, permiti-me enviar-lhe a seguinte mensagem electrónica:


Exmo. Senhor

Acabei de ler o seu comentário no DN de hoje. Poder-lhe-ia «oferecer de bandeja» mil e uma razões para o descontentamento dos militares (na situação de activo, reserva e reforma), mas há uma coisa que tem de ser realçada convenientemente: os militares, como profissionais que são da «gestão da violência legal e legítima» de qualquer Estado (no caso português) não querem ter sindicatos, nem desejam lutas sindicais. Querem (como muito bem diz e chama a atenção no seu artigo) coerência governativa e, acima de tudo, Justiça.

Vou dar-lhe um exemplo. Não sei quanto ganha de salário líquido V. Exa., nem lho vou perguntar, nem vou pôr em causa a sua «função utilitária social», nem compará-la com a dos militares; mas quase que garanto que V. Exa. ganha mais do que um coronel (no activo, porque, de certeza, ganha mais se ele estiver na reforma!).

Vamos só fazer um pequeno exercício de escalonamento funcional.

Onde se situará, funcionalmente, V. Exa. no grupo dos jornalistas de todos os jornais portugueses? Isto é, se hierarquizássemos os jornais e quem lá trabalha, em que lugar estaria V. Exa.?

Pois bem, um coronel, em Portugal, seja qual for as funções que ocupe, situa-se na hierarquia do Ramo das Forças Armadas a que pertencer, normalmente, entre o quarto e o quinto lugar a contar do topo, ou seja, terá antes dele dois generais, no máximo três, e depois o Chefe do Estado-Maior respectivo!

Use V. Exa. a inquestionável inteligência que mostra todos os dias aos Portugueses e diga-me se não se trata de um problema de Justiça! Não se pode ter um indivíduo no topo de uma escala de grande responsabilidade e pagar-lhe o mesmo que se paga a um outro que está, funcionalmente, muitíssimo mais para baixo na actividade que desempenha! Ora, se estamos a falar de pagamentos de coronéis, imagine, V. Exa., o que se passa com um sargento ou um cabo, porque os pagamentos estão, também, e como não podia deixar de ser, hierarquizados.

Olhe, agora, V. Exa., para a situação dos reformados... felizes os que morrem com pouco mais de 65 anos, porque se limitam a ver as suas pensões reduzidas em cerca de, , 20% do valor que ganhavam à data da passagem à reforma. E os gastos com a saúde? E o sentido de dignidade de quem serviu uma vida inteira para estar 24 horas, em 365 dias, disponível para sofrer lesões estropiantes, doenças e tudo o mais que enumerar é, até, já fastidioso?

Já que V. Exa. «mexeu» na questão dos militares, por que não levá-la até ao fim? Compare V. Exa. o vencimento de um director-geral com o de um tenente-general? Conte quantos directores-gerais existem na função pública e quantos tenentes-generais existem nas Forças Armadas? Ficará simplesmente abismado, talvez mudo!

Saberá, V. Exa., que, em 1979, um coronel ganhava sensivelmente o mesmo que um juiz de círculo, um professor catedrático e um chefe de serviços (da função pública); actualmente é o que ganha, incomparavelmente, menos de todos eles!

A assistência na doença para nós e nossas famílias foi a forma como o Estado Novo (Marcello Caetano) criou uma espécie de «companhia de seguros» através da qual se compensavam todas as disponibilidades funcionais exigidas aos militares... Saía mais barato do que pagar como deveríamos ser pagos se comparados com os nossos congéneres dos países europeus e/ou americanos!

Já agora, poderá V. Exa., se o seu precioso tempo para isso lhe chegar, dar uma vista de olhos pelo meu blog, cujo endereço abaixo indico.

Só mais um esclarecimento. Fiz a minha escolha pela vida militar por declarada vocação juvenil. Poderia ter optado pela frequência de um curso de Economia, Direito ou de História, por exemplo. O meu currículo académico, começado depois dos 40 anos de idade, sem falsas modéstias, fala por si. Quando escolhi ser oficial, já se ganhavam chorudos salários em qualquer das áreas antes indicadas, contudo, optei por servir a Pátria, numa altura em que tinha começado a guerra em Angola! Como eu, todos os «jovens» oficiais, agora na reserva ou reformados, com idades compreendidas entre 61 e 64 anos. Merecíamos um pouco de respeito de uma Nação a quem, também, demos, sem nada cobrar, a Democracia!

Aceite os meus respeitosos cumprimentos

Luís M. Alves de Fraga



Coronel da Força Aérea (R)


 


Em consciência, parece-me que, por agora, não tenho nada mais a acrescentar ao que deixei dito. Cada um tire por si as conclusões que julgar convenientes. Recomendo um só cuidado: seja honesto.


Prometo voltar ao assunto.

 

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por Luís Alves de Fraga às 14:21



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